Droga do prazer feminino não anima o romance frio de Juan Cárdenas
30 Apr, 2026
O colombiano Juan Cárdenas parte de um argumento bem interessante em "Ornamento", romance de 2015 publicado só agora no Brasil. Um grupo de cientistas sintetiza em laboratório o princípio do psicoativo encontrado em um flor que, usada em sabões, leva as lavadeiras das cordilheiras a um êxtase coletivo. Descoberta a substância, descobre-se também que a testosterona a neutraliza: só as mulheres aproveitam seus efeitos. Para desenvolver sua premissa, Cárdenas nos oferece, porém, um narrador bastante desinteressante. Médico responsável por desenvolver uma fase de experimentos com quatro voluntárias, ele apresenta seus resultados e observações por meio de uma espécie de diário muito direto, com altas doses de cinismo. O gatilho de sua narrativa é a fascinação que desenvolve pela paciente número 4, que nunca recebe na história mais do que essa designação. "Você não me conhece", diz ela para o médico a certa altura, a fim de deixar bem claro, também para nós, que é uma personagem afundada em mistérios. O primeiro deles é o fato de que, enquanto as outras caem no sono nas primeiras doses da substância, a número 4 desata a falar, emendando relatos oníricos acerca de sua mãe em fabulações mais abstratas. De origem pobre, a voluntária surpreende o elitismo do médico por seu discurso e sua inteligência, manifesta em uma risada deslumbrante. Num estalo —o romance de Cárdenas é bastante ligeiro—, a mulher entra na vida privada do sujeito, perturbando seu casamento com uma artista plástica consagrada, que persegue em sua obra a ideia de "viver na poética da inação", em "um gesto elementar esvaziado de qualquer materialidade". Estabelece-se entre eles um triângulo amoroso continuamente animado pela nova droga. O que é o ornamento aqui? O encanto que a droga confere às coisas mais triviais? O excesso que a esposa do narrador, em seu discurso pretensioso, diz querer evitar em suas obras, que perseguem o mais destilado bom gosto? A beleza que o irrita pela falta de sentido prático, por seu puro dispêndio? "Não suporto os afetamentos e as molduras e aquele estilo tão pesado", responde o médico quando a número 4 lhe diz que "é impossível que você não goste das igrejas coloniais". Ele explica que as imagens de santos e arcanjos lhe dão medo "porque era o tipo de coisa que os traficantes de drogas dos anos 80 gostavam". Ela ri, e espera-se que nós também percebamos a ironia evidente, já que o médico não é mais do que a nova versão dos traficantes. Não mais cartéis barrocos, e sim a esterilidade liberal do laboratório, dos investidores e gestores, das pílulas baratas comercializadas democraticamente em toda a cidade. É uma droga, afinal, que, no delírio do médico, é uma forma de arte "feminista e igualitária", cujo "único espaço de legitimação é o mercado, quer dizer, o corpo e o mercado". Uma droga que "dá o que você precisa" e "pode deixar qualquer um feliz", resume a número 4 na resposta que dá ao questionário do laboratório. Em outro modo de narrar, menos cáustico e econômico —talvez, precisamente, mais barroco—, essa pista que a paciente nos dá, em seu aceno ao potencial disruptivo da alegria não restrita a uma elite, pudesse levar a um romance mais sedutor. Cárdenas, no entanto, opta por uma prosa seca e por lacunas demais no enredo, a serem preenchidas pelo leitor, que não dispõe de elementos suficientes para isso. Ao mesmo tempo, paradoxalmente, ele impõe de forma ostensiva suas críticas sociais. O romance, de qualquer modo, tem sua graça: nas elocubrações da paciente número 4 (justamente quanto o narrador se cala), na imagética da paisagem que circunda o médico e se contrapõe drasticamente ao seu discurso, na ideia sugerida do efeito do prazer extático sobre aquelas mulheres que, antes de experimentarem a droga, viviam apenas sob o signo da necessidade. É uma pena que a história seja, predominantemente, contada de um modo tão frio e inexpressivo.