Não sei o nome dos jogadores da seleção, mas sei o dos ministros do STF

admin
7 Jun, 2026
Em 1994, eu sabia a escalação da seleção brasileira de cor. E não era só o time titular. Sabia o banco e até o goleiro reserva. Era Taffarel, Jorginho, Ricardo Rocha, Ronaldão, Branco, Mauro Silva, Dunga, Raí, Zinho. E tinha Bebeto e Romário. E ainda tinha Cafu, Aldair, Mazinho, Müller, Viola, Paulo Sérgio. A gente sabia o número da camisa, o jeito de correr, o drama das faltas. Foi bonita a festa. Na época, do STF eu só ouvia nas aulas de direito da PUC. Não se falava em nomes. Falava-se da instituição, da separação dos Poderes, do papel da Corte como guardiã da Constituição. Era assunto de prova, não de mesa de bar. Hoje, se eu souber o nome da metade dos jogadores da seleção, já é muito. Mas sei escalar os dez ministros do Supremo com nome, sobrenome e estilo de jogo e até discutir quem deve vestir a camisa que ficou vaga. Na torcida por uma mulher. Houve um tempo em que as pessoas se reuniam nos bares para ver jogos, torcer, xingar e abraçar. A conversa era visceral — e inútil, como toda boa discussão de botequim. O país continua gostando de torcer, só que parece ter trocado a diversão pela divisão. A disputa mudou de canal, agora acompanha julgamentos ao vivo e fica de olho no placar de votos. A Panini bem que podia lançar o álbum de figurinhas dos figurões. "O STF Futebol Clube 2026 Edição Especial" para usar a expressão atribuída ao ministro Flávio Dino. Aos domingos, no Masp, não se trocariam figurinhas dos craques: circulariam votos raros, decisões brilhantes, cards holográficos dos ministros e adesivos de aspirantes ao cargo que não passaram pelo VAR do Senado. O futebol já foi a coisa mais importante entre as coisas menos importantes. Hoje, o STF é uma das coisas mais importantes entre as coisas mais importantes. Isso tem um lado bom e um lado preocupante. O lado bom merece ser comemorado. O STF tem papel essencial na defesa dos direitos fundamentais — igualdade, proteção de minorias, direitos sociais. Graças à Corte Suprema, que barrou a tentativa de ruptura institucional de 2023, a democracia segue em campo. Sem aquele apito, o jogo seria outro. Talvez não estaríamos aqui, eu escrevendo e você lendo esta coluna. Só que quem salva a pátria não vira dono da bola. O preocupante não é só ministro virar personagem maior que a toga, é também a impressão de que a instituição, vez ou outra, apita a favor do próprio placar. Quem atua em causa própria deixa de ser o guardião da Lei Maior para virar parte do jogo. E, para um tribunal, parecer isento é quase tão importante quanto sê-lo. Como ministros hoje são celebridades, carregam o ônus da fama e o peso do cargo. Quem usa a toga para defender a democracia precisa ser o maior exemplo de transparência e enfrentar situações quando a atuação institucional de algum de seus membros for associada a interesses privados. No futebol, os jogadores não apitam o jogo, não marcam impedimento, não escolhem o adversário e não reabrem o campeonato quando perdem. Na República, a bola rolando também deve respeitar as linhas. A falta de freios cria um poder absoluto — um gol contra da democracia. Não precisamos saber o nome dos ministros. Basta a tranquilidade de saber que a Justiça, de olhos vendados, protege os torcedores do Brasil. Aí sim, se a seleção não atrapalhar, teremos tempo para conhecer todos os jogadores e torcer pelo hexa.