Como era diferente acompanhar um Oscar na década de 1970

admin
22 Mar, 2026
Anos 1960 e 1970. Assim que a transmissão do Oscar – precária diante da tecnologia de hoje – se iniciava, “nossa rede” entrava no ar. Três telefones se fechavam em circuito. O de Thomaz Souto Corrêa, editor da Claudia , revista máxima da mulher brasileira; Edith Eisler, editora de culinária da Claudia (ah!, como era delicioso participar das degustações), e eu, redator. Comecei na Abril escrevendo um perfil de Raquel Welch, o máximo da sensualidade, tesão absoluto. Ela morreu em 2023, aos 82 anos. Cinema era nossa paixão. Líamos tudo, das revistas americanas que chegavam – da Cena Muda (enquanto existiu) até as mais bem informadas de todas, Cinelândia e Filmelândia. Naquelas noites de glória, estávamos ao telefone, minuto a minuto, desde que entravam em cena o tapete vermelho e a inicial disputa acirrada de vaidade, beleza e cafonice de estrelas e estrelinhas. De superstars a desconhecidos totais. Aquele sempre foi o espelho da vaidade, imaginação e mau gosto (ou coragem). Ali se batalhava pela originalidade, se media o que é bom e mau gosto. Nossos três telefones eram rede fechada. Iniciado o show queríamos saber se estava sentado na primeira fila, de óculos escuros e o sorriso mais debochado do mundo, Jack Nicholson. Que falta ele faz. Era um dos símbolos do Oscar. Sem aquele ar de escárnio ficou um vazio. Celso Nucci, colunista, sommelier e escritor, entrava no nosso circuito. Edith e eu iniciávamos. Depois, de mim para o Thomaz, e, dependendo do momento, do Celso para o Thomaz, depois para Edith. Não havia muita organização. Era de quem discasse primeiro. Juntos, vimos, lá atrás, para espanto geral e símbolo da contracultura, uma indígena entrar para receber o Oscar para Marlon Brando , afrontando Hollywood. Como faltaram indígenas este ano. Desta vez, Sean Penn deu o toque, desistiu, foi visitar Zelenski na Ucrânia . Sobre o presidente deles, Trump, não se ouviu um pio! E os grandes comediantes que apresentavam o Oscar, tipo Bob Hope? Com Donald Trump, a América perdeu o humor, a revolta, o cinismo, a ironia, a raiva? Não digo isso porque nada ganhamos. Alguém acaso acreditava que Hollywood desse dois prêmios seguidos ao Brasil em tão curto espaço de tempo? Vá, vá, vá! – como dizia minha avó Branca. Nos anos 1960, pedi um visto para os States e me foi negado com o argumento de que eu, ao lado de Armindo Blanco, Maurice Capovilla e Jean-Claude Bernardet éramos contra o cinema americano. Eu, um nada, contra o poder dos estúdios? Vá, vá, vá.