Se apenas os presos votassem, o PT seria imbatível; veja os números
12 Apr, 2026
Uma das mais garantistas do mundo, a Constituição promulgada no Brasil em 1988 trouxe consigo um catálogo extenso de direitos. Entre eles, a possibilidade de votar mesmo entre aqueles eleitores que estiverem presos provisoriamente durante o período eleitoral. Foi assim em 2022, e o resultado das urnas que receberam os votos desses presos mostrou uma vitória expressiva da esquerda – em especial do PT ou de partidos coligados a ele. Isso se verifica não só na eleição para presidente, na qual Lula manteve uma média de 80% dos votos nos dois turnos, mas também nas votações para governador, senador e deputados federais. Em alguns casos, os candidatos preferidos dos presos sequer chegaram a ser eleitos, apesar dos bons percentuais nas urnas das carceragens. Se apenas os votos dos presos contassem para as eleições, os estados do Amazonas, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Minas Gerais e São Paulo estariam sendo governados por nomes do PT ou coligados a ele. Também haveria mudanças na votação para o Senado em Goiás, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Espírito Santo, Minas Gerais e São Paulo. A situação é a mesma dos governadores: os preferidos entre os presos nestes estados são candidatos coligados ou filiados à federação Brasil da Esperança, integrada pelo PT, PV e PC do B. Veja como foi a votação para presidente entre os presos em 2022 A Gazeta do Povo extraiu os dados oficiais do TSE e compilou os resultados, filtrando apenas as seções eleitorais cujos nomes têm termos como “Casa de Detenção”, “Cadeia” ou “Unidade Prisional”. É bom lembrar que, embora os presos constituam a maior parte dos eleitores nesses pontos de votação, também é possível que parte desses votos sejam de policiais penais. Primeiro Turno Segundo Turno Veja quem foram os candidatos a governador, senador e deputado federal mais votados entre os presos em 2022 Apesar da regulamentação feita pelo TSE para o voto dos presos, não foram todos os estados que providenciaram instalações de sessões eleitorais em cadeias, carceragens e locais de internação de adolescentes infratores. Naqueles onde houve esse voto, a reportagem separou os dois mais votados entre candidatos a governador no primeiro e segundo turno – se houve – e senador, e os cinco mais votados entre os deputados federais. No estado de São Paulo, por ser o maior colégio eleitoral, o detalhamento é maior. Em alguns casos, os presos seguiram a tendência de voto da população geral, com os mais votados nas cadeias também sendo eleitos nas urnas. Em outros, os preferidos dos detentos não conseguiram efetivar seus postos no Executivo nem no Legislativo. Houve ainda casos em que candidatos perderam para os votos em branco e nulos. Região Norte Amazonas Governador – 1o Turno Governador – 2o Turno Senador Deputado Federal (mais votados) Amapá Governador – 1o Turno Senador Deputado Federal (mais votados) Rondônia Governador – 1o Turno Governador – 2o Turno Senador Deputado Federal (mais votados) Roraima Governador – 1o Turno Senador Deputado Federal (mais votados) Região Nordeste Alagoas Governador – 1o Turno Governador – 2o Turno Senador Deputado Federal (mais votados) Bahia Governador – 1o Turno Governador – 2o Turno Senador Deputado Federal ( mais votados) Ceará Governador – 1o Turno Senador Deputado Federal (mais votados) Maranhão Governador – 1o Turno Senador Deputado Federal (mais votados) Paraíba Governador – 1o Turno Governador – 2o Turno Senador Deputado Federal (mais votados) Pernambuco Governador – 1o Turno Governador – 2o Turno Senador Deputado Federal (mais votados) Piauí Governador – 1o Turno Senador Deputado Federal (mais votados) Sergipe Governador – 1o Turno Governador – 2o Turno Senador Deputado Federal (mais votados) Centro Oeste Distrito Federal Governador – 1o Turno Senador Deputado Federal (mais votados) Goiás Governador – 1o Turno Senador Deputado Federal (mais votados) Sul Rio Grande do Sul Governador – 1o Turno Governador – 2o Turno Senador Deputado Federal (mais votados) Santa Catarina Governador – 1o Turno Governador – 2o Turno Senador Deputado Federal (mais votados) Sudeste Espírito Santo Governador – 1o Turno Governador – 2o Turno Senador Deputado Federal (mais votados) Minas Gerais Governador – 1o Turno Senador Deputado Federal (mais votados) São Paulo Governador – 1o Turno Governador – 2o Turno Senador Deputado Federal (mais votados) O que explica a vantagem do PT entre os eleitores presos? Uma possível explicação para esses resultados seria o recorte demográfico da população carcerária no Brasil. Para Marcos José Zablonsky, relações públicas e especialista em opinião pública, o perfil dos presos no país é de pessoas em situação de vulnerabilidade social. De forma mais detalhada, segundo o especialista, a maior parte dos presos tem pouca escolaridade e baixa renda, além de serem negros e pardos. E este seria um recorte comum entre os eleitores do PT. Outro possível fator apontado à Gazeta do Povo seria a dificuldade dos presos em ter acesso às propostas dos candidatos, o que facilitaria o voto baseado na chamada memória eleitoral. “Isso poderia explicar os votos de presos no Bolsonaro, já que durante a campanha era comum ouvir de aliados e apoiadores que ‘bandido bom é bandido morto’, e coisas desse tipo. Já o Lula está na política, desde a década de 1980, com um histórico maior ligado aos direitos humanos. Então, para esses presos, vale mais o que eles têm de memória e vivência que tinham antes de serem detidos”, avaliou. Mario Sergio Lepre, advogado, mestre em Ciência Política e professor da PUC-PR tem outra interpretação, mais direta. “Existe uma similaridade entre o que os bandidos desejam e o que a esquerda prega. É uma coincidência de ideias. A esquerda prega, dentro de sua lógica, que bandidos são vítimas da sociedade, e que por isso eles podem tudo. E o preso sabe disso, e prefere um Estado protetivo ao bandido”, explicou à reportagem. As pautas da direita, disse Lepre, são mais voltadas ao endurecimento das penas e à adoção de restrições, como a redução da maioridade penal, o que afastaria esse eleitor. Mas então o que explicaria a vitória de candidatos da direita em algumas urnas das cadeias, como os deputados federais na Bahia? As resoluções do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) também permitiram aos agentes penitenciários, policiais penais e demais servidores a transferência temporária para essas sessões. Mas só isso não basta, segundo o especialista, uma vez que há também os chamados votos residuais dos presos dos servidores. “A maior parte desses eleitores, que são os presos, acaba votando na esquerda, mas deve haver agentes públicos eleitores da esquerda também. Assim como da outra forma, há provavelmente uma maioria de votos na direita por parte dos servidores, e pode ser que alguns dos presos também votem na direita”, completou Lepre. Votação de presos foi suspensa para Eleições 2026 De acordo com a Constituição, os presos só deveriam ser impedidos de votar nos casos nos quais houvesse condenação transitada em julgado. A liberação dos votos para os presos provisórios, porém só se tornou realidade em 2010. À época, a medida foi regulamentada pelo TSE e comemorada por tornar o perfil do eleitor brasileiro “mais democrático”. Dados do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) mostram que cerca de 13 mil presos provisórios e adolescentes internados estavam aptos a votar nas eleições de 2022. O número final de votos, porém, foi menor por conta das exigências de instalação das urnas nas cadeias. Uma delas, por exemplo, só permitia a abertura de uma sessão se houvesse ao menos 20 eleitores habilitados na carceragem. Para as Eleições 2026, porém, não há – por enquanto – previsão de votos para a população carcerária. Isso porque um dos efeitos colaterais da aprovação do PL Antifacção foi a atualização do Código Eleitoral Brasileiro. Uma emenda apresentada pelo deputado Marcel Van Hattem (NOVO-RS) atualizou a proibição de voto para “as pessoas recolhidas a estabelecimento prisional, enquanto perdurar a privação de liberdade, ainda que sem condenação definitiva”. O caso ainda pode ser judicializado. “Facções criminosas controlam presídios, coagem detentos e usam essa estrutura para ampliar sua influência. A restrição ao voto, enquanto durar a custódia, corta esse ciclo e reforça a credibilidade ao processo eleitoral”, avaliou o deputado.