Jornalista do UOL participa de futebol dos autores da Feira do Livro de SP

admin
6 Jun, 2026
Resumo Quando entrei correndo no campo da Mercado Livre Arena Pacaembu com o sol de meio-dia queimando meu couro cabeludo, pensei: onde eu estava com a cabeça quando aceitei isso? Isso, no caso, é o futebol dos autores, partida amistosa disputada entre escritores, editores e jornalistas que participam da Feira do Livro, evento literário que está em sua quinta edição e ocorre diante do estádio do Pacaembu, em São Paulo, sempre no feriado de Corpus Christi. Confesso que aceitei no impulso. Pensei: quando terei outra oportunidade de jogar no mesmo gramado em que Leônidas da Silva fez cinco gols de bicicleta? Em que Corinthians e Santos sagraram-se campeões da América? Inspiração em Rivaldo Comecei a pensar que talvez tivesse me precipitado quando recebi uma mensagem da organização do jogo indagando-me se eu tinha chuteiras. Chuteiras? Nunca calcei, que dirá possuir uma. Mas não dá pra jogar com meus tênis de corrida? Não, não dava. Era preciso calçar chuteiras com travas e usar um uniforme completo - no caso do meu time, preto dos pés à cabeça, como fiz ao chegar ao vestiário, 15 minutos antes do certame. Depois de me montar, olhei-me no espelho e gostei do que vi. Senti-me profissional, veio-me à mente a imagem do jogador Rivaldo. E assim, orgulhosa, ainda no vestiário, enviei uma foto minha no grupo da família. "kkkkkkk", respondeu minha irmã. "O que é isso? Vai apitar algum jogo?". Sim, relacionamentos tóxicos existem nas famílias mais amorosas. Mas não era por estar aparentemente fantasiada de árbitra que eu repensava minha decisão ao entrar em campo. Era por medo de não corresponder às expectativas das companheiras de time, especialmente da capitã do grupo, a jornalista Tatiana Vasconcellos, da CBN, que usava um bracelete feito com lenço de cetim estampado. Dias antes, eu havia ouvido falar que Tatiana era uma craque da bola. Fiquei aliviada quando soube que estaria no time dela - e também no de Clara Rellstab, colega de UOL, com quem uma inimizade por razões futebolísticas certamente criaria problemas na rotina de trabalho. O gol da sororidade Minutos antes do início da partida, tentamos decidir em que posições atuaríamos. Alguém pediu ajuda ao árbitro, o jornalista Márvio dos Anjos (que usava camisa colorida, certamente para não ser confundido com jogador do meu time). "O lugar da mulher jogar é onde ela quiser", lacrou. "Eu quero ser zagueira", anunciei, ainda com a imagem de Rivaldo na cabeça e no coração. Clara me imitou. "Mas temos que ficar cada uma de um lado", ela asseverou. A escritora Jéssica Spilla completou a defesa da equipe, não sem antes implorar por um par de luvas. Meus esforços e de Clara não foram suficientes para evitar um primeiro gol de nossas adversárias - do time azul - com poucos minutos de partida, e aqui já deixo meus pedidos de desculpas à goleira Jéssica. Como aquilo pôde acontecer é até difícil de explicar. Quando demos por nós, fomos atacadas por um enxame de jogadoras azuis e, do nada, a bola balançou a rede. A coisa foi tão transcendental que a arbitragem não conseguiu identificar a autoria do gol. Houve boatos de que nossa algoz havia sido a escritora Júlia Codo, que negou a acusação, ou a glória - e, assim, diante do mistério, atribuiu-se o ponto à coletividade. "O gol da sororidade", como definiu a jornalista Anna Virginia Balloussier, da Folha de S.Paulo, atacante do time azul. O segundo gol O 1 a zero, reconheço, abateu o nosso ânimo. Com 20 minutos de partida que mais pareciam 80, o árbitro amigo do empoderamento feminino deu por encerrado o primeiro tempo. No intervalo, a capitã Tatiana tentou motivar o time, e até parecia que ia dar certo. Retornamos para a partida entusiasmadas, e decididas - Clara e eu - a fazer valer nossa vocação de zagueiras implacáveis. No que me diz respeito, fiz bonito, modéstia às favas. Em um lance, matei a bola no peito e chutei para longe do perigo (há registros). Tudo bem que uma hora deixei a bola passar por entre minhas pernas, e tudo bem que disso resultou o segundo gol - de autoria da Anna Virgínia -, mas antes isso do que ser flagrada sentada em campo, esbaforida, pedindo ao árbitro para pelo amor de Deus dar um fim naquele infortúnio, como vi Clara fazendo. Bem, uma hora, finalmente, ele deu o apito final, e as que ainda tinham força aplaudiram o desempenho das atletas. Pouco depois, em casa, enviei uma mensagem para um amigo dando notícias da partida. Disse a ele que, como zagueira, me inspirei em Rivaldo. "Vê-se que entende de futebol mesmo", ele disse. "Rivaldo era meia-atacante". Agora só falta alguém vir me dizer que o que joguei não foi uma partida de futebol. Veja também Deixe seu comentário O autor da mensagem, e não o UOL, é o responsável pelo comentário. Leia as Regras de Uso do UOL.