Brasileiros mortos na ditadura argentina são homenageados em Buenos Aires
24 Mar, 2026
Brasileiros mortos na ditadura argentina são homenageados em Buenos Aires Resumo Uma multidão ocupou as ruas de Buenos Aires hoje, 24, para lembrar o aniversário dos 50 anos do último golpe militar na Argentina (1976-1983). Na concentração, um detalhe rompeu a cena habitual. Pela primeira vez, brasileiros e filhos de brasileiros assassinados ou desaparecidos na última ditadura argentina foram lembrados publicamente na Marcha da Memória, uma das maiores mobilizações de direitos humanos da América Latina. Em frente ao Obelisco, cartão postal de Buenos Aires, um grupo de imigrantes brasileiros e políticos de esquerda seguraram, lado a lado, as imagens dessas vítimas cujas histórias atravessaram fronteiras. "Fotografias que adicionaram uma nova camada à memória coletiva, somando-se a uma história compartilhada em toda a região", disse a brasileira Mayara dos Santos, 34, que vive na Argentina há nove anos. O bloco que homenageou as vítimas brasileiras foi organizado por La Campora (Argentina) e contou com apoio de diversos movimentos brasileiros, entre eles o Partido dos Trabalhadores (PT) núcleo da Argentina e a Associação de Mulheres Brasileiras na Argentina e a La Marea, organização cultural brasileira sediada na Argentina. Num clima de emoção mas também de alegria em celebração à democracia, o grupo se uniu a uma multidão em meio a bandeiras, cantos e palavras de ordem. O português se misturou ao espanhol. "É bonito ver isso. Os argentinos nos perguntaram sobre as vítimas e podemos contar um pouco essa história", disse o brasileiro Fábio Di Nittis, 35, que mora em Buenos Aires há 12 anos. "Desejo que o Brasil se inspire na Argentina. A memória que existe aqui sobre a ditadura é comovente", disse Ana Paula Santana, 47, integrante do grupo Mulheres e Mães brasileiras na Argentina. "O Brasil vive o luto pela ditadura. A Argentina vive a memória. Ainda precisamos avançar e entender que a ditadura brasileira não é um drama familiar mas uma ferida social", destacou Mayara. Ao longo da tarde, a concentração no Obelisco se deslocou em direção à Praça de Maio, local emblemático da luta por memória, verdade e justiça. É neste espaço que há mais de 40 anos, as Avós da Praça de Maio —movimento pioneiro do país— reivindicam a verdade sobre os 30 mil desaparecidos. Crianças, jovens e idosos, como a argentina de 94 anos, Francesca Migliazzo, que marchou mesmo com sua cadeira de rodas, fizeram questão de gritar "nunca mais", consigna que rechaça os crimes de Estado. Francesca foi acompanhada da neta, Brenda Garcia, de 25 anos, que cuidadosamente arrumava a avó com o lenço em referência ao movimento das Avós da Praça de Maio. Pesquisa inédita A homenagem aos brasileiros surgiu a partir do resultado de uma investigação inédita da pesquisadora argentina —de família brasileira— Gabriela Llaser, da Universidade de Buenos Aires. Ela, que se dedica a investigar o controle migratório durante a ditadura, descobriu, até o momento, onze brasileiros e quatro filhos de mães ou pais brasileiros vítimas do Estado. Mas contou que a lista segue em expansão. Trata-se de estudantes, professores, atletas, trabalhadores e militantes brasileiros que moravam na Argentina, estavam de passagem ou exilados e tiveram suas vidas interrompidas para sempre. O assassinato e o desaparecimento ocorreram no contexto da ditadura, já que a Argentina, diz Gabriela, vivia um clima de repressão antes mesmo do golpe do dia 24 de março de 1976. O aniversário de meio século da última ditadura argentina coincide com os 50 anos da Operação Condor; uma aliança entre ditaduras do Cone Sul (Brasil, Argentina, Uruguai, Paraguai e Bolívia, com a ajuda dos EUA) que permitiu a perseguição, o sequestro e a eliminação de opositores políticos e suspeitos. Muitos dos brasileiros homenageados desapareceram sem deixar registros claros. Por décadas, essas histórias ficaram dispersas entre arquivos, testemunhos e lacunas. A ausência de uma lista consolidada de vítimas estrangeiras contribuiu para que esses nomes permanecessem à margem da memória pública, diz a pesquisadora. Durante a marcha, a reportagem flagrou bandeiras em referência ao desaparecimento de imigrantes durante o período sombrio. A inclusão de vítimas brasileiras na Marcha da Memória representa uma inflexão: não apenas reconhece essas trajetórias, mas amplia o entendimento sobre a dimensão regional da repressão. Argentina pioneira em políticas de memória Reconhecida internacionalmente, a Argentina construiu ao longo das últimas décadas uma política robusta de memória e reparação, tornando-se exemplo para países da região, como o Brasil, que até hoje investigou, mas não julgou plenamente os crimes do período de chumbo. A Argentina avançou na investigação, julgamento e condenação de crimes de lesa-humanidade. O país identificou 800 centros clandestinos de repressão; muitos deles se transformaram em espaços de memória, com destaque para o complexo de edifício da antiga ESMA (Escola Superior de Mecânica da Armada), que se transformou no Espaço Memória e Direitos Humanos, reconhecido como patrimônio da humanidade. Até hoje, 1231 pessoas foram condenadas; 250 foram absolvidas; 172 casos encerrados por falta de mérito. Os julgamentos aconteceram em democracia, com garantias legais. Dados históricos de organismos de direitos humanos apontam que são mais de 30 mil desaparecidos e 500 bebês sequestrados por militares —filhos de presos políticos— encaminhados à adoção. 140 deles foram recuperados, até os dias atuais, graças ao trabalho das Avós da Praça de Maio. Governo defende "revisão" dos crimes No entanto, esse legado vem sendo questionado. Organizações sociais e de direitos humanos, como as Avós da Praça de Maio e o CELS (Centro de Estudos Sociais e Legais), denunciam o enfraquecimento dessas políticas no governo de Javier Milei. Segundo essas entidades, há um processo de sucateamento institucional, acompanhado de um discurso oficial que relativiza os crimes cometidos pelo Estado e defende a revisão do passado. No contexto dos 50 anos do golpe, a Casa Rosada divulgou, pelo terceiro ano seguido, um vídeo institucional no qual questiona a ditadura, dizendo tratar-se de uma "mentira", que houve crimes "dos dois lados" e que é preciso revisar e contar a "história completa". É nesse cenário que a homenagem aos brasileiros ganha ainda mais significado, porque leva luz às histórias que cruzam fronteiras, ampliando a compreensão sobre o alcance da repressão no Cone Sul, diz a pesquisadora. "Em meio a um discurso negacionista do governo e de perseguição a estrangeiros, homenagear os brasileiros vítimas da ditadura Argentina ganha um valor simbólico imensurável", resumiu Gabriela. Veja também Deixe seu comentário O autor da mensagem, e não o UOL, é o responsável pelo comentário. Leia as Regras de Uso do UOL.