O judaísmo e a recuperação de seu tradicional humanismo

admin
10 Apr, 2026
Apesar da horripilante monstruosidade atualmente em curso no Oriente Médio contra os povos palestino, libanês e iraniano, estou convencido de que as comunidades judaicas pelo mundo afora estão diante de uma oportunidade inigualável para recuperar o prestígio e a tradicional glória do judaísmo como uma religião e filosofia profundamente humanista. Este pensamento ficou-me ainda mais revigorado após ter assistido ao novo curto vídeo do apresentador Mirko Casale sobre o bombardeio e destruição de uma sinagoga no Irã. Contrariamente ao objetivado por longas décadas de martelação deturpativa de nossos meios hegemônicos sobre a intolerância religiosa das autoridades iranianas, vamos tomar conhecimento de que a agressão contra o templo judaico foi cometida pelas próprias forças do sionista Estado de Israel. Isto significa que os sórdidos executores deste abominável crime contra o judaísmo são sujeitos que ousam dizer que representam o judaísmo em sua totalidade. Não obstante tratar-se de um momento de muita tristeza e perplexidade, que já acarretou na morte de centenas de milhares de seres humanos (em sua maioria, crianças e mulheres indefesas) e na expulsão de milhões de outros de suas casas e suas terras, poderíamos extrair como um rescaldo positivo dessa tragédia o fato de que a cada dia vai se tornando mais evidente aos olhos do mundo que judaísmo e sionismo não são para nada equivalentes. Assim, o horror e a desumanidade praticada diariamente pelos sionistas contra outros povos da região estão contribuindo para que os integrantes das comunidades judaicas espalhadas pelos quatro cantos do planeta passem a dar-se conta de quão nefasto tem sido para eles manterem-se submetidos ao domínio de uma ideologia essencialmente racista, colonialista e imperialista como o sionismo. Em realidade, o sionismo não tem absolutamente nada a ver com as raízes históricas do judaísmo nem, muito menos, com o tradicional sentimento humanista que sempre caracterizou a este. Tanto é assim que sua formulação e gestação se deu, inicialmente, entre círculos das elites colonialistas e imperialistas da Europa Ocidental. Para quem deseja ter um quadro mais pormenorizado sobre este processo de surgimento do sionismo, recomendo a leitura do esclarecedor livro Os Sionistas Cristãos, do reverendo evangélico inglês Stephen Sizer. De modo análogo ao fascismo, nazismo e outras vertentes ideológicas surgidas a partir das crises capitalistas na Europa em meados e fins do século XIX, o sionismo também ganhou corpo na disputa encarniçada entre setores do grande capital por ampliar e consolidar espaços em favor de seus interesses de classe. E, assim como costuma ocorrer nessas contendas entre grandes capitalistas por questões que dizem respeito exclusivamente a eles mesmos, cada facção se dedica a alinhar por trás de seus postulados ao número máximo possível de elementos da população comum. Para tornar factível essa unificação de grande número de pessoas de grupos sociais alheios às classes dominantes, os ideólogos destas fazem uso de alguns pontos secundários que possam atrair amplas camadas da população em sua defesa e, em consequência, as transformem em ardentes defensores daquilo que, de fato, pouco ou nada corresponde às necessidades dessas massas. Como sabemos pelo estudo da história, os enormes contingentes de judeus que havia na Europa até a primeira metade do século XX foi devido em grande medida a processos causados e executados pelos próprios europeus. De ser certa a tese do êxodo de judeus que os levou a se espalharem por vastas regiões europeias há cerca de dois mil anos, os responsáveis pela determinação e execução de sua retirada de suas terras originais não foram os outros povos daquele lugar. A culpa deveria ser atribuída única e exclusivamente às classes dominantes europeias. Por via das dúvidas, convém recordar que o Império Romano era um império europeu. Além disso, outra constatação inescapável é que quase todo o sofrimento e exploração a que os judeus se viram submetidos nos últimos dois milênios teve lugar no coração da Europa, comandado e aplicado pelas forças a serviço de suas classes dominantes. A perseguição atroz desatada pelos nazistas de Hitler teve seu epicentro na Alemanha e foi acompanhada em outros países europeus. Coisa semelhante nunca lhes ocorreu na Palestina, nem no Líbano, nem no Irã. Até antes da II Guerra Mundial, predominava entre as comunidades judaicas na Europa o desejo de integração com o restante das populações locais. Grande parte dos judeus havia aderido plenamente à luta da classe trabalhadora por sua emancipação total, na busca da construção do socialismo. Foi o sionismo que, em nome do grande capital judaico, passou a pregar a criação de um Estado exclusivo para a população judaica. Porém, em perfeita sintonia com os outros grupos capitalistas do continente europeu, o sionismo não propunha que partes da Alemanha, da França, da Polônia, etc., ou seja, dos países onde os judeus eram efetivamente perseguidos, fossem entregues para a edificação desse Estado. No caso, o que eles defendiam era que seu país específico fosse fundado em algum outro continente. Poderia ser a Argentina, Uganda ou, como acabou prevalecendo, a Palestina. Quer dizer, beleza pura para os grandes capitalistas europeus e seus homólogos judaicos: os segundos passariam a ter uma população significativa atrelada a suas diretrizes e se comprometiam a representar os interesses do imperialismo no Oriente Médio; enquanto que os primeiros se livrariam da presença indesejada de um grande número de gente combativa que havia se destacado na luta contra a espoliação do capitalismo. Neste conluio inescrupuloso, essas duas partes ficaram com os bônus e transferiram o fardo e a culpa dos males que haviam sido causados aos judeus europeus a povos completamente alheios ao problema. No intuito de ganhar e ampliar sua aceitação entre as comunidades judaicas, até então refratárias às propostas do sionismo, foi elaborada uma gigantesca campanha de desinformação e manipulação sobre o real significado dessa ideologia com o objetivo de torná-la equivalente ao judaísmo. Então, para aumentar o nível de adesão dos judeus ao sionismo, passou-se a massacrá-los com a ideia de que judaísmo e sionismo seriam exatamente o mesmo. E é este enorme esforço de tergiversação o que tem marcado as últimas oito décadas de nossa história. Com isso, os grandes capitalistas da Alemanha, por exemplo, em lugar de entregar aos judeus que haviam sobrevivido às atrocidades do nazismo, que eles apoiavam, uma parte da Baviera, para que ali fosse construído seu Estado, e dar-lhes a posse e o comando da Volkswagen, do grupo Krupp, etc., acharam mais conveniente oferecer carta branca aos sionistas para que praticassem tudo o que lhes desse na telha contra o povo da Palestina, aonde eles foram estimulados a se transferir. Ainda que o peso da máquina de propaganda do sionismo e dos órgãos associados a seus interesses tenha alcançado importantes êxitos nesses anos todos de manipulação, quem acompanha a evolução da questão sionista há mais tempo sabe do papel destacado para desmascará-lo de grandes intelectuais humanistas de ascendência judaica. Podemos citar, entre tantos outros, o historiador israelense Ilan Pappe, a filósofa estadunidense Judith Butler, o renomado sociólogo Norman Finkelstein e, para situar-nos na América Latina, os combativos jornalistas Breno Altman e Tali Gleiser. Nenhum dos mencionados jamais renegaram de sua condição de judeus, mas são todos decididamente adversários do caráter racista, exclusivista, colonialista e imperialista que constitui a essência do sionismo. Agora, para retornar ao começo do texto e tirar as conclusões devidas, os crimes do sionismo ao longo do tempo, especialmente os da atualidade, têm sido tão aberrantes e monstruosos que estão levando uma parcela expressiva dos judeus em todas as partes a buscar seu desvencilhamento dessa nefasta corrente ideológica a serviço do que o colonialismo tem de pior. Este fenômeno se nota de maneira ainda mais clara entre a juventude judaica, a qual está aprendendo a distinguir, na prática, a malignidade do sionismo e sua total incompatibilidade com os princípios éticos do humanismo judaico. Enlace ao vídeo de Mirko Casale: https://www.dailymotion.com/video/xa51uaq