Larissa Nunes encarna mulher desiludida em monólogo de Jean Cocteau

admin
16 Jul, 2026
A protagonista da peça "A Voz Humana" é alguém que não consegue se fazer entender. Quando fala ao telefone com o ex-marido, ela é confrontada por problemas técnicos que atrapalham a conversa. Em outros momentos, as ligações terminam em brigas devido a mágoas do passado e questões não resolvidas. Esse enredo criado por Jean Cocteau já ganhou diversas releituras desde que estreou no teatro parisiense Comédie-Française, em 1930. Virou ópera pelas mãos de Francis Poulenc, inspirou filmes de Roberto Rossellini e Pedro Almodóvar, além de um curta-metragem estrelado por Sophia Loren. Agora, a obra ganha uma nova adaptação, desta vez realizada pela companhia teatral Sociedade Arminda. A produção, rebatizada de "Uma Voz Humana", está em cartaz no Teatroiquè, na zona oeste da capital paulista. "Nessa montagem, a personagem não tenta apenas convencer alguém a ficar, mas há uma tentativa de ouvir a própria voz após tanto tempo vivendo em função de outra pessoa", afirma Larissa Nunes, que estrela o monólogo. Abandonada pelo marido, a personagem trava embates com ele por uma ligação telefônica interrompida por ecos e ruídos. Em momento algum ouvimos a voz do interlocutor, o que aumenta a sensação de solidão e incomunicabilidade da protagonista. De certa forma, Cocteau antecipou há mais de 90 anos um paradoxo bem atual. Embora aproximem as pessoas, os meios de comunicação também podem criar distância e isolamento. "Tantos anos depois, a gente continua terminando relações por telefone, por mensagem, por áudio e por silêncio. O assunto continua absolutamente contemporâneo", diz Nunes. A ideia de montar o espetáculo surgiu após o fim das apresentações de "Nossa História com Chico Buarque", musical do qual participou. "Me veio a inquietação de qual seria o próximo trabalho no teatro e o que eu poderia fazer que pudesse me colocar em pesquisa novamente." Ao conversar sobre esse desejo com o dramaturgo José Fernando Peixoto de Azevedo, ele sugeriu que ela encenasse "A Voz Humana". Nunes topou a ideia e chamou Azevedo para dirigir o espetáculo. "Há um tempo, eu estava querendo elaborar um projeto que fosse mais autônomo, que pudesse me colocar mais na dianteira dos projetos", diz a atriz. Parte desse desejo por autonomia artística se materializou no modo como ela transpôs a obra de Cocteau para o palco. "Eu e o José fomos decifrando esse texto a cada leitura, a cada estudo e trazendo para a nossa realidade." Como parte desse processo de atualização, eles decidiram criar uma montagem que dialogasse com a linguagem cinematográfica. Por isso, dois operadores de câmera gravam a artista em cena. Essas imagens são transmitidas por um telão na parte superior do palco. "Como venho do audiovisual, eu amo essa camada do cinema." A atriz é conhecida por séries como "3%", "Coisa Mais Linda" e pela novela "Além da Ilusão", da TV Globo. Além do flerte com o audiovisual, o trabalho também faz acenos à musicalidade. "O repertório musical e a câmera acabam inserindo outros sentidos além do que está sendo visto no palco e do que está sendo dito no texto." Isso se faz sentir quando Nunes entoa "You Oughta Know", de Alanis Morissette, uma faixa que evoca a raiva da personagem após o término. Ou ainda quando ela canta "Un-Break My Heart", famosa na voz de Toni Braxton. A canção mostra o desejo da protagonista em ter o amado de volta. "Esse repertório foi importante porque ele não ilustra a peça, mas ajuda a revelar outras camadas dessa personagem." Para Nunes, o texto retrata uma mulher que almeja entender a própria dor. "A gente quer que as pessoas superem logo, mas existem processos afetivos que não cabem na velocidade das redes sociais."