Chatbots de IA para notícias estão em alta, mas não em todo lugar
27 Jun, 2026
Por Amy Ross Arguedas O Relatório de Notícias Digitais de 2026 apresentou um marco notável: pela 1a vez, as redes sociais e de vídeo ultrapassaram editoras de notícias como fonte de informações de maneira global. À medida que o público continua migrando para intermediários digitais em busca de notícias, os chatbots com IA emergem como a próxima plataforma a ser observada. Os resultados da pesquisa do NiemanLab de 2026 mostram que uma em cada 10 pessoas usa chatbots com IA, como ChatGPT e Google Gemini, para se informar semanalmente. Isso representa um aumento de 3 pontos percentuais em relação a 2025 (a pergunta se refere só a chatbots independentes e não à IA integrada a outras plataformas, como resumos de IA em mecanismos de busca). [shortcode-newsletter] Mas esse aumento não é universal. Na comparação entre os 48 mercados analisados, o crescimento tende a se concentrar em partes da Ásia, África e América Latina, bem como no sul e leste da Europa. Por exemplo, o consumo semanal dobrou de 7% para 14% na Coreia do Sul, foi de 6% para 11% no Peru e de 4% para 8% na Espanha. Enquanto isso, nos EUA, o consumo permaneceu estável em 6%. O uso também se manteve em níveis semelhantes aos de 2025 em países do norte e oeste da Europa, como o Reino Unido (4%), a Alemanha (5%) e a Dinamarca (5%), onde o a utilização já estava abaixo da média global. Quando se trata de notícias, a geografia do uso de chatbots apresenta semelhanças notáveis com de plataformas em geral: países onde as pessoas já dependem mais de mecanismos de busca, agregadores de notícias e redes sociais também tendem a apresentar atividades mais altas de chatbots com IA para notícias. Isso sugere que a adoção de chatbots se baseia no uso de plataformas para notícias. A confiança pode ser outro motivo para o nível de aplicação variar tanto de um lugar para outro. Mercados com maior confiança em chatbots de IA para notícias também tendem usá-los mais. Além disso, a relação entre confiança e utilização é notavelmente mais forte para IA do que a observada em mídias sociais –talvez porque usar um chatbot exija uma escolha mais ativa. Diferentemente das mídias sociais e redes de vídeo, onde as pessoas frequentemente se deparam com notícias inadvertidamente enquanto fazem outras coisas, nos chatbots, os usuários precisam fornecer um estímulo ou fazer uma pergunta intencionalmente, o que torna a confiança um fator mais importante. A nível individual, o padrão é parecido. Enquanto a confiança em notícias provenientes de chatbots de IA tende a ser baixa entre a população em geral (só 20% dos entrevistados afirmam confiar nas notícias geradas por chatbots de IA na maioria das vezes, em comparação com 37% que confiam em notícias em geral), ao analisar especificamente as pessoas que realmente utilizam chatbots de IA para se informar, esse número mais que dobra, chegando a 44%. Essa discrepância ilustra o quanto a baixa confiança é impulsionada por pessoas que não utilizam a tecnologia para se informar. No entanto, também demonstra o quanto os usuários parecem considerar seu desempenho razoavelmente bom. Um dos principais fatores de divisão no uso de chatbots para notícias é a idade, o que reflete a adoção mais rápida da IA entre os jovens em geral. Pessoas de 18 a 24 anos que usam chatbots de IA para notícias semanalmente chega a 17%, em comparação com os 5% das pessoas com 55 anos ou mais. O crescimento no último ano veio principalmente de adultos de 25 a 54 anos. Isso indica que o uso de IA para notícias está se expandindo para além dos primeiros usuários. O uso também é maior entre aqueles que já consomem notícias com frequência: 18% entre os consumidores de notícias mais assíduos. Já 7% está entre aqueles que se informam só uma vez por dia. No entanto, as taxas de adesão contam só parte da história. Para entender como os chatbots de IA se encaixam nos hábitos de consumo de notícias das pessoas, também perguntamos aos usuários o que fazem com eles. Em 45 mercados, o uso mais comum foi para fazer perguntas de acompanhamento sobre uma notícia, citado por 42% dos usuários de chatbots de notícias. Mas as pessoas também usam essas ferramentas para uma série de outras tarefas relacionadas a notícias. Cerca de 1/3 disse que simplesmente pergunta aos chatbots sobre as últimas notícias (35%). Porcentagens parecidas os usam para resumir uma notícia (34%) ou para ajudar a avaliar se uma fonte é confiável (33%). Já 30% usam chatbots para tornar as notícias mais fáceis de entender. Em conjunto, os resultados sugerem que as pessoas não estão usando chatbots só para receber notícias, mas também para navegar, interpretar, avaliar e simplificar seu conteúdo. Os usos preferenciais de chatbots para notícias também variam de país para país. Por exemplo, em Taiwan e na Coreia do Sul, onde o consumo de notícias já é fortemente mediado por plataformas e agregadores, objetivo que os entrevistados mais citaram foi para obter as últimas notícias. No Canadá e no Reino Unido, o resumo ocupa o 1o lugar, enquanto na Áustria, Alemanha e Japão, os usuários são mais propensos recorrer a chatbots para ajudar a compreender notícias complexas. Em outros lugares, considerações sobre confiança parecem estar moldando os usos. Em Hong Kong e na Turquia, onde a percepção de liberdade de imprensa é relativamente baixa –bem como em mercados com menor nível de confiança, como Hungria e Romênia– o uso de IA para avaliar fontes de notícias está entre as finalidades mais citadas. Essas diferenças destacam que, assim como o próprio consumo de notícias, o papel desempenhado pelos chatbots de IA depende muito dos ambientes de informação em que são utilizados. Os usos emergentes de chatbots com IA apontam para desafios e oportunidades para as editoras. Algumas das aplicações populares destacam necessidades do público que o jornalismo está bem posicionado para atender. Mas parte do apelo dos chatbots está na sua capacidade de fornecer respostas personalizadas e de baixo esforço em larga escala, uma capacidade que as editoras individuais podem ter dificuldade em igualar. À medida que a IA se torna mais integrada aos hábitos das pessoas, bem como às plataformas de busca e outras, o foco talvez deva deixar de ser a simples reprodução de funcionalidades dos chatbots e passar a valorizar aquilo que torna o jornalismo único e relevante em um ambiente de informação cada vez mais orientado por plataformas. Por enquanto, os chatbots de IA continuam sendo uma fonte secundária de notícias para a maioria, sendo que 1% dos usuários os tem como sua principal fonte de informação. Mas o crescimento tem sido rápido, principalmente entre os mais jovens. Isso sugere que sua influência no consumo de notícias provavelmente continuará a se expandir, mesmo que esse crescimento se manifeste de maneiras diferentes em cada mercado. Amy Ross Arguedas é pesquisadora de mídia e pesquisadora sênior do Instituto Reuters para o Estudo do Jornalismo. Texto traduzido por Rúbia Bragança. Leia o original em inglês. O Poder360 tem uma parceria com duas divisões da Fundação Nieman, de Harvard: o Nieman Journalism Lab e o Nieman Reports. O acordo consiste em traduzir para português os textos do Nieman Journalism Lab e do Nieman Reports e publicar esse material no Poder360. Para ter acesso a todas as traduções já publicadas, clique aqui.