O PL da Misoginia e a misandria institucional

admin
26 Mar, 2026
Deem uma vasculhada nas livrarias virtuais. É espantoso o crescimento no número de títulos voltados ao público conhecido como Red Pill ou MGTOW (“Men Going Their Own Way”). Trata-se de um público masculino que habita um ecossistema de fóruns, blogs, perfis de redes sociais e canais na internet conhecido como “manosphere”, e se caracteriza pela crítica às idealizações românticas referentes ao relacionamento com mulheres – representadas de maneira invariavelmente negativa, como manipuladoras, interesseiras e inimigas dos homens. Dentro dessa cosmovisão geral hostil ao sexo feminino, há alguma heterogeneidade interna à tribo, que vai desde aqueles homens (em geral, jovens) que buscam se afastar de todo contato com as mulheres até aqueles que, ao contrário, veem as mulheres como meros troféus de caça, e buscam agir sempre em relação a elas da mesma maneira manipuladora e calculista que imaginam ser o modus operandi feminino. Por óbvio, a cosmovisão red pill expressa uma concepção funesta dos relacionamentos humanos e uma avaliação distorcida das mulheres. Mas trata-se apenas de um efeito – uma reação desordenada à percepção de um problema que, todavia, é real, e consiste possivelmente na maior patologia sociocultural do nosso tempo: a guerra à masculinidade promovida pelas elites culturais e políticas do Ocidente, e que poderíamos glosar como uma misandria institucionalizada. Antes que – como um sintoma dessa mesma guerra – alguém lance a previsível objeção de que a misandria institucionalizada não existe, e que essa ideia só poderia provir da mente de um homem (logo, de alguém estruturalmente misógino), convém lembrar o seguinte: já há alguns anos que o fenômeno vem sendo detectado principalmente por intelectuais mulheres, muitas delas egressas ou dissidentes do movimento feminista. Entre os nomes de destaque, poderíamos citar os de Christina Hoff Sommers [https://www.amazon.com.br/War-Against-Boys-Misguided-Policies/dp/1501125427], Camille Paglia [https://www.amazon.com.br/Free-Women-Men-Camille-Paglia/dp/1786892189], Suzanne Venker [https://www.suzannevenker.com/the-war-on-men-ebook/], Debra Soh [https://www.amazon.com.br/End-Gender-Debunking-Identity-Society/dp/1982132515], Janice Fiamengo [https://www.amazon.com.br/Sons-Feminism-Men-Have-Their/dp/1775081303] e Helen Smith [https://www.amazon.com.br/Men-Strike-Boycotting-Marriage-Fatherhood/dp/1594036756]. O PL da Misoginia reflete a a guerra à masculinidade promovida pelas elites culturais e políticas do Ocidente Todas essas autoras fazem críticas contundentes ao feminismo [https://www.gazetadopovo.com.br/tudo-sobre/feminismo/]contemporâneo, exprimindo uma preocupação com a situação social de homens e meninos nas sociedades ocidentais atuais e defendendo a masculinidade como um valor a ser preservado. Dentre elas, Hoff Sommers dedicou-se especialmente a analisar como essa guerra aos homens começa desde cedo, na educação infantil, onde os meninos são tolhidos em suas especificidades e instados a ver suas próprias características masculinas como um defeito. Em suas palavras: “Lutas de espada, ataques furtivos com balões de água e batalhas simuladas exercem um fascínio especial sobre os meninos, mas a maioria das escolas hoje as proíbe. Espadas e escudos de brinquedo? Mesmo em miniatura, dão margem a suspensão. Meninos se chocando uns contra os outros? Alguém pode se machucar (e pense nos processos). Jovens do sexo masculino fingindo matar uns aos outros? Um prelúdio para o abuso conjugal. Nos últimos 20 anos, estudiosos de gênero têm se dedicado a ressocializar os meninos, afastando-os dessas propensões masculinas ‘tóxicas’.” Foi essa percepção que a levou a escrever The War Against Boys, que se tornou best-seller justamente por diagnosticar um problema evidente para muitos pais e mães de meninos, mas normalmente silenciado pela força da misandria institucional. Eis como a autora descreve o seu objeto: “Este livro explica como se tornou moda patologizar o comportamento de milhões de crianças [https://www.gazetadopovo.com.br/tudo-sobre/criancas/]saudáveis do sexo masculino. Voltamo-nos contra os meninos e esquecemos uma verdade simples: a energia, a competitividade e a coragem física dos homens normais são responsáveis por grande parte do que há de valoroso no mundo (...) [Todavia], cada vez mais, em nossas escolas e em nossos lares, a masculinidade cotidiana dos meninos é vista como algo aberrante, tóxico – uma patologia que precisa de cura.” No Brasil, a aprovação do PL da Misoginia se dá precisamente nesse ambiente de misandria institucional e disseminação calculada de pânico moral. Os pretextos são, como de costume, irretocáveis: combater o ódio contra mulheres, proteger vítimas de violência, civilizar o debate público. Quem poderia ser contra isso? O problema, como sempre, não está na intenção proclamada, mas na estrutura conceitual subjacente – e, sobretudo, no contexto cultural em que ela se insere. Leis não surgem no vácuo. Elas são produtos de uma visão de mundo. E a visão de mundo que sustenta esse tipo de iniciativa legislativa é precisamente aquela que Sommers, Paglia, Fiamengo e outras vêm denunciando: uma gramática moral que transforma a relação entre os sexos numa narrativa unidirecional de opressão, na qual o homem aparece como agente e a mulher como paciente – ele, suspeito a priori; ela, vítima por definição. O PL da Misoginia, nesse sentido, não é apenas uma lei. É uma peça de engenharia simbólica no âmbito de uma guerra cultural. Ele cristaliza juridicamente uma assimetria que já opera no plano do imaginário: a ideia de que há um problema estrutural com os homens – e apenas com os homens. A própria escolha do termo “misoginia” como categoria jurídica privilegiada é reveladora. Trata-se de um conceito deliberadamente elástico, cuja imprecisão o torna especialmente apto a usos políticos. Daí o silogismo erístico que já começa a circular: se alguém é contra o PL da Misoginia, então só pode ser misógino. O projeto cristaliza juridicamente uma assimetria que já opera no plano do imaginário: a ideia de que há um problema estrutural com os homens – e apenas com os homens Foi exatamente isso, aliás, o que escreveu uma colunista (de fofoca) do portal Metrópoles: “Só misóginos são contra a lei que pune a misoginia”, tuitou [https://x.com/flaviogordon/status/2036832803183112602]. Trata-se, evidentemente, de um expediente retórico primário, cujo objetivo é blindar o projeto contra qualquer crítica, convertida automaticamente em prova do crime que a lei pretende combater. Na mesma linha, a relatora do projeto, a senadora Soraya Thronicke, afirmou ter sido “atacada” desde a aprovação do texto – por ser mulher, subentende-se. Pela lógica implícita, criticar o PL da Misoginia já constitui, em si, um ato de misoginia. O círculo se fecha: a lei cria o crime que legitima a própria lei. Eis, por fim, o seu real objetivo. Deveria ser óbvio, mas não custa lembrar: o nome de uma lei – assim como o seu objetivo declarado – não se confunde com os efeitos reais de sua aplicação. Em 1933, os nazistas passaram a “Lei para a Restauração do Serviço Público Profissional” – a qual, na prática, expulsava os judeus do funcionalismo. Seria correto dizer que seus críticos eram contrários ao “serviço público profissional”? Do mesmo modo, o Muro de Berlim foi erguido em 1961 sob o nome oficial de “Muro de Proteção Antifascista”. Seriam fascistas aqueles que se opuseram à sua construção? Pois bem. Quem critica o PL da Misoginia não o faz por ser misógino, mas justamente por perceber que – como tantas outras leis penais abertas no Brasil – ele não foi concebido para proteger efetivamente mulheres contra violência real, mas para ampliar o campo de censura e perseguição sob critérios vagos e ideologicamente maleáveis. Num momento em que as relações entre homens e mulheres atravessam uma crise evidente – visível nas taxas de casamento, natalidade, solidão e desconfiança mútua, e manifesta em fenômenos como o feminismo radical e a própria manosphere –, essa lei vem contribuir não para a pacificação, mas para a balcanização planejada da sociedade. Sob o verniz moral, opera-se o velho mecanismo: dissolver laços sociais orgânicos – a família, a comunidade, a paróquia – para substituí-los por indivíduos atomizados, cada vez mais dependentes de um Estado hipertrofiado. E assim se completa o ciclo: a guerra aos homens, de início cultural e pedagógica, encontra sua consagração jurídica. E, como toda guerra travada sob a linguagem da virtude moral, também essa é tanto mais perigosa quanto menos disposta a reconhecer o próprio nome.