Associações acionam UE contra Fifa por preço de ingressos da Copa
24 Mar, 2026
Associações acionam UE contra Fifa por preço de ingressos da Copa Representação afirma que a federação abusa de monopólio ao impor valores elevados e usar técnicas que pressionam consumidores Organizações de torcedores e defesa do consumidor acionaram nesta 3a feira (24.mar.2026) a Comissão Europeia contra a Fifa por supostos abusos na venda de ingressos da Copa do Mundo de 2026, que será realizada nos Estados Unidos, Canadá e México. A FSE (Football Supporters Europe) e a Euroconsumers citam práticas consideradas “opacas e desleais”, além de cobrar preços elevados pelas entradas. Segundo o comunicado, as organizações dizem que a Fifa abusa de sua posição de monopólio na comercialização dos ingressos. Eis as íntegras (em inglês) das reclamações apresentadas (PDF – 148 kB) e (PDF – 998 kB). A representação tem como base o artigo 102 do Tratado sobre o Funcionamento da União Europeia, que proíbe o uso indevido de posição dominante no mercado. Entre as críticas estão o uso de preços dinâmicos, que variam conforme a demanda, e a baixa disponibilidade de ingressos mais baratos, anunciados a partir de cerca de US$ 60. Segundo as associações, essas opções seriam limitadas na prática. Também apontam o uso de técnicas conhecidas como “dark patterns”, que pressionariam o consumidor a concluir a compra com rapidez. Além disso, taxas de revenda de cerca de 15% elevariam ainda mais o custo final dos ingressos. A reclamação se dá em um contexto de maior escrutínio sobre a Fifa na Europa. O comissário europeu Glenn Micallef já havia manifestado preocupações relacionadas ao torneio, incluindo aspectos regulatórios e geopolíticos. As associações defendem que a venda de ingressos é uma atividade econômica sujeita às regras de concorrência da União Europeia e citam decisões recentes sobre o setor esportivo para sustentar a queixa. Caso avance, o processo pode levar a uma investigação formal e à imposição de medidas à Fifa, como maior transparência nas vendas e eventuais limites de preços. Leia a íntegra do comunicado em português: “COMUNICADO CONJUNTO: FSE e Euroconsumers apresentam denúncia à Comissão Europeia contra a Fifa por práticas na venda de ingressos da Copa de 2026 “A Football Supporters Europe (FSE) e a Euroconsumers apresentaram uma denúncia formal à Comissão Europeia contra a Fifa, alegando que a entidade abusou de sua posição de monopólio para impor preços excessivos de ingressos e condições e processos de compra opacos e injustos aos torcedores europeus antes da Copa do Mundo de 2026. “A Fifa detém o monopólio da venda de ingressos para a Copa de 2026 e utilizou esse poder para impor condições aos torcedores que não seriam aceitáveis em um mercado competitivo. Para muitos, trata-se de uma experiência única na vida; por isso, o acesso justo e transparente aos ingressos é essencial. “A Euroconsumers e a FSE identificaram 6 abusos específicos: “1. Preços muito elevados – superiores aos de edições anteriores e às próprias estimativas da Fifa Os ingressos mais baratos para a final disponíveis publicamente começam em US$ 4.185 — mais de 7 vezes o valor do ingresso mais barato da final da Copa de 2022. Em comparação, os ingressos mais baratos para a final da Euro 2024 custaram € 95 (cerca de US$ 100). Documentos da própria Fifa projetavam preço médio de US$ 1.408, valor já amplamente superado. “2. Publicidade enganosa – o ingresso de US$ 60 que praticamente não existia A Fifa divulgou repetidamente ingressos a US$ 60 para a fase de grupos. Na prática, eram tão escassos que praticamente se esgotaram antes da abertura das vendas ao público geral. Anunciar preços que não estão de fato disponíveis pode configurar publicidade enganosa, ilegal sob a legislação da União Europeia. “3. Preços dinâmicos sem controle – valores que aumentam sem aviso A Fifa utilizou precificação variável, sem limite e sem transparência sobre os critérios. Alguns ingressos tiveram aumento de até 25% entre fases de venda, sem que os consumidores soubessem o preço final antes de entrar na fila. “4. Falta de transparência Em muitos casos, localização dos assentos, mapas dos estádios e até os times envolvidos não são garantidos no momento da compra — com pouco ou nenhum direito a reembolso. Torcedores pagam valores elevados sem saber exatamente o que estão adquirindo. “5. Técnicas de pressão na venda E-mails enviados aos torcedores mencionavam “acesso exclusivo” a janelas de venda “limitadas”, criando sensação artificial de urgência e pressionando decisões rápidas. “6. Cobrança dupla na revenda A Fifa desencoraja plataformas externas de revenda e direciona usuários para seu próprio marketplace, onde cobra taxa de 15% tanto de compradores quanto de vendedores. Em um ingresso de US$ 800, isso representa US$ 240 adicionais. “A Copa do Mundo começa em 11 de junho de 2026, e o tempo é considerado curto para ajustes. “A Euroconsumers e a FSE pedem que a Comissão Europeia: interrompa o uso de preços dinâmicos para ingressos vendidos no Espaço Econômico Europeu; congele os preços na fase de vendas de abril nos níveis anunciados pela Fifa em dezembro de 2025; divulgue, com pelo menos 48 horas de antecedência, a quantidade de ingressos disponíveis por categoria e sua localização nos estádios; respeite os direitos dos consumidores nos mercados primário e secundário de ingressos. “Futebol é uma paixão universal, mas a Fifa o trata como um luxo privado ao explorar seu monopólio absoluto na venda de ingressos. Ao impor preços opacos, técnicas que pressionam consumidores e taxas elevadas de revenda, a entidade impõe um ônus financeiro injusto a milhões de torcedores europeus”, afirmou Marco Scialdone, chefe de contencioso da Euroconsumers. “Há meses pedimos que a Fifa revise suas políticas agressivas de venda de ingressos. A falta de diálogo com as partes interessadas nos levou a apresentar esta denúncia”, disse Ronan Evain, diretor-executivo da Football Supporters Europe. A Euroconsumers também defende a proibição do uso de preços dinâmicos em eventos ao vivo, como esportes e cultura, em razão da combinação de alta demanda e oferta limitada. “A precificação dinâmica transforma a lealdade dos torcedores em uma disputa de lances, eleva custos sem agregar valor e exclui parte do público. A Fifa deve encerrar essa prática e garantir acesso justo e transparente aos ingressos”, afirmou Els Bruggeman, diretora de políticas e fiscalização da Euroconsumers.”