Minerais críticos, terras raras e o eixo esquecido da política externa brasileira

admin
9 Apr, 2026
Na obra Gramática das Civilizações (1987), de Fernand Braudel, há uma passagem em que o historiador observa que as civilizações, antes de serem sistemas de ideias, são sistemas de coisas: pedra, ferro, trigo, sal. O que uma civilização extrai da terra, e o que faz com aquilo que extrai, define menos a sua riqueza do que o seu lugar na hierarquia dos povos. Roma não era Roma porque possuía minas de chumbo na Hispânia; era Roma porque transformava aquele chumbo em aquedutos, e aqueles aquedutos em poder. A distância entre extrair e transformar foi, em diversos contextos históricos, correspondente àquela entre agência, ou seja, a capacidade de agir de forma racional, intencional e autônoma, e impotência. Pois bem, no exato momento em que essa distinção volta ao centro da disputa geopolítica mundial, o Brasil petista permanece alheio à revolução que se opera debaixo dos seus pés. Literalmente, o subsolo brasileiro abriga a segunda maior reserva de terras raras do planeta (21 milhões de toneladas métricas, 23% do total mundial), o monopólio quase absoluto do nióbio (94% das reservas globais), posições de relevo em grafite (26% das reservas mundiais), níquel (terceiras maiores reservas) e lítio (quinto maior exportador). Se a geopolítica do século XX foi moldada pelo petróleo, a do século XXI decerto será, em larga medida, informada por esses materiais. E o Brasil, mais uma vez, corre o risco de sentar sobre o trono sem perceber que ele existe. O conceito de electrostate (eletroestado), trocadilho geoestratégico inspirado na noção de petroestado cunhado por analistas do Council on Foreign Relations (think tank norte-americano dedicado a temas de política externa dos EUA e, em sentido amplo, relações internacionais), designa os países que dominam não apenas as matérias-primas, mas sobretudo as cadeias de processamento e beneficiamento dos minerais essenciais à eletrificação da economia global. Veículos elétricos, turbinas eólicas, painéis solares, baterias de grande escala, semicondutores, sistemas de defesa de quinta geração, infraestrutura de data centers para inteligência artificial, tudo isso depende de um punhado de elementos que, apesar do nome, não são propriamente raros na crosta terrestre, mas cuja concentração em depósitos economicamente exploráveis com os instrumentos tecnológicos atuais é extraordinariamente restrita. A China compreendeu isso antes de todos. Pequim controla hoje o refino de 19 dos 20 minerais estratégicos listados pelo Departamento de Guerra dos Estados Unidos e responde por cerca de 65% da produção mundial de terras raras. Essa posição não foi obtida por acidente geológico, mas construída ao longo de quatro décadas de política industrial deliberada, investimentos em capacidade de processamento e instrumentalização geopolítica do monopólio resultante. Em 2025, a China impôs restrições à exportação de terras raras que paralisaram cadeias produtivas ocidentais inteiras, do setor automobilístico ao aeroespacial. A suspensão temporária dessas restrições expira em novembro de 2026. É nesse contexto que os olhos de Washington e Bruxelas se voltam para o Brasil. Segundo o U.S. Geological Survey, as reservas brasileiras de terras raras correspondem a praticamente metade das chinesas (44 milhões de toneladas métricas) e são sobremaneira superiores às norte-americanas (2,3 milhões), australianas (4,1 milhões) e indianas (6,9 milhões). Em nióbio, o Brasil é indispensável: o País foi a origem de 66% de todas as importações norte-americanas de nióbio entre 2019 e 2022. A Serra Verde, operando na jazida de Pela Ema, no norte de Goiás, tornou-se a primeira empresa fora da China a produzir comercialmente os quatro elementos magnéticos críticos de terras raras (neodímio, praseodímio, térbio e disprósio), com projeção de 6500 toneladas anuais de óxido de terras raras até 2027. Em relação ao lítio, o Brasil saltou de zero para a posição de quinto maior exportador mundial em menos de dois anos, com o Vale do Lítio de Minas Gerais abrigando 11 projetos em desenvolvimento. No que se refere ao grafite, material essencial para ânodos de baterias de íon-lítio, o País já é o terceiro maior produtor mundial. Esses números, contudo, revelam tanto a oportunidade quanto a patologia. O Brasil detém 23% das reservas globais de terras raras, mas responde por apenas 1% da produção mundial. Apenas 35% do território nacional foi geologicamente mapeado. O País exporta minério bruto e importa produtos acabados que contêm os mesmos minerais, pagando o estratosférico prêmio da transformação que não realizou. É a maldição clássica das economias extrativistas, agravada pela ausência de uma política industrial coerente e pela crônica incapacidade do Estado brasileiro de pensar estrategicamente além do próximo ciclo eleitoral. A demanda por minerais críticos é hoje impulsionada por três vetores convergentes. Primeiro, a transição energética verde: veículos elétricos, turbinas eólicas e sistemas de armazenamento de energia em escala de rede. Segundo, a infraestrutura de inteligência artificial: data centers, semicondutores avançados e chips de alto desempenho consomem muitos dos mesmos insumos. Terceiro, e talvez o mais consequente, a guerra moderna: drones, mísseis de cruzeiro e caças de quinta geração são, como observou Shannon Hendrix, do Peterson Institute for International Economics (PIIE), “feixes de minerais críticos em forma cinética”. A convergência desses três vetores atribui aos minerais críticos um papel em certa medida comparável ao do petróleo, com uma diferença fundamental: enquanto o petróleo era fungível e transacionado em mercados relativamente abertos, os minerais críticos dependem de cadeias de processamento dominadas, atualmente, pela China, que detém aproximadamente 65% da capacidade global de refino e processamento desses materiais. É precisamente aqui que o Brasil poderia desempenhar um papel transformador, não apenas para si mesmo, mas para a arquitetura de segurança mineral de diversos países. Tanto os Estados Unidos quanto a União Europeia têm intensificado o engajamento diplomático e comercial com Brasília. No início de 2026, um consórcio de investidores institucionais europeus e bancos de desenvolvimento anunciou a intenção de adquirir participações em ao menos cinco mineradoras brasileiras, abarcando lítio, níquel, manganês, grafite e terras raras, sob a égide da Lei de Matérias-Primas Críticas da UE. O Brasil será país-parceiro da Hannover Messe, que ocorrerá entre 20 e 24 de abril corrente em Hannover, Alemanha, com 140 expositores levando tecnologias industriais à Europa. Paralelamente, Washington pressiona por um acordo bilateral de minerais críticos, nos moldes dos que já firmou com aliados como Japão, Canadá e Austrália. A posição brasileira, no entanto, tem sido hesitante. O governo recusou-se formalmente a aderir à aliança de minerais críticos proposta por Trump, caracterizando-a internamente como uma “camisa de força”. Optou, em vez disso, por perseguir acordos bilaterais com Índia e Coreia do Sul, invocando a tradicional autonomia pela diversificação. A intenção de não subordinar a política mineral brasileira a um único eixo é, em princípio, defensável. Mas autonomia sem capacidade é apenas uma forma elegante de impotência. De que serve preservar a liberdade de escolha se o País não possui a infraestrutura para beneficiar os minerais que extrai, nem a política industrial para atrair a transferência de tecnologia que lhe permitiria ascender na cadeia de valor? Conquanto seja importante agregar valor por meio do processamento dessas matérias-primas no Brasil, com a estruturação de cadeias produtivas tanto eficientes quanto resilientes, são necessárias ações, e não apenas declarações, para que intenções sejam convertidas em projetos e tais projetos se concretizem. O já mencionado PIIE reuniu recentemente um painel de especialistas para avaliar se o Brasil tem alavancagem suficiente para negociar uma moldura que atenda aos seus próprios objetivos de desenvolvimento. A resposta, unânime, não surpreendeu ninguém: não. A razão é estrutural. Geologia não é destino, como observou o próprio PIIE. Ter reservas imensas não equivale a ter capacidade de processamento, infraestrutura logística, marcos regulatórios competitivos, mão de obra qualificada e estabilidade institucional. A matriz elétrica brasileira, quase 90% renovável, é uma vantagem competitiva extraordinária num mundo em que o custo energético do processamento mineral é proibitivo. Mas essa vantagem permanece inexplorada. As capacidades de refino e beneficiamento do Brasil são limitadas. O mapeamento geológico do território é incompleto. A regulação minerária oscila entre a paralisia burocrática e a insegurança jurídica. E o governo, preso entre a pressão ambientalista doméstica e a ausência de uma visão estratégica de longo prazo, não consegue articular uma política que concilie exploração responsável, agregação de valor e inserção soberana nas cadeias globais. O pivô mineral brasileiro não é apenas uma questão econômica: é, ou deveria ser, um eixo estruturante da política externa. Desde Rio Branco, a diplomacia brasileira construiu parte significativa de sua pretérita relevância sobre a capacidade de oferecer alternativas ao mundo. No século XX, o café e depois o minério de ferro fizeram do Brasil um fornecedor indispensável. No início do XXI, o agronegócio e o pré-sal reforçaram essa posição. Agora, os minerais críticos oferecem a possibilidade de algo qualitativamente distinto: não apenas fornecer matéria-prima, mas ocupar um elo estratégico nas cadeias globais de valores, com implicações diretas para a segurança energética, tecnológica e militar de diversos países. Um Brasil que domine o processamento de terras raras [https://www.gazetadopovo.com.br/economia/terras-raras-brasil-disputa-china-eua/], que agregue valor ao nióbio e ao grafite, que transforme o lítio em componentes de bateria no seu próprio território, não será apenas um exportador de commodities: será um ator indispensável na reconfiguração da ordem industrial mundial. A alternativa ao predomínio chinês existe, está mapeada (ainda que parcialmente) e jaz debaixo dos nossos pés. Mas a China não construiu a sua hegemonia mineral por inércia: fê-lo com quatro décadas de política deliberada, investimento massivo, formação de quadros técnicos e instrumentalização estratégica de cada elo da cadeia. Não há razão para supor que o Brasil possa obter resultado análogo sem esforço correspondente. A questão não é se as grandes potências virão buscar os nossos minerais: elas já estão vindo. A questão é se seremos parceiros ou fornecedores, protagonistas ou coadjuvantes, senhores da transformação ou meros zeladores do subsolo. Braudel tinha razão: civilizações são, antes de tudo, sistemas de coisas. Sob o cerrado de Goiás e as serras de Minas Gerais estão os elementos de que o século XXI é feito: o neodímio dos motores elétricos, o nióbio do aço de alta resistência, o lítio das baterias que moverão o mundo, o grafite dos semicondutores que o pensarão. A pergunta não é geológica. É civilizacional. Saberemos transformar pedra em poder, ou seguiremos embarcando matéria-prima nos porões enquanto outros constroem os aquedutos? A pergunta não é meramente retórica, mas esconde incômoda constatação: ou o Brasil transforma aquilo que extrai em indústria, tecnologia e poder, ou continuará condenado a exportar riqueza e importar dependência. O mundo já se move, reorganizando cadeias, mobilizando capital, redefinindo alianças, enquanto o Brasil petista ainda debate se deve ou não jogar o jogo, simplesmente pela incapacidade de entender suas regras básicas. Não há neutralidade possível: quem não ocupa espaço, cede. Quem não processa, paga. Quem não decide, obedece. Diante de uma oportunidade rara na história, o País precisa escolher entre ser protagonista da nova geopolítica industrial ou fornecedor passivo dela. Porque, desta vez, não será apenas mais um ciclo perdido, mas a consolidação definitiva de um lugar menor no mundo. Marcos Degaut, ex-secretário especial adjunto de Assuntos Estratégicos da Presidência da República, ex-secretário de Produtos de Defesa do Ministério da Defesa e ex-secretário-executivo da Câmara de Comércio Exterior do Brasil (CAMEX), é doutor em Segurança Internacional. Lindolpho Cademartori é diplomata de carreira desde 2006 e Mestre em Diplomacia pelo Instituto Rio Branco, do Ministério das Relações Exteriores. Suas opiniões são estritamente pessoais e não necessariamente refletem as do MRE.