Maior fabricante de baterias para veículos elétricos do mundo muda foco para IA, redes elétricas e navios
29 Jul, 2026
Em um enorme galpão industrial em Xiamen, no sudeste da China, estão os restos carbonizados e derretidos de um contêiner cheio de células de bateria atingido por uma descarga elétrica massiva para simular um raio. O teste de alta tensão é apenas um dos muitos realizados em novos sistemas de bateria fabricados pela chinesa CATL, projetados para alimentar data centers de inteligência artificial e dar suporte a redes elétricas. Diferentemente das baterias automotivas que a CATL fabrica há anos, esses sistemas precisam operar 24 horas por dia, 7 dias por semana, sob todos os tipos de condições —daí os raios simulados. Chen Xiaobo, que lidera o centro de pesquisa, disse ao Financial Times que, após "muitos anos" desenvolvendo células de lítio para carros, a empresa acredita que suas baterias agora podem ser integradas em "sistemas de escala muito maior". A instalação da CATL em Xiamen simboliza a ambição do grupo chinês de ir além da fabricação de baterias de lítio de baixo custo, negócio que domina mundialmente. "A motivação original para investir neste laboratório surgiu da própria evolução do armazenamento de energia —dos atuais sistemas distribuídos de baixa tensão para aplicações de armazenamento de energia de alta tensão orientadas para a rede elétrica", disse Chen. Para Robin Zeng, o gênio da química que fundou a CATL após fabricar baterias para os primeiros celulares Nokia e Motorola, investimentos como o centro de Xiamen também fazem parte de um esforço de anos para fomentar —e dominar— novas indústrias movidas a bateria. O grupo chinês controla cerca de 40% do mercado de baterias para veículos elétricos, que contribuiu com aproximadamente três quartos de seus US$ 61,4 bilhões em vendas no ano passado. Diversos investimentos destacam como a CATL está se posicionando para conquistar espaço em novos setores derivados das megatendências de IA, da substituição de petróleo, gás e carvão por energia renovável e da eletrificação dos sistemas de transporte e indústria pesada do mundo. "Nossa ambição não se limita a ser um fornecedor de baterias para [montadoras] ... nos vemos como uma empresa de alta tecnologia para o setor de energia renovável", disse Oscar Luo, chefe de investimentos internacionais da CATL, ao FT em junho. A CATL fez investimentos diretos em 152 entidades, além de investimentos indiretos, por meio de suas subsidiárias e fundos, em mais de 9.900 empresas, segundo dados do serviço chinês de informações corporativas Tianyancha. Isso se compara favoravelmente aos 109 investimentos diretos e 2.856 indiretos da rival BYD. A CATL já conquistou cerca de 30% do mercado de sistemas de armazenamento de energia por bateria, um setor que está crescendo rapidamente devido à IA. Luo destacou investimentos em grandes sistemas de bateria para alimentar edifícios, portos, minas e fábricas, bem como sistemas de pequena escala para aeronaves e drones. A empresa também implantou suas baterias em cerca de 1.000 embarcações, principalmente embarcações menores operando próximo ao litoral chinês, em portos ou rios. Como muitos desses setores estão apenas começando a se livrar dos combustíveis fósseis, executivos da CATL prometeram apoiar o desenvolvimento de infraestrutura relacionada, incluindo investir bilhões de dólares para construir vastas redes de estações de troca de baterias para carros, caminhões e navios. Chen, o chefe do centro de Xiamen, disse que, em "nível de componente", os testes para células e pacotes de bateria estão maduros. No entanto, uma vez que esses componentes de bateria são integrados em sistemas mais complexos —como contêineres de armazenamento, aeronaves elétricas e navios— e sistemas de armazenamento de energia em larga escala, "o nível de integração se torna significativamente maior e mais complexo", acrescentou. Como parte de uma abordagem setorial ampla, ele disse que as instalações de teste da CATL estão abertas também para seus clientes, como proprietários de data centers ou operadores de redes elétricas. Muitos dos investimentos recentes da CATL, assim como seu orçamento de pesquisa e desenvolvimento, foram direcionados para tecnologias e químicas de baterias, como o sódio. Em abril, a empresa anunciou que os gargalos para a comercialização de baterias de sódio foram superados e que o grupo estava avançando para a produção em massa até o final deste ano. Outros investimentos nos últimos meses incluem quase US$ 1 bilhão em uma participação de 38% na operadora chinesa de data centers VNET. A empresa também construiu uma participação de 49% na Zhongheng Electric, dona de um dos principais fornecedores domésticos de sistemas de energia de corrente contínua de alta tensão. Na última sexta-feira (24), a CATL informou que a receita cresceu 55%, para 277 bilhões de yuans (R$ 209,6 bi) no semestre encerrado em junho, com lucro líquido em alta de 42%, para 43,3 bilhões de yuans (R$ 32,8 bi), em meio à forte demanda por sistemas de armazenamento de energia. As ações da empresa listadas em Shenzhen subiram quase 40% nos últimos 12 meses, e ela também anunciou planos de recomprar até 40 bilhões de yuans (R$ 30,2 bi) em ações. Dada sua crescente importância para os sistemas energéticos mundiais, a CATL se viu na mira tanto de Washington quanto de Pequim. Em janeiro do ano passado, a empresa foi designada pelo Pentágono como tendo vínculos militares —uma alegação que a empresa nega veementemente. Do lado chinês, Pequim tem se tornado cada vez mais cautelosa com o vazamento de propriedade intelectual chinesa relacionada a baterias de ponta, temores que podem desacelerar a ambição internacional da CATL. Ainda assim, na esteira do choque do preço do petróleo este ano após a guerra EUA-Irã, muitos analistas estão elevando suas previsões de longo prazo para a demanda por baterias. Pesquisadores da Bernstein em Hong Kong preveem que a demanda global por baterias crescerá de 1,8 terawatt-hora no ano passado para 5,7 TWh até 2030 e 16,6 TWh até 2050. Esse ritmo reflete uma taxa composta anual de 9% nos próximos 25 anos. Essas previsões seguem um crescimento de dez vezes nos últimos cinco anos, à medida que a queda nos custos das baterias melhora sua viabilidade econômica. Impulsionada tanto pela demanda crescente quanto pelas tensões geopolíticas, a CATL está se esforçando para garantir suas próprias cadeias de suprimentos. A empresa gastou grandes quantias ao longo de muitos anos para garantir acesso a recursos-chave, incluindo lítio e níquel, e em abril estabeleceu uma subsidiária de mineração com capital registrado de 30 bilhões de yuans (R$ 22,7 bi).