Ficção e documentário trocam de papéis ao mostrar Rússia de Putin
9 Apr, 2026
O longa de ficção "O Mago do Kremlin" e o documentário "Um Zé Ninguém contra Putin" chegam ao Brasil alternando seus papéis enquanto contam histórias complementares acerca da Rússia moderna, como num díptico. Enquanto "O Mago" traz uma versão bem acurada, formalista e documental da ascensão de Vladimir Putin ao posto de czar do século 21, "Um Zé Ninguém" flerta com a comédia política ao mostrar o cotidiano de uma escola nos cafundós da Sibéria. São obras irregulares e donas de destinos díspares. Enquanto a ficção foi ignorada pela temporada de premiações, o documentário levou o Oscar da categoria neste ano. Ambas as apreciações soam exageradas. Começando pelo "Mago", veículo para uma impressionante atuação de Jude Law como Putin. A forma com que ele fuzila interlocutores com o olhar enquanto lhes oferece a cadeira para sentar, com os lábios imóveis, é precisa. Isso dito, ele não é o protagonista do longa de duas horas e 26 minutos, o que cabe ao versátil Paul Dano, de "Sangue Negro". Ele vive Vadim Baranov, uma versão fictícia de Vladislav Surkov, o homem a quem é creditada a criação da persona fria e poderosa de Putin. Dano se mostra ausente, um instrumento dos tempos em que vive, do ocaso da União Soviética até a agitação que levou à tomada da Ucrânia em 2014, o escopo temporal do filme. Mas o mutismo emocional ofusca o brilhantismo atribuído ao personagem. A reconstrução histórica do diretor francês Olivier Assayas é excelente, e Baranov vive em um mundo no qual se cruzam personagens reais, como o oligarca Boris Berezovski, e ficcionais, inspirados na realidade. O tom gélido favorece a ordem na barafunda de personagens e temas, mas eles estariam bem numa série de dez episódios para a TV, dada a ambição. Ela decorre da matéria-prima de alta qualidade na qual o roteiro é baseado, o best-seller homônimo do suíço-italiano Giuliano da Empoli. Como no livro, a Rússia é exposta enquanto as engrenagens do poder autocrático que se espalha pelo mundo do século 21 são esmiuçadas. Assayas emula Da Empoli, mas trai o espírito de ambiguidade do livro com um discutível desfecho mais cinematográfico. Como seria previsível, tentando mostrar Putin e seu entorno como produtos racionais, o filme atraiu críticas que transcendem suas qualidades e defeitos. É um erro —é a humanidade deles que os torna assustadores. Ela é explicitada no documentário do russo Pavel Talankin e do americano David Borenstein, "Um Zé Ninguém Contra Putin", lançado diretamente no streaming Filmelier+. O longa atende às vontades de quem só vê vilões e mocinhos no mundo, mas vai além. O Zé Ninguém de seu título é o próprio Talankin, que trabalha como cinegrafista de uma escola em Karabach, conhecida como a cidade mais poluída da Rússia devido à exploração e fundição de cobre desde 1822. Ao longo de dois anos a partir de 2022, Talankin registrou as mudanças decorrentes da Guerra da Ucrânia. De repente, canções patrióticas e palestras ideologicamente carregadas sobre o conflito viraram obrigatórias. O diretor tinha de gravar tudo e submeter a um orwelliano sistema de controle do governo. O naturalismo ganha ares farsescos, e de repente o documentário parece ficção. As falas de um professor leal ao sistema são tão caricatas que parecem ensaiadas, e Talankin empresta sua figura ingênua à criação de um personagem em si. Há estranhamento aí. A conversão de Talankin de espectador para o Zé Ninguém antissistema é pouco verossímil, embora isso talvez seja explicado pela necessidade de proteger os elos que o levaram a contrabandear seu trabalho para o exterior. O fraco resultado técnico acaba compensado pelo horror invadindo aquela comunidade, que fica na região com o terceiro maior número de mortes de soldados na Ucrânia. O Kremlin busca contratar mais militares em regiões longe da vida abastada de Moscou e São Petersburgo. De forma questionável, ele expõe os jovens. Uma exceção é o registro apenas em áudio de uma mãe no enterro do filho. Como Werner Herzog em "O Homem Urso", ele deixa o som solapar o espectador.