Silvio de Abreu e Raphael Montes, dois autores em busca de uma história ainda melhor

admin
17 Mar, 2026
“São prazeres distintos”, diz Raphael Montes sobre trabalhos como escritor e roteirista Em entrevista ao Estadão, autor também falou sobre o processo criativo de ‘Bom dia, Verônica’ e ‘Uma Família Feliz’. O dramaturgo e diretor Silvio de Abreu tem 83 anos, é autor de inúmeras novelas de sucesso e foi supervisor de dramaturgia da TV Globo. Raphael Montes está com 35 anos, tem mais de um milhão de exemplares vendidos de obras como Jantar Secreto, Dias Perfeitos, Suicidas, Uma Família Feliz e O Vilarejo, venceu o Jabuti com Uma Mulher no Escuro e tem uma carreira bem-sucedida em séries no streaming. Os dois trabalharam juntos na primeira temporada de Beleza Fatal – que surpreendeu pela audiência na plataforma HBO Max e chega agora à TNT com exibição diária – e agora preparam o roteiro da segunda temporada. Nesta matéria exclusiva, eles falaram sobre suas influências, sintonia, processo criativo e a parceria que tem dado certo. Reconhecem que pensam dramaturgia do mesmo jeito, mas o gosto pelo suspense, pela comédia, o respeito mútuo e o bom humor foram fatores decisivos para escrever a série que trouxe de volta os bons tempos em que o último capítulo de uma novela virava um acontecimento. “Há trinta anos isso não acontecia”, confirma Silvio de Abreu. Raphael Montes conta que acertou quando pensou no marketing para que o último capítulo fosse um grande evento. Eles assistiram junto com a equipe na casa da atriz Camila Pitanga, enquanto recebiam mensagens mostrando pessoas reunidas em casas e bares em várias regiões do Brasil para conferir o final. Imaginação, nunca faltou para os dois. Com 8 anos de idade, Raphael já assistia às novelas e suas preferidas eram as de suspense e mistério, como as de Silvio de Abreu e Gilberto Braga. Lembra até hoje o capítulo da explosão de um shopping da novela Torre de Babel, de Silvio. Esses temas continuaram fascinando sua adolescência a partir dos 12 anos, quando começou a ler os juvenis de Pedro Bandeira e Stella Carr e os livros da coleção Vagalume. Depois vieram Agatha Christie, Arthur Conan Doyle e outros do gênero. “Eu me apaixonei por literatura policial. A gente não percebe, mas as referências vão chegando”, diz o escritor. E ele brincava do seu jeito: “Nunca gostei de desenho animado, mas eu tinha os bonecos da época, como os Cavaleiros do Zodíaco, só que não sabia o que faziam e inventava histórias para eles. Mais tarde, quando descobri os personagens, vi que eram absolutamente diferentes do que eu tinha imaginado.” Silvio comenta que as novelas mais antigas tinham histórias e não eram baseadas só em cenas, e por isso faziam sucesso. “Era uma narrativa global. Acho que isso é que encantava o Raphael, ele já era um escritor.” Por sua vez, Silvio de Abreu passou a infância no cinema, já que ainda não havia televisão. “A primeira vez que vi um filme tinha 5 anos. Eu gostava de histórias em quadrinhos e recortava tentando fazer um filme para passar em uma caixa de papelão. Essa era a minha diversão.” Parceria profissional As novelas, certamente, são pontos em comum. Raphael diz que como qualquer jovem suburbano sonhava em fazer novelas, mas ouvia a história das dificuldades dos autores e resolveu que seria difícil seguir esse caminho. “Pensei: vou fazer literatura, que eu também amo, e só preciso de papel, sentar e escrever, sem convencer ninguém.” A literatura o levou para o audiovisual, mas quando foi convidado pela Globo para fazer séries de suspense voltou o desejo de fazer novelas, revelado para a produtora Mônica Albuquerque, que posteriormente foi para a HBO e conseguiu juntar a dupla para Beleza Fatal. Na Globo, atuou com João Emanuel Carneiro na novela Regra do Jogo como colaborador, com quem aprendeu muito. ‘Quem sente a violência é quem sofre, quem pratica com frequência, não’, diz Raphael Montes Autor de ‘Dias Perfeitos’ fala que a vontade de escrever o livro veio da ideia de que a pessoa muitas vezes faz o mal para alguém e não percebe. Crédito: Dois Pontos/ Raphael Montes Na época da Globo, depois de ler e gostar muito dos livros do Raphael, Silvio pediu um texto de novela para ele, que nunca foi entregue - o jovem talentoso logo mudou para o streaming. Mas o reencontro foi em grande estilo. Silvio estava em Nova Iorque, já contratado pela HBO como supervisor, quando recebeu de Mônica algumas ideias para a nova minissérie. Leu todas e não teve dúvidas de que a de Raphael era a melhor. Quando começou a escrever a história de Beleza Fatal, outra coincidência. Raphael mandou para Silvio a primeira escaleta, o esqueleto do primeiro capítulo. “Silvio comentou que sempre tinha feito daquela forma. Eu tinha aprendido com o Emanuel Carneiro, que tinha aprendido com ele.” “O Rafael é a quarta geração de escritores que eu supervisiono. Comecei com o Carlos Lombardi em 1983, depois Maria Adelaide Amaral e o Alcides Nogueira e, em outra fase, o João Emanuel Carneiro e outros autores”, detalha Silvio. Os dois têm afinidades, se admiram e se respeitam, além de liberdade para falar o que pensam: “Às vezes eu ligo para o Silvio e digo que sei o que vai acontecer, mas não sei como. E ele vem com um arsenal de saídas. Trabalhei com outros autores que nesses momentos querem trabalhar a trama, pensar o personagem. Silvio é direto como eu.” “Muitos dos autores que eu supervisionei viraram bons autores porque sempre respeitei o trabalho deles. Eu ajudo sem querer impor o meu ponto de vista. Se eu dou uma sugestão e ele não gosta, a palavra dele é soberana, a novela é dele. Esse respeito que existe nos aproxima muito”, comenta Silvio. Diferença de idade Até agora, a diferença de idade só ajudou a dupla. “Silvio é atualizado. Todo autor, independente da idade, tem que ter antena para o mundo. Nossas experiências são diferentes. Eu fiz minha carreira como autor no streaming. Ou seja, eu comecei como colaborador na TV tradicional, mas a primeira vez como autor foi fazendo Bom Dia, Verônica, na Netflix. Depois veio filme para a Amazon Prime e Beleza Fatal para o HBO. Essa ideia de trabalhar para o streaming é diferente de fazer televisão aberta em vários sentidos, inclusive na dramaturgia, o ritmo é outro”. Sílvio concorda. “Quando você faz uma novela para TV aberta, a pessoa assiste fazendo outras coisas, perde capítulos, o autor é obrigado a reiterar informações, é o que engrossa uma novela para 200 capítulos. No streaming não precisa, o espectador é muito mais ativo, ele tem um enorme cardápio para escolher e pode rever quando quiser.” Eles acreditam que Beleza Fatal daria para fazer em 200 capítulos com a mesma história, mas foram enxugando para dar o ritmo que a plataforma pede, além de ser outra forma de lidar com a estrutura da produção. Se na trama pensam parecido, na escolha do personagem há diferença. Silvio escolhia o ator para aquele personagem; Raphael nunca pensa no autor. “É que a experiência dele é em literatura, escreve para quem vai ver. Eu quando escrevia a novela penso no personagem e em quem vai fazer para ver se funciona”, explica Silvio. Unanimidade entre eles foi a escolha da personagem Camila Pitanga para viver Lola, a sensação da minissérie. Duas estrelas no mesmo espaço? Raphael diz que com Silvio não tem melindres nem frescura: “Com ele eu faço mestrado e doutorado em novelas e tenho a chance de aprender, falar, experimentar. Já aconteceu de ele falar que não está bom o que mandei e eu dizer que concordava que não estava muito bom, mas que a solução também não era boa, então resolvemos juntos. Ou ele não concordar e eu fazer assim mesmo.” Quando mandava os capítulos para Silvio, Raphael dizia que sua intenção era ele infartar com as ousadias. A resposta que ele ouvia: “Meu filho, você acha que vai me assustar com isso? Fiz tudo isso em Mulher Objeto.” Da sua equipe, às vezes Raphael ouvia que o Silvio não ia gostar de determinada cena muito forte. “Que nada, eu mandava e ele adorava. Esse é um ponto legal da nossa parceria, eu me sinto confortável de ousar. À medida que ele vai olhando aqui e ali, a série vai empurrando os limites do que pode e do que não pode.” Silvio detalha: “Atualmente ele é muito mais famoso do que eu, mas isso não importa. Há um respeito e admiração mútuos. A novela é dele, nunca quis esse lugar para mim como não quis o dos outros que eu supervisei, não é competição. Quando eu sugiro e ele fala que a minha solução não é a melhor, eu aceito, mas se não der certo eu posso falar: eu não disse que não ia dar certo?” Silvio ressalta que também aprende com Raphael: “Ele domina o universo das mídias sociais e tem um humor gay que faz toda a diferença na minissérie. Eu nem entendia o que era influencer, agora sei.” Para eles, o sucesso também se deve à liberdade que tiveram, como ressalta Raphael: “Nós não tivemos durante o processo nada nem ninguém para nos dizer isso não pode. Nunca teve, e isso é raro. Com essa onda do politicamente correto é complicado magoar esse ou aquele.” Para Sílvio, trabalhar com liberdade total trouxe o bom resultado para a história: “Não era ousadia por ousadia, tudo era bem embasado, nós sabíamos o que estávamos fazendo, tínhamos um bom alicerce para poder voar.” Raphael faz questão de dizer que teve a sorte de contar com bons encontros em sua carreira. “Eu trabalhei com a Ilana Casoy, uma criminóloga e escritora excelente. Ela tem dois filhos mais velhos do que eu. Sempre gostei de conversar com pessoas mais velhas, trazem experiência. Sou próximo dos meus pais, são engraçados, independentes, viajam pelo mundo. E tem minha tia Sissi, foi quem me fez gostar de ler.” O segredo do sucesso Para Silvio, além da qualidade do trabalho conjunto, a base de qualquer produto para televisão é o texto. “A minissérie teve uma excelente produção, direção e elenco, mas acredito que o principal foi o texto. Quando concluímos, eu disse para o Rafael que só não daria certo se errassem feio na produção ou direção. O texto estava tão bem-feito, que quando mandávamos para a produção, todos ficavam interessados em saber o que aconteceria a seguir. A novela pegou nas pessoas. Claro que é um trabalho conjunto que deu certo, mas a base de qualquer produto de televisão é o texto.” Raphael complementa: “Ninguém esperava esse sucesso, nem houve um lançamento maravilhoso, mas as pessoas gostaram e comentavam. A novela estourou a partir da segunda metade, e mesmo depois do final, ainda ficou por três ou quatro meses entre os trends mais vistos.” As pessoas se identificaram com alguns personagens, e memes como Lolov, de Camila Pitanga, bombaram nas redes sociais. O personagem de Atílio gerou engajamento com o público gay. A gravação levou quatro meses, com uma ótima produção e parceiros preocupados com a qualidade da dramaturgia, eles concordam. Segunda temporada de Beleza Fatal Raphael diz que não pensava em uma segunda temporada, mas Silvio rebate: “Você pode não lembrar, mas pensava sim, pensou em até deixar um gancho”. “Tá bom, sua memória é melhor do que a minha”, diverte-se Raphael. Envolvidos no texto da segunda temporada, eles não podem dar nenhum spoiler, mas estão animados. “Claro que há uma preocupação de não quebrar a cara e não repetir o sucesso, mas o Raphael teve uma ótima ideia e está funcionando”, espera Silvio. A ideia veio de uma lista de temas do autor da minissérie: “Peguei uma novela original e adaptei. Posso brincar com os personagens. Eu não acho impossível fazer uma continuação. Quando me perguntam se eu gostaria de fazer um remake, respondo que seria A Próxima Vítima, do Silvio". Silvio contesta dizendo que essa novela terminou. Se quisesse até poderia fazer porque os personagens estão vivos, mas não quer. E responde para o parceiro: “Você está cheio de ideias, faça uma nova.” O melhor é que os dois autores têm muito humor e se divertem no trabalho. “Damos muitas risadas. O Silvio é muito bom. Temos uma visão ácida e irônica, nós não nos levamos muito a sério. Queremos fazer algo clássico e novo ao mesmo tempo, e isso tem funcionado. A minissérie é um ponto acima da vida real”, avalia Raphael. E à pergunta sobre o a expectativa dessa nova temporada, a resposta dos dois chega rápida: “Mais sucesso. Vai ser uma boa surpresa para todos. As pessoas podem esperar mais divertimento, vamos usar todos os elementos que têm dado certo”. Eles acreditam que trouxeram de volta a marca do autor, que se perdeu nos últimos tempos, como explica Sílvio. “Antes todos sabiam que a novela era minha, do Gilberto Braga, do Dias Gomes e de tantos outros autores famosos. Eu não faço novela há 15 anos e as pessoas ainda me reconhecem na rua e comentam as histórias. O Raphael tem uma assinatura forte e isso faz a diferença para que as pessoas acreditem no que estão vendo”, finaliza.