Astrônomos detectam atmosfera em corpo celeste nos confins do Sistema Solar
5 May, 2026
Nos confins do nosso Sistema Solar —além do planeta mais distante, Netuno— reside uma série de corpos celestes gelados e desolados. Entre esses objetos, somente Plutão era conhecido por possuir uma atmosfera. Até agora. Astrônomos identificaram outro objeto dessa região com uma atmosfera para chamar de sua, ainda que rarefeita. A descoberta, descrita em estudo que saiu nesta segunda-feira (4) na revista Nature Astronomy, sugere que alguns corpos solitários podem ser mais dinâmicos do que se pensava. O objeto recebeu o nome de (612533) 2002 XV93 e orbita o Sol aproximadamente à mesma distância que Plutão. Seu diâmetro é estimado em cerca de 500 quilômetros. Para se ter uma ideia, é muito menor que os planetas-anões Plutão e Éris, com diâmetros de 2.370 quilômetros e 2.326 quilômetros, respectivamente. A atmosfera do objeto parece ser em torno de 5 milhões a 10 milhões de vezes mais fina do que a da Terra e de 50 a 100 vezes mais fina do que a de Plutão. Além disso, ela pode ser dominada por metano, nitrogênio ou monóxido de carbono. "A descoberta sugere que alguns pequenos corpos gelados no Sistema Solar exterior podem não ser completamente inativos ou imutáveis, como se supunha anteriormente", disse o astrônomo Ko Arimatsu, diretor do Observatório Astronômico de Ishigakijima e professor do Observatório Astronômico Nacional do Japão. Ele é o autor principal do novo estudo. "Acreditava-se de modo geral que uma atmosfera não existiria em um objeto tão pequeno", disse o astrônomo e coautor do estudo Junichi Watanabe, diretor do Instituto de Ciências Espaciais Koyama da Universidade Kyoto Sangyo e professor do Observatório Astronômico Nacional do Japão. "Isso sugere que, mesmo em um mundo distante e frio, existem dinamismos que não imaginávamos." Existem duas possíveis explicações para a atmosfera do objeto, segundo os autores do novo estudo. Uma delas é que possa ser uma atmosfera duradoura, talvez sustentada por criovulcanismo, com gases escapando ou sendo expelidos de seu interior através de fissuras em sua superfície. "Não seria um vulcão como os da Terra, com rocha derretida, mas uma versão de mundo gelado e frio envolvendo gases voláteis e gelos", disse Arimatsu. A outra hipótese é que a atmosfera possa ser temporária, fruto de gases liberados na colisão com um objeto menor relativamente pouco tempo atrás. "Se a atmosfera foi gerada por impacto, ela pode diminuir ao longo dos próximos anos ou décadas. Se persistir ou variar sazonalmente, isso favoreceria a hipótese de um suprimento interno contínuo", afirmou Arimatsu. Para estudar o objeto, pesquisadores utilizaram telescópios terrestres nas cidades japonesas de Kyoto, Nagano e Fukushima. As observações ocorreram durante uma ocultação estelar, ou seja, quando um corpo celeste passa na frente de uma estrela distante do ponto de vista da Terra, obscurecendo temporariamente a luz estelar. Os cientistas conseguem determinar características físicas de um objeto com base nas mudanças na luz da estrela de fundo. O objeto recém-identificado habita uma vasta extensão além de Netuno chamada Cinturão de Kuiper. Suspeita-se que provavelmente ele tenha surgido no início do Sistema Solar, há pouco mais de 4,5 bilhões de anos. Ele percorre uma trajetória elíptica ao redor do Sol, levando 247 anos para completar uma órbita. Sua composição, segundo os pesquisadores, pode incluir gelo de água, rocha e materiais ricos em compostos orgânicos. No momento das observações, ele estava a cerca de 5,5 bilhões de quilômetros do Sol. Isso equivale a aproximadamente 37 vezes a distância entre a Terra e o Sol, uma medida chamada unidade astronômica, ou UA. Sua distância média do Sol é de cerca de 39,6 UA —34,6 UA no ponto mais próximo e 44,6 UA no mais distante. Os pesquisadores reconhecem que o nome (612533) 2002 XV93 não é fácil de memorizar. "Dentro da nossa equipe, geralmente chamávamos apenas de XV93, o que é conveniente, mas reconhecidamente não é muito empolgante", disse Arimatsu. "Pessoalmente, como trabalho no Observatório Astronômico de Ishigakijima, em Okinawa, ficaria muito feliz se um dia ele recebesse um nome ligado à mitologia de Okinawa, como Amamikyu, a divindade criadora na tradição okinawana. Mas a nomenclatura formal segue os procedimentos da União Astronômica Internacional."