Nova regra do Imposto de Renda reduz chance de malha fina, diz CFC
22 Mar, 2026
Nova regra do Imposto de Renda reduz chance de malha fina, diz CFC Declaração ganha mais dados e cruzamentos; presidente do conselho alerta para checagem antes do envio As mudanças no Imposto de Renda em 2026 devem reduzir o risco de contribuintes caírem na malha fina, com o aumento do volume de informações disponíveis automaticamente para a Receita Federal e maior integração entre sistemas. Segundo o presidente do CFC (Conselho Federal de Contabilidade), Joaquim Bezerra Filho, essa mudança é sustentada por 4 fatores principais: - maior envio anual de dados por empresas e prestadores; - uso ampliado de sistemas como o eSocial; - fim da DIRF, substituída por sistemas mais detalhados; - despesas médicas informadas pelos profissionais. “Hoje, para cair na malha fina, você precisa fazer um esforço muito grande”, afirmou o presidente do CFC em entrevista ao Poder360. Assista à íntegra (34min54s): A temporada de entrega das declarações começa na 2a feira (23.mar) e se estende até 29 de maio. No ano passado, mais de 43 milhões de pessoas entregaram a declaração. Segundo Joaquim, o novo modelo, baseado no cruzamento automatizado de dados, reduz significativamente a chance de inconsistências relevantes. Na prática, a Receita Federal passa a reunir informações já declaradas por diferentes fontes antes mesmo do envio da declaração pelo contribuinte. Isso diminui a margem para erro ou omissão, mas não elimina a necessidade de revisão. “Esse é o 1o ano sem a DIRF, com dados vindo do eSocial e da Reinf, o que muda a dinâmica da declaração”, diz. Ele afirma que a transição exige mais atenção de empresas e contribuintes. Joaquim Bezerra tem 45 anos e assumiu a presidência da entidade que representa 540 mil contadores no começo de março. Segundo ele, há mais de 24 milhões de empresas hoje que usam serviços desses profissionais. O principal desafio do setor, hoje, é adequar os profissionais à reforma tributária. “Todas as empresas serão impactadas. Mas a pior fase não foi a do debate dos últimos 30 anos. O debate político encerra um capítulo. Agora tem leis complementares, a reforma do consumo, e discussões a avançar. A principal fase da reforma é agora. É a implementação”, afirmou. Leia trechos da entrevista: Há mudanças na declaração de IR de 2026. Quais as principais? Nós fizemos o lançamento junto com a Receita Federal e o Serpro do novo programa do Imposto de Renda. Muda bastante. Hoje, para cair na malha fina, você precisa fazer um esforço muito grande. Durante o ano, o profissional da contabilidade já vai informando diversas obrigações, como o eSocial, as declarações médicas, já que não há mais o recibo médico. Vai cruzar as informações lá no programa da declaração de imposto de renda. É o 1o ano que nós não temos a DIRF. Esse ano vai ter o eSocial e vai ter a Reinf. A Reinf é aquela declaração que foi muito bem debatida no final do ano, quando dá distribuições de lucros. Com isso, a atenção precisa ser redobrada. A melhor forma de você escapar da malha fina é evitar inconsistência na declaração. Tem que ter a organização documental. Segundo, precisa de assessoramento de um profissional. Prestem atenção nas declarações pré-preenchidas e despesas de saúde. A partir deste ano, pessoas que recebem até R$ 5.000 estão isentas do imposto de renda. Mas isso só terá impacto ano que vem, certo? Certo. Não temos ainda o impacto do aumento do limite de isenção de R$ 5.000 aprovado para este ano. Esse impactará o ano que vem porque a declaração de Imposto de Renda sempre é data-base do ano anterior. Está em vigor desde 1o de janeiro de 2026. O ano se finda em 31 de dezembro de 2026 e, em 2027, a declaração de Imposto de Renda prevalece a isenção dos 5.000. Este ano nós estamos falando da declaração de imposto de renda do ano-base 2025. O senhor assumiu recentemente a presidência do CFC. Qual a sua meta à frente do conselho? Tenho uma vida dedicada à contabilidade. Participo do Conselho desde quando era estudante, 27 anos atrás. Coordenei a comissão para defender a contabilidade eleitoral no TSE. Depois fui convidado para ser conselheiro suplente. Portanto, com 45 anos sou o decano da casa. Tenho 3 pilares: o profissional, a profissão e a ciência contábil. Quero fortalecer o profissional. Fazer um chamado para que o mercado e as instituições entendam a relevância desse profissional. E definimos uma política para dar mais atratividade à profissão. Queremos elevar a quantidade de contadores inscritos no Brasil, hoje são 540.000. Queremos falar desde o Ensino Médio sobre o valor dessa profissão. Queremos levar o recado que a profissão contábil é essencial, sobretudo agora que estamos reduzindo o papel burocrático e elevando o papel estratégico com a melhora da tecnologia. Nós vamos ter programas de educação continuada para a contabilidade do agronegócio, eleitoral, reforma tributária, para micro e pequenas empresas. Hoje, 92% das 24 milhões de empresas do Brasil são micro e pequenas. Isso vai reposicionar a profissão. Quero que olhem para a profissão e entendam que ela ajuda a construir as leis com responsabilidade, a normatizar. Contabilidade não é custo, é investimento. Pode dar um exemplo? O Brasil é o único país do mundo que tem uma norma de contabilidade de custo na administração pública e vai ser implementado este ano. A partir do ano que vem, saberemos quanto custa um aluno em sala de aula, uma consulta médica no posto de saúde, a coleta de lixo em uma rua. Poderemos comparar do menor ao maior município brasileiro. É importantíssimo para racionalizar o gasto público e para a efetividade da política pública. Poderemos demonstrar isso para o mundo todo. Haverá também normas contábeis para dizer se uma empresa é ou não sustentável. Vale, Petrobras, Klabin, entre outras, já aderiram a essas normas. A partir de 2026, todas as empresas de capital aberto serão obrigadas. Quantos contadores hoje existem no Brasil e para quantas empresas eles atuam? São 540.000 profissionais nos municípios brasileiros, com um total de 101.000 empresas de contabilidade. Atendemos 24 milhões de empresas. Atendemos prefeituras, Estados, e mais de quase 1 milhão de empresas do 3o setor. Há 147 milhões de brasileiros que fazem parte da população economicamente ativa do país. Então, a contabilidade está presente no dia a dia. Quando você vai para a política, são 42.000 contadores que atuam na contabilidade eleitoral. Qual o trabalho dos contadores nas eleições? Estive envolvido em todo o processo de construção dessa pauta, junto com a OAB e o Tribunal Superior Eleitoral. O grande desafio do Brasil é essa amplitude regulatória. Vamos pegar a contabilidade eleitoral. Você tem o código eleitoral com regras de contabilidade. Você tem as resoluções do TSE e as normas brasileiras de contabilidade eleitoral do CFC. São 3 institutos regulatórios com o mesmo objeto. O desafio é reduzir as assimetrias regulatórias e elevar a confiança pública na informação. Contadores também fazem auditorias. Pensando no escândalo do Banco Master, a contabilidade poderia impedir um caso como esse? Hoje, são produzidos 55.176 pareceres de auditoria no Brasil por ano para empresas e fundos. O Brasil tem 32.000 fundos, 20.000 a mais que os Estados Unidos. A maioria são privados. Contabilidade e auditoria são tão silenciosas que, quando dá certo, ninguém comenta. Mas basta um dar errado para alertar a confiança pública de forma sistêmica. E o que que as auditorias fazem? O auditor não é investigativo, ele parte da presunção da boa fé. Quando a auditoria é contratada, é definido um escopo. O auditor trabalha por amostragem, com as informações que são entregues, é parte de um sistema de governança. Tem o auditor forense. Quando? Quando o crime é apontado. Quando a corrupção é velada. O auditor tem 3 tipos de pareceres que ele pode emitir. Pode ser sem ressalva, quando analisa tudo que foi lhe fornecido e diz que está em conformidade com a norma de contabilidade. Pode ter ressalva, quando vê que existem situações que podem gerar risco à instituição, e a abstenção de opinião, que já é uma declaração dizendo que não concorda com o que está vendo. No Banco Master houve duas situações, houve uma abstenção de opinião e houve momentos em que, durante o parecer do auditor, ele apontou riscos relevantes de crime, de fraude. Isso está no relatório? Sim. Agora a pergunta é: por que não leram? Não adianta chegar agora e dizer: “Olha, o problema foi a auditoria, o auditor”. Não, ela é parte de um sistema. Como presidente do Conselho Federal de Contabilidade digo que seremos intolerantes a quaisquer atos contra a ética profissional, não seremos corporativos. Nossa função é proteger a sociedade. Assim como no caso da Americanas, agora também já começamos a instituir processo para avaliar se o contador e se o auditor cumpriram ou não as normas brasileiras de contabilidade. Pelo conselho federal? Pelo Conselho Regional de São Paulo, que é pelo endereço onde ficava sediado o Banco Master. Mas já foi aberto, já está no procedimento de abrir o processo. E quantos processos serão feitos? Um só para averiguar o contador e o auditor. Os conselhos costumam evitar esses processos... É. Assumimos este ano. Acho que fortalecer o profissional é reposicionar a profissão e ter reconhecimento global. Como elevar a confiança pública? Criamos um núcleo de experts e falamos com o secretário nacional de segurança pública. Queremos ajudar o Brasil no combate ao crime organizado, contra a ordem financeira, lavagem de dinheiro, corrupção ativa ou passiva. Como? Da nossa parte, fiscalizando para que o nosso profissional cumpra eticamente a sua atividade profissional. É a nossa contribuição. Temos limite para investigar crime. O caso Master compete à Polícia Federal, ao Parlamento, à CVM, ao Banco Central, cada um com seus escopos. A nós, compete analisar se o contador e o auditor exerceram sua profissão dentro do código de ética cumprindo as normas profissionais e as normas técnicas. Como o CFC está se preparando para lidar com a Reforma Tributária? Todas as empresas serão impactadas. Mas a pior fase não foi a do debate dos últimos 30 anos. O debate político encerra um capítulo. Agora tem leis complementares, a reforma do consumo, e discussões a avançar. A principal fase da reforma é agora. É a implementação. É aí que o contador, o mercado e os empresários precisam entender o valor do profissional. É ele que vai transformar a complexidade em ações factíveis. Você terá uma nova forma de calcular preços. E as empresas vão precisar melhorar o fluxo de caixa. Não tem mais essa que eu vou fazer o fato gerador, emitir a nota fiscal, faturar, receber o recurso, entrar no fluxo de caixa, e eu só vou pagar o imposto daqui a 3 meses agora porque é trimestral. O imposto agora é pago no ato. Empresários que trabalhavam com fluxo de caixa de 3 meses do imposto vão ter que reprogramar o seu fluxo. Os municípios e os Estados precisam assegurar a tecnologia. O Governo Federal também, porque agora o campo de arrecadar é todo aqui. O conselho tem, desde o ano passado, investido na capacitação. Como a automação e a inteligência artificial estão mudando a contabilidade? Vou começar pelo que não muda. Não muda a inteligência humana, a capacidade de analisar os fatos e a responsabilidade pela informação. O computador não vai se responsabilizar pela confiança pública. O que muda? Redução da burocracia, agilidade na oferta dos relatórios, melhor capacidade interpretativa dos dados, melhor ambiente de negócio e naturalmente evolução da empresa. A empresa poderá ter mais valor de mercado com a ação estratégica do contador.