Clubes da Série A podem perder R$ 1 bi com projeto que proíbe publicidade de bets
5 Mar, 2026
O projeto de lei que propõe a proibição de todas as modalidades de publicidade, patrocínios ou promoção de apostas esportivas e jogos de azar online causa temor nas bets , que avaliam que a indústria do futebol vai colapsar caso o PL seja aprovado. A proposta está na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado , à espera da designação do relator. No início do mês, o projeto foi aprovado na Comissão de Ciência e Tecnologia (CCT) . A versão apreciada foi apresentada pela relatora, a senadora Damares Alves (Republicanos-DF), e substitui o texto original, de autoria do senador Randolfe Rodrigues (PT-AP). Escândalos com apostas esportivas são onipresentes. Resta saber se os fãs se importarão com isso Não há estouro de bolha das bets, mas clubes começam 2026 com menos patrocínios de casas de apostas Inscreva-se no novo canal do Estadão Esportes no YouTube PUBLICIDADE O texto altera a Lei das Apostas Esportivas para proibir, em todo o País, ações de comunicação e publicidade de apostas de quota fixa, modalidade em que o valor do prêmio é definido no momento da aposta. A vedação inclui anúncios em rádio, televisão, jornais, revistas e redes sociais, além de patrocínios a eventos e clubes esportivos e de publicidade indireta, como a inserção de marcas em programas de TV ou em transmissões esportivas. Também fica proibida a pré-instalação de aplicativos de apostas em celulares, tablets e smart TVs. Publicidade O senador Randolfe Rodrigues justifica que as propagandas sugerem, por vezes, “as apostas como meio de vida e de investimento, induzindo pessoas que nunca fizeram apostas a entrar nesse mercado por meio da oferta de bônus”. Damares afirmou que é necessário “impor limites claros à atuação comercial das casas de apostas” e associou o vício em apostas à deterioração da saúde mental. “A proposição oferece resposta legislativa proporcional à gravidade do problema diagnosticado pelo Senado Federal”. Nos bastidores, existe o entendimento de que a pauta não vai avançar no Congresso. Ainda que seja aprovada na Senado, o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta, não deve pautar a matéria na Casa. Fontes ligadas a casa de apostas, incluindo empresários do setor, advogados e outros representantes das bets, são unânimes ao discordar do projeto de lei e argumentam que a proposta, caso aprovada, beneficiaria sites de apostas clandestinos que, hoje, compõem 49% do mercado, segundo estimativa do setor. Publicidade Restringir de forma ampla a publicidade das empresas autorizadas enfraquece essa diferenciação perante o mercado ilegal e pode comprometer a efetividade da própria regulação", considera a Superbet, patrocinadora de São Paulo e Fluminense. “Qualquer medida dessa magnitude precisa considerar seus impactos econômicos, institucionais e sociais, preservando a previsibilidade e segurança jurídica, bem como o equilíbrio do mercado”, complementa. O mercado paralelo das bets arrecadou R$ 18,1 bilhões no primeiro semestre de 2025, conforme estudo da Yield Sec, enquanto o governo deixou de arrecadar R$ 4,6 bilhões em impostos. No Brasil, hoje, existem 84 empresas autorizadas pelo governo a operar legalmente, com 185 marcas diferentes. Outras duas firmas, com seis marcas, estão autorizadas por determinação judicial. Representantes do setor projetam que, no futuro, com o amadurecimento regulatório, esse número deve cair pela metade. Parte das empresas deve encerrar atividades. Outras, vender suas operações. Publicidade PUBLICIDADE Para Diego Bittencourt, executivo da Startbet, a proibição da publicidade devastaria 90% da indústria do futebol. “Seria quase equivalente a uma proibição total do mercado”, afirma. Segundo ele, a medida poderia concentrar o setor em uma ou duas gigantes, criando um ambiente próximo do monopólio. Regulamentado desde janeiro de 2025, o setor registrou receita bruta de R$ 37 bilhões no ano passado, a partir de 25 milhões de brasileiros que fizeram apostas em 2025, conforme a Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda. A estimativa é de que as casas ilegais movimentaram cerca de R$ 30 bilhões. De acordo com a Flutter Brazil, que controla Betnacional , patrocinadora do Cruzeiro , e Betfair , o setor arrecadou R$ 12 bilhões em tributos. Conforme dados do Banco Central, os brasileiros gastaram entre R$ 20 bilhões e R$ 30 bilhões por mês em 2025. “Restringir a comunicação das empresas autorizadas pode gerar um efeito prático indesejado que é limitar quem cumpre a lei, enquanto quem já opera à margem dela seguirá atuando”, afirma a Flutter, em nota enviada à reportagem. O grupo diz defender “um ambiente regulatório equilibrado, que não penalize quem cumpre as regras, assegure segurança jurídica e combata com efetividade a atuação ilegal”. As plataformas de apostas também alegam que as regras não podem mudar “com o jogo rolando” porque a medida geraria “grande insegurança jurídica e afastar investidores do país”, assinala André Gelfi, diretor, conselheiro e cofundador do Instituto Brasileiro de Jogo Responsável (IBJR). As empresas de apostas são as principais parceiras comerciais da maioria dos 20 clubes da Série A do Brasileirão desde 2021. No ano passado, despejaram mais de R$ 1,1 bilhão em todas as 20 (18 delas como patrocinadores master) equipes que patrocinaram. Neste ano, o valor caiu um pouco, para quase R$ 1 bilhão, à medida que hoje 14 clubes são patrocinados por bets - em 13 deles o patrocínio é master. “Sem esses recursos, os clubes precisariam ter um desempenho esportivo extraordinário apenas para conseguir manter o seu planejamento e a sua gestão estratégica”, avalia Gelfi. O IBJR calcula que, em média, os clubes da Série A recebem 2,6 vezes mais em contratos de patrocínio com as bets do que faturam em premiações esportivas. Os outros seis times do Brasileirão - Coritiba , Inter , Grêmio , Mirassol , Vasco e Bahia - não têm mais parceria com plataformas de aposta por enquanto. A redução no investimento, dizem fontes do setor, têm a ver com um ajuste natural de mercado devido à regulamentação, em vigor desde o começo de 2025. As empresas pagaram R$ 30 milhões para obter a licença para operar, além de recolher impostos. Publicidade As bets também despejam vultosos valores em transmissões de futebol no rádio e em TV, federações, influenciadores, torcidas organizadas, no Carnaval, e dão nome a estádios e competições, incluindo o Brasileirão, a liga mais importante de futebol do País. “É difícil fugir das bets”, disse em entrevista recente ao Estadão o presidente da Federação Paulista de Futebol (FPF), Reinaldo Carneiro Bastos . Leila Pereira , presidente do Palmeiras, seguiu a mesma linha de raciocínio quando suas empresas saíram do Palmeiras para dar lugar a Sportingbet como patrocinadora master do clube. Segundo a dirigente, as casas de apostas pagam “valores relevantes”. Já consolidados em outros mercados com alta regulamentação, os grupos estrangeiros de casas de apostas seguem sendo os principais patrocinadores do futebol brasileiro. A Betano, do grupo grego Kaizen Gaming, é a responsável pelo maior patrocínio da história do futebol brasileiro. Paga anualmente R$ 268 milhões ao Flamengo. “As bets não vão sair do futebol porque nosso principal negócio é o esporte. é o futebol”, opina Guilherme Figueiredo, da Betano. O que vai acontecer é uma redução de valores, mas a chance de essas camisas serem ocupadas por casas de apostas continua sendo muito grande, porque as casas de apostas precisam precisam estar naquele momento que o jogo acontece. Guilherme Figueiredo, diretor da Betano Ele entende que os R$ 268,5 milhões anuais que a Betano paga ao Flamengo representam o teto, isto é, nenhuma empresa investirá mais que isso em patrocínio no futebol brasileiro. Publicidade “O Corinthians acabou de renovar o contrato dele por um valor maior. Até parabenizei o diretor de marketing falando que provavelmente ele fez o último grande contrato de uma casa de apostas”, contou o executivo, em referência ao novo acordo que Corinthians fez com a Esportes da Sorte, saltando de R$ 103 milhões para R$ 150 milhões o aporte anual ao clube. “A tendência é, sim, haver uma redução porque é uma questão de ajuste do mercado”.