Objetos do espaço estão caindo com mais frequência; por que isso preocupa?

admin
5 Aug, 2026
Resumo O crescimento acelerado dos lançamentos de foguetes e satélites está ampliando também a quantidade de lixo espacial que retorna à Terra. O que aconteceu Segundo a Agência Espacial Europeia (ESA), em média um objeto reentra na atmosfera de forma descontrolada a cada semana. Especialistas alertam que a expansão da atividade espacial aumenta os riscos para pessoas, aeronaves e satélites. Embora a maior parte desses objetos seja destruída pelo calor durante a reentrada na atmosfera, nem todos se desintegram completamente. Componentes resistentes, como tanques de pressão e estruturas de titânio, podem sobreviver ao atrito e atingir o solo. Um dos casos mais conhecidos ocorreu no fim de 2024. Na ocasião, um anel metálico de cerca de 2,5 metros de diâmetro e aproximadamente 500 quilos caiu próximo à vila de Mukuku, no Quênia. Desde então, episódios semelhantes foram registrados na Polônia, nos Estados Unidos e, mais recentemente, na Austrália, onde seis esferas metálicas encontradas em uma praia seguem sob investigação. Foram emitidos alertas para quase 820 objetos entrando na atmosfera em 2025, segundo dados da Força Espacial dos Estados Unidos. Uma década antes, esse número era de cerca de 110. O crescimento acompanha a expansão da atividade espacial: mais de 300 foguetes foram lançados no último ano, quase quatro vezes mais do que há dez anos. Hoje existem cerca de 36 mil objetos maiores que 10 centímetros catalogados em órbita. Além disso, há dezenas de milhões de fragmentos menores. Juntos, eles somam aproximadamente 13,5 mil toneladas de material circulando ao redor da Terra. Objetos com massa igual ou superior a uma tonelada retornam à Terra aproximadamente uma vez por semana. Ao The New York Times, Mariusz Sonina, responsável pelas operações de conscientização situacional espacial da Agência Espacial Polonesa, afirmou que isso é um reflexo do aumento no número de lançamentos e da quantidade de equipamentos que permanecem em órbita. Fragmentos pequenos já representam risco O problema não está apenas nos objetos que retornam ao planeta. Pesquisadores da Universidade de Warwick, no Reino Unido, descobriram recentemente dezenas de fragmentos nunca antes identificados na órbita geoestacionária, região onde operam alguns dos satélites mais caros do mundo. Utilizando novos algoritmos para analisar imagens obtidas por telescópios, a equipe conseguiu detectar pedaços com apenas cinco centímetros de diâmetro. Fragmentos de lixo espacial podem se mover uns em relação aos outros a velocidades de vários quilômetros por segundo. A energia envolvida é extremamente alta e mesmo pequenos detritos podem causar grandes danos a satélites muito caros. Por isso, objetos pequenos também são importantes James Blake, pesquisador, em nota do Centre for Space Domain Awareness da Universidade de Warwick Segundo os cientistas, quase 80% dos objetos encontrados sequer apareciam nos catálogos públicos de lixo espacial. O consultor espacial Stuart Eves, coautor do estudo, comparou a situação a um campo minado. Os detritos na órbita geoestacionária representam um potencial campo minado. Ninguém em sã consciência entraria em um campo minado sem um detector de minas. Da mesma forma, ninguém deveria lançar um satélite para a órbita geoestacionária sem antes realizar um levantamento adequado dos detritos existentes Eves, em comunicado da Universidade de Warwick Reentradas mais frequentes Além do crescimento do lixo espacial, pesquisadores alertam que as reentradas já se tornaram rotina. Benjamin Fernando, pesquisador da Universidade Johns Hopkins, liderou um estudo publicado na revista científica Science que desenvolveu um método capaz de rastrear objetos em queda utilizando redes de sismógrafos originalmente instaladas para detectar terremotos. As reentradas estão acontecendo com cada vez mais frequência. No ano passado, tivemos vários satélites entrando na atmosfera todos os dias e não temos uma verificação independente de onde eles entraram, se se fragmentaram, se queimaram completamente na atmosfera ou se chegaram ao solo. Esse é um problema crescente e que tende a piorar Benjamin Fernando, em nota da Universidade Johns Hopkins Segundo o pesquisador, acompanhar esses objetos em tempo quase real poderá ajudar autoridades a localizar rapidamente destroços que eventualmente contenham materiais tóxicos ou perigosos. Durante muitos anos, acreditava-se que praticamente todo o lixo espacial era destruído durante a reentrada. Mas estudos da The Aerospace Corporation, organização sem fins lucrativos que presta assessoria técnica ao governo dos Estados Unidos na área espacial, mostram que componentes fabricados em titânio ou projetados para suportar altas pressões frequentemente sobrevivem ao retorno. "Muitas vezes esses componentes são feitos de materiais como titânio, que é extremamente resistente", disse Marlon Sorge, diretor do Center for Orbital and Reentry Debris Studies (CORDS), ao Space.com. Segundo Sorge, essas estruturas costumam desacelerar mais do que grandes blocos metálicos durante a reentrada e, por isso, frequentemente chegam ao solo praticamente intactas. Debate sobre regras mais rígidas O aumento dos lançamentos também reacendeu o debate sobre o descarte de estágios superiores de foguetes. Em 2023, a Administração Federal de Aviação dos Estados Unidos (FAA) propôs obrigar empresas espaciais a retirar esses componentes da órbita em até 25 anos. Na justificativa da proposta, a agência afirmou que eles "representam um risco significativo para as pessoas em solo devido à sua massa e à incerteza sobre onde irão cair". A medida, porém, foi retirada pelo governo Donald Trump em janeiro deste ano, após críticas da indústria espacial, conforme revelou reportagem da ProPublica. O aumento das reentradas descontroladas também levanta preocupações sobre a segurança da população. Segundo um estudo publicado na revista Nature Astronomy, liderado pelo pesquisador Ewan Wright, da University of British Columbia e do Outer Space Institute, existe entre 20% e 29% de probabilidade de que a queda de estágios superiores de foguetes provoque pelo menos uma morte na próxima década, caso não sejam adotadas medidas para reduzir as reentradas descontroladas. Apesar de nenhuma morte ter sido registrada até hoje, já houve casos de pessoas feridas. Além disso, fragmentos atingiram residências nos Estados Unidos, fora os episódios recentes no Quênia, na Polônia e na Austrália. O aumento desses incidentes também é consequência direta da intensa atividade espacial. Para Michelle Hanlon, diretora do Center for Air and Space Law, da Universidade do Mississippi, em fala ao ScienceDirect, mesmo quando 99,9% das reentradas acontecem exatamente como planejado, o crescimento no número de lançamentos faz aumentar também as chances de que um componente particularmente resistente sobreviva e apareça em um local inesperado. Para a Agência Espacial Europeia (ESA), o desafio já não é apenas lidar com o lixo espacial existente, mas impedir que ele continue crescendo. Por meio da iniciativa Zero Debris, a agência defende que governos e empresas adotem medidas para reduzir a geração de novos detritos e controlar as reentradas, evitando que o aumento da atividade espacial comprometa futuras missões, satélites e serviços essenciais, como comunicação, navegação por GPS e previsão do tempo. Veja também Deixe seu comentário O autor da mensagem, e não o UOL, é o responsável pelo comentário. Leia as Regras de Uso do UOL.