Do espaço à alma: o que a Artemis II nos ensina

admin
7 Apr, 2026
Nesta imagem da Lua, o lado visível (o hemisfério que vemos da Terra) é visível na metade superior do disco lunar. Ele é identificável pelas manchas escuras. Essas manchas são antigos fluxos de lava de uma época no início da história da Lua, quando ela era vulcanicamente ativa. A grande cratera que aparece abaixo dos fluxos de lava, escura no centro, é a Bacia Orientale, uma cratera com quase 965 quilômetros de diâmetro que se estende pelos lados visível e oculto da Lua, sendo parcialmente visível da Terra na borda da Lua. Nesta imagem, temos uma visão completa da cratera. Tudo abaixo da cratera é o lado oculto, o hemisfério que não conseguimos ver da Terra porque a Lua gira em seu eixo na mesma velocidade em que orbita ao nosso redor Reprodução/Nasa Há 20 anos, exatamente nessa época, eu estava no espaço, vivendo a Missão Centenário, representando o Brasil em um momento que marcou a nossa história e, mais do que isso, marcou a minha vida para sempre. E hoje, duas décadas depois, eu assisto a humanidade dar mais um passo gigantesco. Quatro astronautas da missão de teste Artemis II, da NASA, fizeram história nesta segunda-feira (06/04), ao atingirem a marca de 400 mil quilômetros de distância da Terra. No início da noite, eles chegaram a 252.756 milhas (406.800 quilômetros). Com isso, superaram o recorde anterior estabelecido pela missão Apollo 13, em 1970 , tornando-se os humanos que viajaram mais longe no espaço. Seis dias após o início da primeira missão com astronautas do programa Artemis, Reid Wiseman, Victor Glover, Christina Koch, da NASA, e Jeremy Hansen, da Agência Espacial Canadense (CSA) , seguem registrando imagens da Lua enquanto avançam cada vez mais longe da Terra. Mas o que mais me chama a atenção não é a distância. É o significado. Quando o comandante Reid Wiseman disse que aquele momento era um convite para desafiar esta geração e a próxima a ir ainda mais longe, ele não estava falando de quilômetros. Ele estava falando de futuro. O espaço não é um espetáculo. É realidade. Muita gente vê a missão como um grande “show”. E, de certa forma, hoje tudo está mais acessível: câmeras, transmissões, imagens em tempo real. Mas quem já esteve lá sabe que o espaço não é confortável. Não é fácil e não perdoa erros. No espaço, o corpo muda. Você perde a sensação de fome. Os alimentos, que foram cuidadosamente testados na Terra, perdem o gosto. Comer vira quase uma obrigação e, muitas vezes, uma tarefa coletiva, em que um ajuda o outro. A microgravidade altera o organismo. O corpo desidrata, a pressão muda, os batimentos cardíacos diminuem, os pés ficam frios. Existe desconforto. Existe adaptação. E existem coisas que ninguém vê. Na minha época, na Soyuz, não havia o mesmo nível de conforto que existe hoje na cápsula Orion . O dia a dia exige resiliência física e mental. Mas nada disso é o mais importante. A parte mais frágil é a mais valiosa O elemento mais crítico de qualquer missão não é a tecnologia. É o ser humano. A tripulação se torna uma família. Você depende da vida do outro, literalmente. Não importa o país, a cultura, a língua. Ali dentro, vocês são irmãos. Reid Wiseman, comandante da missão Artemis II e astronauta da NASA, observa a Lua a partir da cápsula Orion durante a aproximação ao satélite natural Divulgação/Nasa E existe uma outra família, que fica na Terra.Talvez essa seja a parte mais difícil. Antes do lançamento, você tem cerca de 30 minutos para se despedir. Foi o tempo que eu tive. E é impossível não se perguntar: o que dizer em um momento como esse? Por isso, as agências espaciais cuidam das famílias. Outros astronautas ficam próximos, dão suporte, acompanham. Porque quem fica também precisa de coragem. A humanidade que vai junto Um dos momentos mais marcantes dessa missão foi a homenagem feita pelo comandante Reid Wiseman à sua esposa, Carroll, que faleceu em 2020. Durante o sobrevoo lunar, a tripulação batizou uma cratera com o nome dela. Isso diz muito. Mesmo a centenas de milhares de quilômetros da Terra, o que move o ser humano continua sendo o amor. Também vimos a cápsula Orion receber o nome de “Integridade”. E vimos, ao vivo, conversas com familiares, emoções, histórias. Porque, no fim das contas, não é sobre máquinas. É sobre pessoas. Quando você vê a Terra de fora Existe um momento que muda tudo. Quando você está no espaço, olha para a Terra e percebe que aquilo ali... é uma nave também. Sem fronteiras e sem divisões. Um planeta pequeno, frágil, onde todos nós vivemos. E aí vem perguntas inevitáveis: Por que tanto conflito? Por que tanta divisão, se todos estamos no mesmo lugar? Os valores que aprendi com meus pais como respeito, compaixão, fé; fazem mais sentido do que nunca quando você vê o mundo de fora. Tecnologia nos leva longe. Valores nos mantém humanos. A Artemis II já é um sucesso. Tecnológico. Científico. Estratégico. Ela abre caminho para o retorno à Lua e, no futuro, para Marte. Mas existe uma lição que vai além disso tudo. Podemos desenvolver as tecnologias mais avançadas do mundo. Podemos ir cada vez mais longe no espaço. Mas, se não preservarmos a essência humana, a alma, os valores, a capacidade de nos colocarmos no lugar do outro, nós não avançamos de verdade. Hoje, 20 anos depois de olhar a Terra do espaço, eu continuo acreditando que o futuro não depende somente de tecnologia . Depende de quem nós escolhemos ser. E isso... começa aqui. Na Terra. Ad Astra.