Rafael Baptista de Melo: Quando a criança é capturada pela tela do celular
7 Jul, 2026
Sabe aquela cena clássica? Você entrega o celular para o seu filho e pensa: “vai ser só por alguns minutos”. Às vezes, você até coloca uma regra, tipo uma hora de tela por dia. Só que a criança pega o aparelho e, em um piscar de olhos, dezenas de vídeos já passaram. Um desenho curtinho vira uma dancinha, que vira um desafio, um vídeo barulhento, um corte acelerado. Aí, na hora de desligar, a sala de casa vira campo de batalha. A primeira reação é pensar em birra ou falta de limites. Mas, no meu dia a dia no consultório, olho por outro ângulo. O que mais preocupa é o que esse formato de entretenimento está ensinando. Afinal, o comportamento é moldado pelo ambiente. Esses vídeos rápidos e cheios de cortes frenéticos funcionam como máquina de prêmios instantâneos. A cada dois ou três segundos, uma novidade. Muda o cenário, o som, explode uma cor. O cérebro recebe uma enxurrada de recompensas sem o menor esforço. Só que o mundo fora das telas não funciona nesse ritmo. A vida exige tempo. Uma conversa não muda de assunto a cada instante. Montar uma torre de blocos exige persistência, porque ela vai cair várias vezes antes de ficar pronta. Na escola e na vida, é preciso escutar, esperar a vez e lidar com o erro. Habilidades que dependem de treino. Quando a gente acostuma a criança a um ambiente digital onde tudo acontece num estalo de dedos, a realidade parece insuportável. A paciência é como um músculo que enfraquece se não for usado. No consultório, costumo ouvir: "Mas ele fica tão concentrado assistindo!". Existe diferença entre a atenção capturada e construída. O vídeo prende o olhar pelo excesso. Isso não ensina a focar. A criança é levada de um estímulo ao outro, sem tempo para digerir, imaginar ou escolher. E chegamos ao tédio, aquilo que passou a ser evitado a todo custo nos tempos modernos. Mas é no espaço vazio que a mente infantil trabalha. É na ociosidade que surge a chance de inventar um jogo, de organizar o pensamento ou de procurar alguém para conversar. Quando preenchemos cada segundo da ociosidade com tela rápida, retiramos da criança a oportunidade de desenvolver ferramentas internas para lidar com o mundo. Não se trata de culpar famílias. Criar filhos cansa e a rotina, às vezes, sufoca. Os pais que entregam a tela não estão errados; estão tentando dar conta de tudo. Mas, se queremos ajudar, precisamos mexer no ambiente. Se houver tempo de tela, que sejam conteúdos lentos, com histórias. Aqueles desenhos antigos, onde o ritmo respeita o tempo humano. Na prática clínica, crianças que consomem conteúdos hiperestimulantes tendem a ficar irritadas, intolerantes ao "não" e impacientes com tarefas simples. Não é um defeito delas, é o resultado de um treino diário de pressa. Educar não é só mandar desligar o celular. É criar espaço para que o mundo real seja interessante de novo. É convidar para cozinhar junto, espalhar papéis no chão, aceitar a calmaria e descobrir que as experiências mais bonitas do crescimento não cabem em 15 segundos. Rafael Baptista de Melo é psicólogo e terapeuta comportamental