Futuro do reporte climático: a transição inevitável rumo à economia de baixo carbono
9 Mar, 2026
O avanço das exigências globais de transparência climática torna cada vez mais inviável analisar regulações ou medidas de forma isolada. A transição para relatórios completos sobre riscos climáticos, especialmente com dados de emissões do escopo 3 — o mais complexo, por envolver toda a cadeia de valor — não é apenas uma tendência técnica. Trata-se de uma mudança estrutural na forma como as economias organizam sua competitividade, alocam capital e constroem resiliência no longo prazo. Mesmo em um cenário geopolítico marcado por avanços e retrocessos, a direção global é inequívoca: o mundo está caminhando para um modelo econômico de baixa emissão de carbono, com impactos diretos e profundos sobre empresas, mercados e políticas públicas. O Brasil deu um passo decisivo ao incorporar, de forma obrigatória, os padrões IFRS S1 e S2 a partir de 2026 para empresas de capital aberto, após um período de adoção voluntária iniciado em 2024. Esse movimento coloca o país entre os líderes globais na harmonização entre demonstrações financeiras e informações de sustentabilidade — ao lado de jurisdições pioneiras. Ao adotar os padrões do International Sustainability Standards Board (ISSB) , o país reforça seu compromisso com transparência, comparabilidade e integridade dos dados . Mais do que isso, insere o Brasil no fluxo global de capital que exige informações climáticas robustas e verificáveis. Trata-se de um movimento pragmático: investidores institucionais internacionais já tratam dados de emissões e riscos climáticos como elementos centrais de avaliação financeira. Em contraste, os Estados Unidos adotaram um caminho distinto. Em 2025, a Securities and Exchange Commission (SEC) r etirou sua defesa da regra climática que obrigaria empresas a divulgar riscos relacionados ao clima e dados de emissões. O gesto foi interpretado globalmente como um retrocesso regulatório significativo. Entretanto, esse movimento não altera a tendência mundial — apenas reduz a liderança norte-americana no tema. A própria SEC reconhece que informações climáticas devem continuar sendo divulgadas quando forem “materiais” para investidores, mantendo a relevância estratégica do tema dentro do mercado financeiro. Adicionalmente, iniciativas estaduais, como as da Califórnia, seguem em direção oposta ao governo federal, estabelecendo regras robustas de reporte de emissões, inclusive para escopos 1, 2 e 3 em grandes empresas. É um lembrete de que, na economia americana, a dinâmica regulatória é multiescalar: quando o nível federal hesita, estados e investidores avançam. Na Europa, a agenda climática não apenas continua avançando — ela está redefinindo a lógica de competição internacional. O CBAM (Carbon Border Adjustment Mechanism) entrou em seu regime definitivo em 1o de janeiro de 2026. Com isso, tornou-se um instrumento real de precificação de carbono aplicado a bens importados de setores intensivos em emissões. Fornecedores globais, inclusive brasileiros, passam a ter de apresentar emissões verificadas ou arcar com custos adicionais. É uma mudança estrutural que conecta comércio exterior, política industrial e transição climática. Complementarmente, a CSRD (Corporate Sustainability Reporting Directive) passou a exigir relatórios de sustentabilidade completos e padronizados a partir de 2024, com ampliação gradual até 2026. Ao integrar esse padrão às operações de milhares de empresas europeias — incluindo subsidiárias de multinacionais — a Europa institucionaliza o reporte avançado como um requisito básico para operar em seu mercado. É um recado direto às economias exportadoras: a transparência climática não é mais um diferencial; é condição de acesso. Apesar de ainda ser o maior emissor global, a China está reposicionando sua matriz energética em velocidade e escala inéditas. A expansão das energias renováveis, especialmente solar e eólica, permitiu que, em 2024, essas fontes alcançassem 56% da capacidade instalada do país — superando o carvão no total global de geração renovável. Esse marco reforça a ascensão chinesa como potência energética verde, apoiada por políticas industriais consistentes, investimentos massivos em tecnologia e metas climáticas crescentes. A expectativa para o próximo Plano Quinquenal inclui novas metas de redução de emissões para 2030, consolidando a liderança do país não apenas no combate às mudanças climáticas, mas na definição da economia do futuro. Ao observar cada país individualmente, é possível enxergar avanços e retrocessos. Mas quando ampliamos o olhar para o sistema global, a conclusão é inequívoca: o mundo está saindo dos combustíveis fósseis como base de competitividade e crescimento. O Brasil adota padrões internacionais reconhecidos ; a Europa estabelece mecanismos econômicos que penalizam emissões e premiam eficiência; a China assume o protagonismo renovável e redesenha sua matriz industrial; e mesmo com movimentos pontuais de recuo, como nos EUA, investidores e mercados mantêm pressão constante por informações climáticas robustas. A partir de 2026, o Brasil não estará apenas aderindo a uma exigência regulatória local. Ele se alinhará a um novo padrão global de governança, competitividade e transparência — condição indispensável para acessar mercados, cadeias globais de valor e capital internacional. Empresas que ainda tratam emissões e riscos climáticos como agenda ambiental ou reputacional estão atrasadas. O tema é econômico, financeiro e estratégico. A pergunta que importa agora não é se devemos reportar escopos 1, 2 e 3. A pergunta é: Estamos estruturando nossos dados, nossa governança e nossa estratégia para competir em um mundo onde carbono tem preço, transparência é exigida e omissão custa caro? A corrida não é por quem se adapta primeiro, mas por quem consegue transformar o reporte climático em vantagem competitiva, antes que ele se torne um passivo intransponível. Sobre a autora Sobre a autora Velma Gregório é CEO da ÓGUI, consultoria em Estratégia e Governança da Sustentabilidade. Profissional experiente em planejamento estratégico da sustentabilidade, com histórico em diversas integrações da agenda ESG à estratégia corporativa. MBA em Gestão de Sustentabilidade na Fundação Getúlio Vargas, Especialização em Marketing e Comunicação na Faculdade Cásper Líbero com extensão na Universidade da Flórida. Credenciada pela Global Reporting Initiative (GRI) e Completion in Understanding the Recommendations of TCFD, Climate Reality Leader além de ter formação e atuação como Board Member pelo IBGC. (*) Disclaimer: Este artigo reflete a opinião do autor, e não do jornal Valor Econômico. O jornal não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizado pelas informações acima ou por prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso destas informações.