O que a ciência já descobriu sobre a amizade entre humanos e pets?
29 Jul, 2026
Os benefícios da interação humano-animal começa dentro do próprio centro de pesquisa - Há relações que parecem tão naturais que quase nunca paramos para pensar em como elas funcionam. É o caso da amizade entre humanos e animais de estimação . Para quem vive com um cachorro ou um gato, é fácil reconhecer os efeitos de um carinho depois de um dia difícil, a alegria de reencontrar o animal ao chegar em casa ou mesmo a sensação de companhia proporcionada pela presença silenciosa de um pet. Mas o que acontece, biologicamente, nesses momentos? Por que criamos vínculos tão fortes com outras espécies? E será que os benefícios dessa relação são realmente mútuos? Foi justamente para conhecer um pouco mais sobre essas perguntas que visitei o Instituto WALTHAM, na Inglaterra, centro global de ciência da Mars dedicado à pesquisa em nutrição, comportamento e bem-estar animal. Há mais de 60 anos, o instituto desenvolve estudos para compreender melhor a vida dos animais e, entre suas linhas de pesquisa, está a relação estabelecida entre humanos e pets. A visita me fez pensar em algo que, para quem trabalha com comportamento animal, parece evidente no dia a dia: a relação entre uma pessoa e seu animal não é apenas uma questão de companhia. Existe ali uma interação complexa, que envolve comunicação, emoções, aprendizagem, comportamento e respostas fisiológicas. [veja_tambem] "Os pets ocupam um espaço cada vez mais importante dentro das famílias e a ciência ajuda a explicar por que essa relação é tão especial. Mais do que companhia, eles promovem conexões genuínas e contribuem para fortalecer vínculos, gerar bem-estar e enriquecer a convivência entre pessoas e animais. À medida que a ciência avança, entendemos cada vez melhor como essa relação beneficia tanto os tutores quanto os próprios pets", afirma Kátia de Souza, Diretora de Assuntos Corporativos da Mars Pet Nutrition no Brasil. A ciência tem se dedicado justamente a entender esses mecanismos. Começando pelos próprios funcionários. Em Waltham, as mesas de alguns setores são posicionadas para que haja visualização dos cães em seus canis, além de pausas de interação direta. Isso não faz parte do estudo, mas da qualidade de vida, mesmo dentro da empresa. Minha visita em Waltham foi incrível! - Uma amizade que pode ser percebida no corpo Pesquisas sobre a interação entre humanos e animais indicam que momentos positivos de convivência, como brincar, fazer carinho ou simplesmente trocar olhares, podem estar associados à liberação de ocitocina, hormônio relacionado à formação de vínculos sociais, confiança e sensação de bem-estar. É interessante pensar que uma relação que começou, há milhares de anos, por uma aproximação entre espécies hoje é estudada por pesquisadores que tentam compreender o que acontece no organismo de cada indivíduo durante essas interações. E os efeitos parecem não ser exclusivos dos humanos. Estudos realizados com cães mostram que momentos de interação com seus tutores estão associados a respostas fisiológicas relacionadas ao fortalecimento do vínculo. Pesquisas com gatos também vêm mostrando que os felinos são capazes de estabelecer relações sociais complexas com as pessoas com quem convivem (nem vem dizer que eles são traiçoeiros e só se apegam à casa!). Em trabalhos recentes, por exemplo, a ocitocina aparece relacionada ao aumento do contato visual entre gatos e humanos. Isso ajuda a desconstruir uma ideia bastante difundida de que gatos seriam animais pouco interessados em estabelecer vínculos. A relação felina com os humanos pode ser diferente daquela observada nos cães, mas isso não significa que seja menos importante ou significativa. O que os tutores percebem no dia a dia A percepção dos próprios tutores também aparece nas pesquisas. Um levantamento conduzido pelo Instituto WALTHAM aponta que 86% dos entrevistados acreditam que os animais de estimação têm impacto positivo sobre a saúde mental. Além disso, 69% afirmam que os pets ajudam a reduzir o estresse e a ansiedade, enquanto 63% dizem considerá-los verdadeiros amigos. Esses números ajudam a dimensionar algo que vemos diariamente nos consultórios, nas casas e nas redes sociais: cães e gatos passaram a ocupar um espaço cada vez mais importante na vida das famílias. No Brasil, essa presença é especialmente expressiva. O país tem cerca de 160,9 milhões de animais de estimação e está entre os que apresentam as maiores populações de pets do mundo. Em muitos lares, cães e gatos deixaram de ser vistos apenas como animais que vivem na casa e passaram a ser considerados membros da família. Essa mudança de percepção também traz responsabilidades. Se reconhecemos que existe uma relação de vínculo, precisamos compreender que o bem-estar deve ser uma via de mão dupla. Não basta que o animal esteja alimentado e tenha acesso a cuidados veterinários. É preciso considerar suas necessidades comportamentais, emocionais e sociais. Um cachorro pode amar seu tutor e, ainda assim, desenvolver problemas relacionados à separação. Um gato pode buscar contato com uma pessoa e, ao mesmo tempo, precisar de momentos de escolha e controle sobre as interações. Um animal pode gostar de carinho, mas não necessariamente de qualquer tipo de toque, em qualquer momento. É justamente aí que a ciência do comportamento animal tem um papel fundamental: ajudar a entender o indivíduo que está diante de nós, em vez de tentar encaixá-lo em uma ideia genérica sobre como cães e gatos deveriam se comportar. A importância de olhar para os dois lados da relação Ao conhecer mais de perto o trabalho desenvolvido no Instituto WALTHAM, uma das questões que mais me chamou a atenção foi justamente essa busca por compreender a relação entre pessoas e animais de maneira ampla. A ciência não está interessada apenas em descobrir por que nós gostamos tanto de viver com pets. Ela também busca entender como podemos proporcionar uma vida melhor para eles. Isso envolve pesquisas em diferentes áreas, como nutrição, saúde, comportamento e bem-estar. O instituto já contribuiu para mais de 600 artigos científicos publicados ao longo de sua trajetória, ajudando a ampliar o conhecimento sobre diferentes aspectos da vida dos animais. Essa produção científica é importante porque, quanto mais entendemos os animais, maiores são as chances de construirmos relações mais equilibradas com eles. E talvez essa seja uma das maiores contribuições da ciência para a nossa amizade com os pets: mostrar que o vínculo não deve ser baseado apenas no que queremos receber deles. Se um cachorro nos faz companhia, precisamos oferecer a ele oportunidades de interação, exploração e escolhas. Se um gato busca nosso colo, precisamos aprender a reconhecer quando ele quer continuar ali e quando prefere sair. Se um animal demonstra sofrimento quando fica sozinho, precisamos compreender que isso não é "manha" ou "vingança", mas um comportamento que merece ser avaliado e tratado. A amizade, afinal, também envolve escutar. Talvez a ciência esteja apenas começando a explicar algo que milhões de pessoas já sabem intuitivamente: viver com um animal pode transformar a nossa vida. Mas conhecer melhor os mecanismos por trás dessa relação também nos convida a uma reflexão importante. Se cães e gatos fazem parte das nossas famílias e podem contribuir para o nosso bem-estar, cabe a nós garantir que essa relação também seja positiva para eles. A melhor amizade entre humanos e animais não é aquela em que apenas um dos lados se beneficia. É aquela em que aprendemos a conhecer, respeitar e cuidar do outro -- mesmo quando ele não fala a nossa língua.