Pesquisadores mapeiam 350 km de estradas pré-colombianas no Acre

admin
14 Jun, 2026
Uma equipe formada por cientistas brasileiros e finlandeses mapeou uma rede de quase mil estradas antigas, construídas por grupos indígenas do Acre séculos antes da chegada dos europeus e somando cerca de 350 km de extensão. Planejadas com cuidado, as vias parecem ter tido diferentes funções ao longo do tempo, adornando e conectando misteriosos monumentos da região ou ligando povoações aos principais rios. O mapeamento das estradas pré-colombianas está descrito em artigo publicado em abril deste ano no periódico especializado Antiquity. "Quanto mais a tecnologia e as observações avançam, mais vamos percebendo a presença de estradas e caminhos e a conexão entre eles e os monumentos", disse à Folha Alceu Ranzi, coautor do estudo que trabalha no Laboratório de Pesquisas Paleontológicas da Universidade Federal do Acre. Também assinam o trabalho Antonia Damasceno Barbosa, do Iphan (Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), e dois colegas da Finlândia, Risto Kalliola, da Universidade de Turku, e Martti Pärssinen, da Universidade de Helsinque. A equipe empregou imagens de satélite de diferentes plataformas, bem como validações em campo, concentrando suas observações numa faixa de 135 mil quilômetros quadrados do território acreano que tem revelado, nas últimas décadas, centenas de exemplos de grandes desenhos no solo –quadrados, círculos, losangos– designados como geóglifos. A forma "clássica" dos geóglifos é caracterizada pela abertura de valetas que podem ter centenas de metros de extensão, delimitando grandes espaços cuja vegetação, no passado, teria sido retirada para formar o que os arqueólogos interpretam como terreiros cerimoniais, que talvez reunissem a antiga população indígena para festividades. Um dado que reforça essa interpretação é a raridade de artefatos de cerâmica para uso doméstico nessas estruturas, indicando que elas não eram ocupadas por residências. Além das grandes valetas, explica Ranzi, há diversos casos de desenhos geométricos delimitados por muretas de terra batida. Para o pesquisador, a hipótese mais provável é que as áreas correspondessem a antigos bambuzais, vegetação que pode ser encontrada em grandes concentrações na região. Como os bambuzais passam por ciclos de crescimento e morte ao longo de décadas, os grupos indígenas aproveitariam esse processo para realizar a queima da vegetação e, assim, abrir espaço para delimitar os grandes terreiros. As datações disponíveis hoje indicam que a prática teria começado alguns séculos antes da Era Cristã e se estendido até por volta do ano 1000 d.C. Os pesquisadores designaram essa tradição como civilização Aquiry, nome do idioma indígena apurinã que parece ter sido a denominação original do rio Acre, o qual, por sua vez, acabou batizando o estado amazônico (ao que tudo indica, "Acre" é uma corruptela de "Aquiry"). No mapeamento, os pesquisadores identificaram um predomínio de estradas largas, com mais de 15 metros de um "acostamento" a outro (num total de 634 casos), em relação aos caminhos mais estreitos (321 exemplos). A grande maioria, em ambos os casos, segue trajetos retos, e frequentemente alinhados com os pontos cardeais, o que sugere que os conhecimentos astronômicos dos antigos acreanos eram usados para orientar as estradas. Também há um predomínio de vias mais curtas (500 metros de extensão ou menos), embora vários exemplos meçam alguns quilômetros, chegando a até 5,5 km de extensão. Em um dos casos, parece haver uma sequência de estradas próximas umas das outras que seria capaz de conectar povoamentos a uma distância de 30 km um do outro. Essa sequência, ao que tudo indica, está ligada a uma fase da ocupação indígena da área posterior à civilização Aquiry, a partir do século 13 d.C., quando se tornou a construção de "mounds", pequenos morros artificiais que funcionavam como o núcleo principal das aldeias e ponto de irradiação dos caminhos. Nos locais onde foi possível observar para onde as estradas se dirigiam, os pesquisadores concluíram que cerca de 40% delas levando à beira dos rios. Nesses casos, destaca-se a presença de 12 estradas diferentes numa área a nordeste de Rio Branco, no município de Boca do Acre (local onde o rio Acre deságua no rio Purus e, portanto, provavelmente de importância estratégica para a conexão dos grupos nativos com outras regiões da Amazônia). Outros 10% das estradas terminam nos geóglifos e em outras grandes estruturas de terra escavada e batida. Nesses casos, um detalhe interessante das vias é que elas costumam se abrir em leque quando chegam aos prováveis espaços cerimoniais, o que pode ser uma forma de enfatizar a grandiosidade dos terreiros para as populações que os visitavam durante festividades. O mais intrigante, porém, é que quase metade das estradas identificadas no estudo não tem um ponto de chegada óbvio. É possível que originalmente elas levassem a áreas com plantações ou a pontos da mata com recursos estratégicos para as aldeias. "Esse povo viveu aqui, por alguma razão desapareceu na bruma do tempo, e a floresta cobriu tudo", resume Ranzi, referindo-se aos construtores dos geóglifos. Embora a maior parte das estruturas encontradas hoje só tenha se tornado visível por conta do intenso desmatamento em parte do território acreano, o pesquisador aposta que novas informações sobre a rede de monumentos e estradas ficarão disponíveis graças ao uso do Lidar. Essa tecnologia usa pulsos de laser que conseguem atravessar o dossel da floresta e revelar modificações no solo que hoje estão cobertas pela vegetação. Para Ranzi, a tendência é o Lidar revela conexões ainda mais intensas entre os geóglifos e a rede de caminhos antigos.