O brasileiro tem QI baicho

admin
27 Mar, 2026
Outro dia estava num desses programas de debate em que todos concordam entre si quando o comentarista soltou uma constatação daquelas de quem se acha capaz de resolver todos os problemas do mundo numa só lacrada: o brasileiro tem QI baixo. Sim, baixo com “x”. Sei que é com “x” e se escrevi com “ch” no título foi só para fazer a alegria de quem acha que tem o QI auto. Vish, de novo! Eu, que tenho QI minúsculo e não tô nem aí, fico furibundo da vida quando ouço essa peça clássica da autodepreciação nacional. Esse atalho mental que, curiosamente, só serve para confirmar o argumento da frase burra, que inviabiliza qualquer discussão porque, evidentemente, com gente de QI baixo não tem discussão. Bobagem Volto a isso mais tarde, se a memória e o QI limítrofe ajudarem. Antes, porém, quero falar sobre o QI. Ou quociente de inteligência. Uma tentativa cientificista de medir a inteligência humana. E não se engane, não: os testes de QI surgiram, foram e ainda são amplamente usados para estabelecer uma hierarquia da inteligência entre povos e raças. É nojento e, para piorar, fascista. Como qualquer pessoa inteligente sabe, QI mede um tipo específico de inteligência que não é sinônimo de decisões sábias. Nem de sucesso. Muito menos de felicidade. Entende agora por que o argumento de que o Brasil é do jeito que é porque o brasileiro tem QI baixo é uma bobagem? Digo, pode ser uma bobagem até divertida. Um jeito diferentão de chamar o outro de “burro”. Mas ainda assim é uma bobagem. Pulo do gato E uma bobagem perigosa, porque pressupõe que o cidadão comum, o brasileiro médio, esse aí (nunca aqui) de QI supostamente baixo, não consegue tomar decisões virtuosas por conta própria. Estaríamos, pois, destinados à mediocridade e ao subdesenvolvimento. A não ser (e aqui está o pulo do gato) que sejamos liderados por uma gente especial, de QI altíssimo. Por pessoas capazes de tomar as melhores decisões por nós. Daí a aparecer alguém dizendo que temos que suprimir a liberdade de uns e outros é vapt-vupt. Afinal, as pessoas de QI baixo precisam da tutela dos inteligentões – e não sabem. Isso soa autoritário? Totalitário até? É porque é mesmo. Na verdade, quem diz que o brasileiro tem QI baixo está querendo dizer que é a exceção, que tem um QI alto e que tem direito (ou talvez o dever) de zelar pelos demais. Pelos “inferiores”. Liberdade E onde fica a liberdade nessa equação? Me responda você com seu super QI. Onde ficam a dignidade humana e a vocação para a excelência? Não ficam. Porque quem diz que o brasileiro tem QI baixo e que isso é a explicação para todos os nossos problemas não está nem aí para essa tal liberdade (PIRES, Alexandre) que diz tanto defender. Nem percebe que, se o brasileiro tem QI baixo e somos brasileiros, então o problema talvez não esteja nos outros, e sim em nós mesmos. Dã. O que não quer dizer, em absoluto, que sejamos um povo genial ou mesmo de inteligência homogênea. Temos, claro, deficiências intelectuais graves. Em outras palavras, somos coletivamente burros, sim. Mas pelo menos somos livres para cometer as nossas burrices e, com alguma sorte, muita sorte e também um bocado de paciência e esforço, aprender com elas. Sabedoria Aliás, o próprio fato de muita gente não perceber a brincadeira no título é sinal de que, quando mais nos consideramos inteligentes, mais burros tendemos a ser. Se bem que essa inteligência de que tanto falam por aí e que deveria ser antes de tudo sabedoria nunca foi exatamente popular. Bem ao contrário da sensação de ser mais inteligente, sábio e virtuoso do que os outros. Essa, sim, popularíssima desde a Era Priscas. Sem falar que as multidões têm essa incrível habilidade de reduzir a inteligência individual a um mínimo denominador comum. O que explica, aliás, o sucesso de certos clichês repetidos por certos influencers que, no fundo, morrem de medo de ser desmascarados. Se é que seu QI alto, altíssimo, gigantesco, um verdadeiro Everest de inteligência, me entende.