Enquanto Brasil pune homeschooling, Flórida paga até US$ 10 mil anuais por aluno

admin
25 May, 2026
No último dia 16 de maio, uma turma de mais de 40 jovens da cidade americana de Tampa, na Flórida, celebrou sua formatura da High School, o equivalente ao ensino médio no Brasil. A festa foi organizada pelas famílias, porque todos os participantes concluíram essa etapa de formação no modelo de homeschooling [https://www.gazetadopovo.com.br/tudo-sobre/homeschooling/]. A filha mais velha da brasileira Rafaela Burress fez parte da cerimônia. Ela tem 18 anos e estudou em casa os últimos seis – assim como seu irmão, que atualmente tem 13 anos e está concluindo o ciclo inicial. “As duas crianças tinham necessidades próprias, que a escola tradicional não atendia adequadamente”, afirma ela, que mora nos Estados Unidos há 28 anos e ao longo de todos estes anos conviveu com adultos formados em casa ao longo dos anos escolares. “Eu nunca tinha ouvido falar deste modelo, achava um absurdo. Mas, no convívio com estas pessoas, observando como elas era bem preparadas, percebi que era possível”. A filha de Rafaela tem autismo nível 1 e o menino, TDH. “Ele gosta de ler, de estudar, mas não conseguia ficar parado na carteira, fechado em uma sala, por oito horas seguidas. Todos os dias eu recebia telefonemas da escola. Em casa, ele se adaptou muito bem e evoluiu muito rápido”. Num cenário em que famílias brasileiras são perseguidas [https://www.gazetadopovo.com.br/opiniao/editoriais/condenacao-pais-homeschooling-jales/] por praticar o ensino domiciliar, o caso da brasileira apresenta um contraste. Na Flórida, o governo estadual oferece até mesmo bolsas [https://www.fldoe.org/schools/school-choice/k-12-scholarship-programs/fes/], que abrangem todos os moradores, incluindo os aproximadamente 400 mil brasileiros que moram no estado. O programa local concede créditos anuais, cujo valor depende do tipo de necessidade, da renda familiar e do condado de residência – mas o total costuma oscilar entre US$ 8 mil e US$ 10 mil por criança por ano. O objetivo é capacitar as famílias a personalizar a educação de seus filhos, com bolsas de estudos que facilitam o acesso a escolas particulares, ensino público em um local mais distante de casa, aulas particulares, terapias, cursos extras – e, caso a família prefira, homeschooling. “Os valores são depositados bimestralmente em uma conta específica, que fica em nome da criança”, explica a mãe, que recebe o benefício. “Os gastos com educação são debitados ali. Quando é preciso fazer alguma compra, ela é feita com nossos próprios recursos. Apresentamos o recibo e recebemos reembolso”. O valor é suficiente para complementar a formação, seja com a compra de materiais educacionais ou de equipamentos eletrônicos utilizados nos estudos, ou mesmo serviços de tutoria e terapias especializadas. “No ensino domiciliar, não ficamos o dia todo em casa. Podemos aprender em qualquer lugar, em parques, museus, durante passeios”, relata ela. Apoio do governo Reforçado por decisão do governo estadual de 2023, o programa de crédito da Flórida é apoiado em duas frentes. Uma delas é o Step Up For Students [https://www.stepupforstudents.org/], organização sem fins lucrativos criada em 2002 pelo investidor de capital de risco John Kirtley e aprovada pelo estado para financiamento de cinco bolsas de estudo diferentes para alunos residentes, de todas as idades entre o jardim de infância e o High School. São atendidos pelo programa aproximadamente 130 mil dos 3,2 milhões de alunos matriculados no estado. A outra parceria é mantida com a A.A.A. Scholarship Foundation [https://www.aaascholarships.org/], que surgiu em 2010, atua com maior foco em famílias de baixa renda e atende a quatro estados, Arizona, Geórgia, Nevada e Flórida. Suas bolsas também preveem o acesso a ensino domiciliar. Como informa [https://www.fldoe.org/file/5606/HomeEd-Sept-2025.pdf] o departamento local de educação, a Flórida apoia o homeschooling e o autoriza desde 1985. A legislação local não exige formação educacional específica para os pais, nem currículos padronizados para os alunos. No entanto, os pais devem manter um portfólio de registros e materiais que registrem o trabalho do aluno. Esta documentação precisa ser disponibilizada ao distrito escolar, se solicitada por escrito. Os alunos em programas de educação domiciliar devem passar anualmente por uma das cinco opções de avaliação acadêmica e enviar os resultados ao superintendente escolar do distrito. Enquanto isso, no Paraná, recentemente, um casal de Araucária (PR) que optou pelo ensino domiciliar precisou matricular os filhos em uma escola tradicional [https://www.gazetadopovo.com.br/vida-e-cidadania/por-que-pais-do-parana-desistiram-do-ensino-domiciliar-apos-multa-milionaria/] após a multa exigida pela Justiça chegar a R$ 1,4 milhão. O casal teve as contas bancárias e o carro bloqueados devido à cobrança. Motivos para aderir O incentivo financeiro e a legislação favorável reforçam uma tendência: a Flórida é um dos estados com maiores taxas de adesão ao ensino domiciliar nos Estados Unidos. No ano letivo de 2024-2025, foram identificados pelo departamento local de educação 114.370 famílias e 152.871 alunos participando de programas de educação domiciliar na Flórida. A participação alcança 6,99% do total de estudantes do estado, de acordo com um levantamento [https://nheri.org/how-many-homeschool-students-are-there-in-the-united-states/] realizado pelo National Home Education Research Institute (NHERI). O levantamento realizado pela instituição aponta que existem no país aproximadamente 3,408 milhões de alunos em idade escolar estudando em casa nos Estados Unidos, o equivalente a cerca de 6,262% da população em idade escolar. “Esse número reflete um aumento notável no período pós-pandemia, sendo aproximadamente o dobro da matrícula em escolas católicas (1,7 milhão) e se aproximando dos níveis de escolas públicas charter (3,8 milhões) durante 2024-2025”, detalha a pesquisa. A popularidade do modelo segue em alta, e os indicadores apontam para a manutenção da adesão registrada durante a crise sanitária provocada pela Covid-19. De acordo com um trabalho [https://www.pewresearch.org/short-reads/2025/02/20/a-look-at-homeschooling-in-the-us/] realizado em 2025 pelo centro de pesquisas Pew, com base em dados do Centro Nacional de Estatísticas da Educação, os principais motivos para as famílias americanas se utilizarem do homeschooling são, pela ordem, em respostas múltiplas, preocupação com o ambiente escolar e questões como segurança, uso de drogas e bullying (83%), preferência por proporcionar instruções morais alinhadas aos valores dos pais (75%), desejo de fortalecer o convívio em família (72%), insatisfação com o nível acadêmico do ensino tradicional (72%), preferência por providenciar instrução com base religiosa (53%) e interesse em abordagens de ensino alternativas (50%). Apoio da sociedade No caso dos filhos de Rafaela Burress, a motivação principal foi a aderência às necessidades específicas de cada criança. E os benefícios ficaram visíveis rapidamente, graças ao apoio governamental e da comunidade. “O crédito parte de um princípio claro: o dinheiro segue para onde o aluno vai. Se ele estuda em escola pública, os impostos são direcionados para mantê-la. Se a família opta por alternativas, ela conta com suporte financeiro para apoiar sua decisão”, relata ela. Além disso, a rede de suporte consolidada na região representa um apoio crucial. “Os pais sabem ensinar. São eles que conduzem os filhos diante de missões tão importantes quanto aprender a andar, a comer, a se portar. Em casa, as crianças aprendem a estudar, a pesquisar, a desenvolver autonomia", afirma Rafaela, que complementa: "Contamos ainda com o apoio das cooperativas de homeschooling, que são muito numerosas em Tampa, em específico, e na Flórida em geral. Aqui eu me sinto na capital mundial do ensino domiciliar”.