Linha 6-laranja começa a operar em SP em meio a tapumes, goteiras e escadas paradas
3 Jul, 2026
O passageiro que decidiu usar os serviços da linha 6-laranja do metrô de São Paulo em seu primeiro dia de funcionamento encontrou um cenário incomum para uma operação de transporte convencional na cidade. Da estação Água Branca até Perdizes, na zona oeste, o trajeto dividia espaço com tapumes, materiais de construção, vigas e tubulações aparentes, fios espalhados pelo chão, escadas rolantes sem peças ou fora de operação, elevadores desligados, portas de plataforma que não fechavam completamente, goteiras e áreas ainda sem acabamento. Em nota, o Governo de São Paulo afirmou que a linha "opera normalmente, conforme o cronograma previsto" e que a abertura das estações ocorreu após a conclusão das etapas necessárias para o início da operação e o atendimento às exigências dos órgãos competentes, incluindo o Corpo de Bombeiros. A reportagem da Folha percorreu as seis estações abertas ao público em operação assistida e encontrou funcionários limpando a sujeira deixada pelas obras enquanto cerca de 30 pessoas aguardavam a abertura dos portões na estação Água Branca. Escadas utilizadas durante a construção permaneciam no local e parte da estrutura ainda estava aparente quando os primeiros passageiros começaram a entrar para testar a nova linha, muitos deles a caminho do trabalho, de consultas médicas e de entrevistas de emprego. O primeiro desafio começava antes mesmo do embarque. Para fazer a integração com a linha 7-rubi, os passageiros precisavam deixar a estação ferroviária, caminhar cerca de cem metros pela avenida Santa Marina e entrar na estação da linha 6. Embora a ligação já estivesse prevista, não ficou pronta a tempo do início da operação. Os passageiros precisam passar pela rua cerca de um minuto de caminhada para chegarem na estação Água Branca. Logo na entrada, também faltavam placas indicando os sentidos Brasilândia e São Joaquim. Funcionários orientavam constantemente os usuários e, em alguns momentos, um deles utilizava um megafone para explicar até onde os trens estavam circulando durante a operação assistida. As dificuldades continuavam no acesso às plataformas. Parte das escadas rolantes permanecia desligada e outras ainda não estavam completamente montadas, com peças faltando. Na estação mais profunda do metrô de São Paulo, com 47,8 metros, algumas escadas funcionavam apenas para descida, obrigando os passageiros a subir pelas escadas fixas. Foi nesse percurso que a aposentada Maria de Lourdes Alvarenga, 73, tropeçou enquanto subia um dos lances de escada. Ela conseguiu recuperar o equilíbrio e seguir o caminho. Apesar do susto, disse que a espera compensou. "Vai valorizar muito a região. Esperei cerca de 15 anos por esse metrô. Chegou, que é o importante", afirmou. Ela contou que pretende se mudar para um condomínio próximo à estação Santa Marina e acredita que a nova linha facilitará sua rotina. A avaliação foi diferente da cozinheira Valéria Cristina Luciano de Oliveira, 63, que utiliza muletas e seguia para uma sessão de fisioterapia nas proximidades da estação Sesc Pompeia. Ela calcula que o trajeto, que antes levava cerca de uma hora, passará a ser feito em aproximadamente 15 minutos, mas acredita que a linha foi entregue antes de estar pronta. "Já que eles querem inaugurar, tinham que colocar no mínimo escada rolante, acesso para deficiente e elevador funcionando. Não tem nada disso em nenhuma estação", afirmou. Para ela, a entrega ocorreu em razão do período eleitoral. "Eu nem teria inaugurado." Obra em andamento A impressão de obra em andamento se repetia ao longo de praticamente todo o trajeto. Na estação Santa Marina, parte do teto permanecia aberta, com vigas aparentes e estruturas protegidas por plástico. As portas de proteção das plataformas não fechavam completamente. Na estação João Paulo 1o, os tapumes ocupavam grande parte das áreas de circulação. Tubulações de ar permaneciam aparentes, fios de energia estavam espalhados pelo chão e funcionários alertavam os passageiros para terem cuidado ao passar pelos cabos. Um dos pisos seguia interditado porque ainda concentrava parte da obra. No local, a reportagem encontrou uma caixa-d’água instalada dentro da estação, além de estruturas metálicas aparentes e equipes trabalhando na conclusão dos serviços. O cheiro de poeira ainda era perceptível. Mesmo com o funcionamento da linha, materiais de construção continuavam espalhados por diferentes pontos das estações. Na Freguesia do Ó, elevadores permaneciam desligados com placas informando que entrariam em funcionamento "em breve". Algumas escadas rolantes ainda estavam protegidas por plástico e outras sequer haviam sido totalmente concluídas. Na estação Sesc Pompeia, a primeira escada rolante encontrada pelos passageiros após o desembarque permanecia parada, obrigando todos a subir pela escada fixa. O piso apresentava trechos molhados, materiais de obra espalhados e grandes goteiras vindas do teto, sem qualquer sinalização alertando para o risco de escorregões. O cenário era semelhante na estação Perdizes, onde tapumes isolavam parte do local logo após a plataforma. Havia infiltrações nas paredes, goteiras, piso ensopado e um amplo canteiro de obras atrás das áreas liberadas ao público, indicando que os trabalhos continuam mesmo após a abertura da linha. As limitações também atingiam a própria operação. Os passageiros não podiam permanecer aguardando nas plataformas e eram orientados a formar filas no piso superior até a chegada do trem. O intervalo entre as composições chegou a cerca de 20 minutos. Mesmo diante dos problemas, muitos usuários viam a inauguração como um avanço. O ajudante da construção civil Rodrigo Gregório da Silva, 42, utilizou a nova ligação para seguir até uma entrevista de emprego. Morador de Guaianases, ele acredita que o novo ramal facilitará o deslocamento de milhares de passageiros. "Quando estiver tudo pronto vai ficar melhor. Vai favorecer muita gente", afirmou. Operação assistida A concessionária Linha Uni afirmou que a operação assistida representa uma etapa prevista para acompanhar o desempenho do sistema em condições reais de uso. Equipamentos e sistemas entram em operação gradualmente conforme o fluxo de passageiros, diz a concessionária, e eventuais ajustes identificados nesse período estão sendo realizados pelas equipes responsáveis. Até o fim do ano, a linha funcionará de segunda a sexta-feira, das 10h às 15h, sem cobrança de tarifa. A gestão Tarcísio de Freitas (Republicanos) por meio de nota explicou que nesta fase inicial a operação será gradual, com foco na segurança dos passageiros, na validação dos sistemas e na ampliação progressiva do atendimento. O governo afirmou ainda que serviços complementares eventualmente em execução são compatíveis com essa etapa e não impactam a segurança dos passageiros nem o funcionamento da operação.