Zelensky demite ministro da Defesa e causa protestos na Ucrânia

admin
16 Jul, 2026
O ministro da Defesa da Ucrânia, Mykhailo Fedorov, um dos responsáveis pelo programa de guerra de drones do país, foi destituído do cargo na quarta-feira, 15, em meio à mais recente reformulação do governo promovida pelo presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky. A saída levou centenas de manifestantes a protestarem no centro de Kiev e em outras cidades do país, como Dnipro e Odessa, na manhã desta quinta-feira, 16. Os manifestantes, em sua maioria jovens, gritavam o nome de Fedorov e faziam comentários críticos ao comandante das Forças Armadas da Ucrânia, o general Oleksandr Syrskyi. Bohdan Huryak, morador de Kiev presente no protesto, disse estar "profundamente indignado" com a saída de Fedorov. "Não acompanho de perto os debates políticos internos, mas essa é uma pessoa que apresenta resultados no campo de batalha. Nós vemos os resultados, sentimos o espírito de luta e a confiança na vitória crescerem", disse Huryak. "E então, seis meses depois, ele é removido do cargo? Francamente." Zelensky não comentou publicamente a saída de Fedorov, que era o ministro mais jovem do gabinete ucraniano (35 anos) e foi o principal defensor do uso de robôs na guerra contra a Rússia. Conflitos com generais e indústria de defesa A imprensa ucraniana afirmou que Fedorov tinha um relacionamento conturbado com Syrskyi. Segundo o jornal Ukrainska Pravda, Zelensky disse a aliados políticos que não conseguia mais administrar as disputas e, por esse motivo, teve de demitir Fedorov. Em entrevista coletiva na manhã desta quinta-feira, o ex-ministro acusou Syrskyi de tentar dividir o país. "Em vez de descobrir como derrotar a Rússia de forma assimétrica - que é a tarefa do comandante-chefe -, ele descobriu como dividir o país em que todos nós vivemos hoje", afirmou Fedorov. O ex-ministro entrou em conflito com generais experientes, que consideravam alguns aspectos de sua visão de uma guerra baseada em robôs fantasiosos ou ingênuos e defendiam a necessidade de manter o uso de tropas de infantaria em combate, apesar dos riscos e das dificuldades. Desde sua nomeação, em janeiro, ele tinha críticos dentro das Forças Armadas que destacavam sua falta de experiência militar e o viam como alguém mais habilidoso em apresentações do que na condução de assuntos militares. Mesmo antes de assumir o Ministério da Defesa, Fedorov já defendia inovações militares. Ele criou uma dinâmica de jogo para equipes de drones, concedendo pontos pela destruição de tanques, obuseiros ou tropas de infantaria inimigas - um programa que se tornou popular entre os militares. O diretor do Centro Penta de Estudos Políticos, Volodymyr Fesenko, afirmou que o ex-ministro também criou inimigos poderosos entre fabricantes tradicionais de armamentos ao lançar programas que ameaçavam seus negócios, como uma iniciativa que permitia aos soldados comprar suas próprias armas pela plataforma Brave1, apelidada de "Amazon das Armas". Os conflitos com fornecedores de equipamentos de defesa e com a cúpula militar se arrastaram por meses. Um dos principais assessores de Fedorov criticou a unidade de combate Skelya pelas perdas de soldados e veículos blindados em uma batalha. A unidade respondeu de forma provocativa, sugerindo que o assessor tentasse ele próprio realizar um ataque caso achasse que sabia fazer melhor. A maioria dos principais assessores de Fedorov haviam trabalhado no Ministério da Transformação Digital, e não nas Forças Armadas. Fedorov ajudou a criar uma onda de otimismo na Ucrânia, já que seu período no cargo coincidiu com a consolidação de programas de drones desenvolvidos ao longo de anos. Esses projetos passaram a viabilizar ataques recorrentes de longo alcance contra o território russo e uma estratégia de isolar e bombardear a Península da Crimeia, ocupada pela Rússia. Segundo analistas, tornar-se o rosto do popular programa de drones também representava riscos políticos em um sistema fortemente centralizado na figura de Zelensky. "Zelensky quer ser a única estrela", afirmou Fesenko. Segundo ele, Fedorov também contava com apoio da oposição política, algo que Zelensky provavelmente enxergava como uma ameaça. Antes de liderar o Ministério da Defesa, Fedorov chefiou o Ministério da Transformação Digital e, durante anos, foi o principal conselheiro do presidente em assuntos de tecnologia. Ele mantinha vínculos com executivos do Vale do Silício (EUA) interessados na transformação da guerra a partir do que ocorre nos campos de batalha da Ucrânia e se reuniu diversas vezes com o diretor executivo da Palantir, Alex Karp. No início deste ano, o ex-ministro afirmou ter convencido o empresário Elon Musk a interromper o acesso da Rússia ao serviço de internet via satélite Starlink, o que deixou os drones russos temporariamente sem conexão. Fedorov confirmou sua saída em publicação nas redes sociais, na qual listou 22 ações promovidas pela pasta na sua gestão. "Continuarei trabalhando para cumprir a missão que me levou originalmente ao Ministério da Defesa: derrotar o inimigo por meio da assimetria, da velocidade da inovação e da força da organização", escreveu. Fedorov não indicou se assumiria outro cargo no governo. Mudanças no governo e na Força Aérea A mudança ocorre em meio a uma reformulação da gestão federal, que inclui a renúncia da primeira-ministra ucraniana, Yulia Svyrydenko, e a um amplo debate na Ucrânia e em outros países sobre o futuro da guerra, que já dura mais de quatro anos. A saída de Fedorov levanta dúvidas sobre o futuro da estratégia ucraniana, baseada em inovação, para enfrentar o Exército russo, que é muito maior. Nesta quinta, o Parlamento da Ucrânia aprovou o chefe da estatal de energia Naftogaz, Serhii Koretskyi, como novo primeiro-ministro do país, por 289 votos a favor, um contra e 21 abstenções. Ele foi indicado por Zelensky, que afirmou que a experiência de Koretskyi no setor energético o tornava a pessoa mais preparada para ajudar a Ucrânia a enfrentar outro inverno em tempos de guerra, período em que os ataques russos contra a rede elétrica se intensificam. Após a saída de Fedorov, o vice-comandante da Força Aérea da Ucrânia, coronel Pavlo Yelizarov, renunciou ao cargo em protesto Para ele, a demissão do ex-ministro enfraquecerá as defesas aéreas da Ucrânia e levará a uma maior perda de vidas devido a ataques de mísseis e drones russos.