A evolução é imprevisível em detalhe

admin
8 Jul, 2026
Tanto a palavra inglesa "prediction" (predição) quanto o termo latino que lhe deu origem significam "dizer antes". A palavra portuguesa "previsão" é ainda mais vívida: significa "ver antes". Quando a rainha Elizabeth 2a visitou a Escola de Economia de Londres, após a crise de 2008, repreendeu os economistas: "Por que vocês não ‘previram’?". Ela imaginava a crise como uma colisão de carros. Se você conhece a posição e a velocidade dos carros, pode prever a colisão. Carros autônomos fazem isso. Para conduzir o carro, você precisa de equações como y = 10 + 0,5x. Se você sabe que x é, digamos, 4, pode calcular y como 12. É uma entrada ("input") que prevê uma saída ("output"). Os computadores funcionam assim —são as "máquinas de Turing". Até a inteligência artificial não passa de uma máquina de entrada e saída. Mas há problemas. Se a equação estiver errada, a previsão também estará. A colisão acontece. Não é questão banal. Cientistas físicos e sociais buscam uma equação que esteja pelo menos aproximadamente correta. Mas alguns eventos físicos são extremamente sensíveis ao valor exato de x. Por isso a previsão do tempo jamais irá além de, digamos, duas semanas. Em eventos humanos, essa sensibilidade é maior. Pense como é difícil prever sua vida. A escolha de seu cônjuge dependeu de acasos minúsculos, que poderiam ter tido outro rumo. Além disso, as previsões que a rainha esperava dos economistas não podem ser feitas. Se fosse possível, todos economistas poderiam ficar ricos como a rainha. Quer dizer que a ciência econômica deve acabar? Não. Quer dizer que muitas tentativas de formular políticas públicas são ruins. Desde a década de 1920, os economistas são cada vez mais arrogantes sobre a condução do "carro" da economia. O comportamento econômico sempre se refere ao amanhã, mas conhecer as equações para essa condução é, muitas vezes, impossível. Explique então à rainha que os economistas não são previsores no sentido detalhado de entrada-saída que ela imaginava. Qual é a função dos economistas, então? A principal —ética e científica— é a de historiadores. Nenhum biólogo evolucionista prevê a evolução, mas pode oferecer "pós-visões": a história dela, em detalhes. É verdade que, se um grande meteoro atingir a Terra, os grandes dinossauros previsivelmente morrerão de fome. Da mesma forma, se um governo idiota duplicar a oferta de moeda, os preços inevitavelmente dobrarão. Esse tipo de previsão é possível, tanto para a evolução quanto para as economias. Mas é impossível prever que uma espécie de dinossauro —uma pequena, voadora, com bicos especializados em comer sementes e capaz de sobreviver por longos períodos— sobreviveria. São as aves. Da mesma forma, é impossível prever qual inovação terá sucesso. A "política industrial" é, portanto, uma loucura arrogante. No entanto, ao estudar a história econômica, podemos conhecer as equações corretas, em detalhes. Os fatos já ocorreram. Podemos identificar em modo "pós-visão" as aves da economia. Podemos explicar, em retrospecto, por que a inovação do concreto armado, digamos, teve êxito. Qual é a utilidade da história? Sabedoria. Especialmente sobre a imprevisibilidade.