Quando e por que me separei da seleção brasileira masculina

admin
14 Jun, 2026
Resumo Houve um dia em que a seleção brasileira era a coisa mais importante do mundo para mim, ao lado do Fluminense. Minha maior dor no futebol foi a derrota de 1982, um dia que ficou marcado como o da inauguração de um tipo de dor que eu não sabia que existia. Oitenta e seis doeu, mas a dor já tinha sido inaugurada e eu sabia que sobreviveria a ela, então não teve o mesmo impacto. Aquelas seleções derrotadas me encheram de orgulho a despeito das eliminações. O futebol bonito, o jogo ofensivo e corajoso, o mundo inteiro falando de como jogávamos bem, de como se emocionavam com a gente. Vitórias ou derrotas não nos definem; o que nos define é a forma como existimos em campo. Em 1994, comemorei o mundial mas ali alguma coisa começou a se transformar. Que time era aquele? Por que não jogavam o futebol-arte que só nós sabíamos jogar? Quando Baggio colocou a bola da última cobrança em órbita eu me levantei, aplaudi e foi isso. Em noventa e oito, morando nos Estados Unidos, a seleção voltou a ser importante na minha vida. Dizer que era brasileira, usar a camisa amarela nas ruas de Santa Barbara, me dava pertencimento. Torci como na década de 80, mas o que vi na final contra a França me abalou. Por que não estavam nos dizendo a verdade sobre o que aconteceu? Por que nos afastar naqueles termos do time que amávamos? O que, afinal, tinha acontecido? Foi ali que alguma coisa morreu um pouco mais em mim. Em 2002, já distante, não me emocionei. Dessa vez morando em Los Angeles, já não buscava usar aquela camisa para pertencer. Desvinculada, pude testemunhar a simpatia da arbitragem com a seleção brasileira e desliguei a TV quando a final acabou. Peguei minhas coisas e fui ao cinema. O que exatamente aconteceu para que eu perdesse o amor pela seleção masculina? A covardia tática é um ponto importante. A transformação do jogo em puro negócio e marketing é outro. A elitização também colabora. Mas eu sigo amando o Fluminense e o Corinthians masculinos, então talvez não seja apenas isso. Ontem, enquanto o Brasil era colocado na roda pelo Marrocos, minha mãe me flagrou indiferente e ficou uma fera. Ela tem 89 anos, chegou ao Brasil na adolescência, e ama esse país como só os refugiados e expatriados são capazes de amar. Não gostou do que viu em mim e ligou para minha irmã, que mora em Boston há quase dez anos. Queria saber se ela também tinha abandonado a seleção. Eu pensei: minha irmã é uma pessoa altamente racional e crítica, saiu do Brasil e não parece sentir saudades, então deve ser mais uma a estar indiferente. Mas o que minha irmã disse a minha mãe foi: "Torço pela seleção, claro. É mais forte do que eu, não é uma escolha". Bem, eu estava sozinha nessa então. Meu desprezo pela seleção masculina não me faz melhor ou pior do que ninguém. Não foi uma escolha feita de forma racional deixar de amar. Aconteceu. Não vejo mais minha cultura em campo. Não vejo criatividade, insurgência, festa, ousadia, drible. Por outro lado, vejo covardia, medo, conservadorismo, arrogância e individualismo. É um retrato do Brasil oligárquico e não do Brasil verdadeiro. Tenho orgulho dos três primeiros títulos, acho o quarto gol do Brasil contra a Itália em 1970 o mais bonito de todos os tempos e torço para que um dia esse time e eu possamos nos reencontrar. Tenho amigas e amigos que também perderam a paixão por esse time. E conheço pessoas que seguem apaixonadas mesmo sabendo que ele não nos representa mais naquilo que temos de melhor. O feminismo certamente me afastou da seleção dos homens também. Ser feminista e gostar de futebol masculino é ter que lidar com muitas contradições e tentar acomodá-las nos deixa exaustas. Talvez o fato de ter deixado a seleção masculina ir embora me ajude a seguir apaixonada pelo futebol de clubes jogado e comandado por homens. Não me emocionar mais com a seleção masculina não me impede de me entregar de corpo e alma à Copa. O futebol é maior do que paixões exclusivas. O futebol existe em cada detalhe, em cada jogo, em cada encontro. Times que jogam coletivamente me comovem e me reaproximam do jogo. Foi bonito ver a seleção dos Estados Unidos jogar, por mais que eu sinta raiva do que esse Império cruel faz com o mundo. A seleção argentina me encanta porque, em campo, ela desfila tudo o que é culturalmente fora dele. O Uruguai me seduz pelos mesmos motivos. A França me faz vibrar porque expõe de forma definitiva e arrebatadora toda a hipocrisia colonial. Eu exerço meu amor pelo jogo me permitindo levar por outras culturas durante a Copa. Mas ontem, escutando minha irmã falar com minha mãe, senti falta desse amor que morreu. Foi a primeira vez em mais de vinte anos. Amores mortos podem ressuscitar? Não acho que possam, mas o que sei eu sobre a morte? Veja também Deixe seu comentário O autor da mensagem, e não o UOL, é o responsável pelo comentário. Leia as Regras de Uso do UOL.