Técnico do Corinthians Sub-17 detalha como aplica o jogo funcional junto ao seu elenco

admin
28 Jun, 2026
Técnico do Corinthians Sub-17 detalha como aplica o jogo funcional junto ao seu elenco Guilherme Nascimento, técnico do Sub-17 do Corinthians, vem conquistando grandes resultados na atual temporada. O treinador explicou que aplica o jogo funcional em seus trabalhos e detalhou os princípios que norteiam sua metodologia desde o treino individual até o coletivo. Nascimento ressaltou que suas dinâmicas de jogo, com movimentos que à primeira vista parecem precisar ser ensinados de forma explícita, na verdade emergem naturalmente quando o trabalho é bem conduzido. Para ele, essas ações são consequência de algo maior: a lógica da aproximação e da geração de movimento no núcleo da bola. "Foi uma coisa que eu disse: tá, isso a gente treina de forma intencional, coloca de forma explícita, ou isso vai emergir das próprias aproximações que a gente vai fazer? Eu fui percebendo com a minha prática que muito dessas dinâmicas acontecem por uma dinâmica macro, que é a dinâmica da aproximação e de gerar movimento no núcleo da bola. E aí, quando você tira uma foto (da jogada), vê um take da imagem, você vê os caras diagonais fazendo a tal da escadinha e tudo mais", disse o treinador em entrevista ao canal Ponto Futuro, publicada neste domingo no YouTube. O técnico identificou, porém, um dilema central na aplicação do jogo funcional: o risco de aplicá-lo de forma impositiva, o que, segundo ele, seria cair no mesmo erro dos modelos posicionais que a abordagem pretende superar. "A gente quer aproximação, mas se a gente fizer isso de forma impositiva, a gente não está fazendo a mesma coisa (que outros técnicos)? Que é se sobrepor ao jogador, à subjetividade, para fazer alguma coisa ideal? Esse é o dilema para mim, é o ponto central de fato: como aplicar, como não ser idealista e impositivo, ter um futebol modelo pronto igual aos caras", afirmou Nascimento. A resposta que o treinador encontrou foi a de deixar o coletivo se expor antes de intervir. Ele descreve um processo em que primeiro desenvolve as interações micro entre os jogadores, situações de dois para um e decisões individuais com bola, para depois abrir o trabalho coletivo com apenas três princípios macro. "Hoje está muito claro para mim: é deixar acontecer. A gente, num primeiro momento, deixa o coletivo se expor e deixa ele trazer algumas coisas que são inerentes da forma com que eles interagem. A minha ideia sempre é, em um primeiro momento do trabalho, entregar algum conceito macro para os caras, sobretudo de desenvolvimento individual e desenvolvimento das interações. Eu e você contra um adversário, dois para um, três para dois, dois para dois. Se interage perto, você cria vantagem a partir dessas interações. E é óbvio que a gente vai dando algumas pistas", declarou. Nascimento explicou que a superioridade numérica é o fio condutor dessas interações iniciais. Ao aproximar os jogadores, o time gera naturalmente situações de dois para um em diversas partes do campo, e é sobre essa lógica que as decisões individuais vão sendo afinadas. "Quando você aproxima, você vai gerando vários dois para um momentâneos. O zagueiro está com a bola, o atacante começa a pressionar, o volante vem e dá uma abaixada, você joga um dois para um. Então, no princípio do trabalho, a gente explora muito esse treino dessa forma, para as interações micro ficarem afinadas. Eu estou com a bola, o cara vem e me marca, qual é a decisão instantânea? Eu vou driblar, vou para o confronto, vou transformar esse duelo de dois para um, ou vou passar para você que está livre? A gente vai afinando essas interações", disse. A partir do momento em que os jogadores se expõem no coletivo, o treinador observa o que emerge naturalmente e passa a dar critério fino sobre o que já existe, sem prescrever comportamentos. Para o trabalho coletivo, ele se limita a três diretrizes. "A partir do momento que os caras se expõem, vão se auto-organizar e vão perceber neles os atratores mais relevantes, coisas que eles gostam de fazer. E aí a gente, enquanto treinador, percebe o que faz sentido e vai dar critério. Na parte coletiva, eu passo três macro princípios para os caras: vamos estar próximos, vamos nos mover muito, sair das posições, e vamos buscar progressão. Todo momento que a gente tiver a oportunidade de andar para frente, nós vamos andar para frente. Só esses três. Disso vai gerar uma enormidade de micro-conceitos", afirmou. Nascimento é taxativo ao falar sobre padrão: ele não é um ponto de partida, mas uma chegada natural de um sistema bem gerenciado. E, justamente por isso, quando o adversário tenta constrangê-lo, a equipe consegue se readaptar. "Esquece padrão. A gente não sai da sala da comissão técnica com um padrão a alcançar. Agora, naturalmente, por uma normalidade de funcionamento de sistemas, a equipe chega a um padrão. Mas qual é o benefício disso? Porque se o adversário constranger esse padrão, os caras alteram. E por que alteram? Porque não veio rígido. Tem vários vídeos da seleção argentina contra a Áustria (jogo recente da Copa do Mundo) que é muito isso - ela (Áustria) veio para pressionar, e os caras foram se reajustando o tempo todo, quebrando pressão, porque não tinha padrão", declarou. O treinador usou a metáfora de um rio para descrever seu papel dentro desse processo: não é ele quem define o caminho, se resumindo a orientar e guiar os jogadores, que definem o caminho a seguir a partir de suas próprias interações e preferências. "O rio vai chegar no mar. Agora, se ele vai passar debaixo de um tronco que está caído ou por cima, vai dar a volta na pedra, eu não sei. A gente vai dar só a orientação, para não virar, para não sair por dentro. Agora, se os meninos vão passar debaixo do tronco, por cima do tronco, vão dar a volta na pedra, a gente vai aqui cercando, porque daqui a pouco tem algumas coisas que não fazem sentido. Não é uma pelada. É bom quando eles estão com a personalidade de estar jogando na pelada, mas não é. E tem responsabilidade, então é óbvio que a gente vem controlando", ponderou. Por fim, o técnico explicou como define a estrutura tática de suas equipes. Para ele, o sistema não parte de uma preferência abstrata do treinador, mas da característica dos jogadores disponíveis, e ele exemplificou com times que comandou anteriormente e com o próprio Sub-17 do Corinthians. "O meu ponto é a característica do jogador. Por exemplo, o meu time no Athletico-PR, eu partia de um 4-2-4, ele era um time de mais força, galopava para frente com muita agressividade. No Corinthians agora, a gente já parte de um 4-2-3-1. A estrutura, para mim, parte da característica do jogador", finalizou.