Filme de Nolan e novela russa de 1870 expõem dilemas da adaptação de clássicos
6 Aug, 2026
Em julho, a releitura cinematográfica de Christopher Nolan da "Odisseia", de Homero, suscitou discussões sobre o que significa adaptar um clássico à nossa época, transpondo-o para uma linguagem artística distinta. Entre os meus amigos, alguns deixaram a sala de cinema satisfeitos com o filme. Outros, no entanto, criticaram a estrutura do roteiro, as distorções em relação ao poema homérico, a ausência de personagens e as performances de atores consagrados como Matt Damon e Anne Hathaway, escolhidos para viver o casal Ulisses e Penélope. A interpretação da dupla também não me convenceu. Gostei muito mais das atuações de Ralph Fiennes e Juliette Binoche em "O Retorno" (2024), de Uberto Pasolini, o que se deve não apenas à qualidade dos intérpretes, mas também ao próprio recorte da adaptação, que abandona a grandiosidade da epopeia para privilegiar um estudo dos conflitos íntimos e das emoções das personagens. O resultado dessas escolhas é um retrato mais complexo das relações familiares, não apenas entre Ulisses e Penélope, mas também entre Ulisses e o seu filho, Telêmaco. A minha preferência pelo filme de Pasolini não significa, no entanto, que exista uma única maneira de adaptar Homero para as telas. As diferentes soluções encontradas pelos dois diretores são igualmente legítimas e confirmam que um mesmo texto pode ser lido e interpretado de maneiras distintas. Ora, é justamente essa abertura a novas interpretações que faz dos clássicos obras inesgotáveis, às quais retornamos sempre que sentimos necessidade de melhor compreender o mundo à nossa volta. Coincidentemente, enquanto acompanhava as discussões sobre "A Odisseia", de Nolan, eu estava lendo "O Rei Lear da Estepe" (1870), do escritor russo Ivan Turguêniev (1818-1883), novela que adapta a tragédia de "Rei Lear" (1606), de Shakespeare, para o universo dos pequenos proprietários rurais da Rússia durante o século 19. Turguêniev era um grande admirador de Shakespeare. Entre os seus conterrâneos, era considerado um dos maiores conhecedores da obra do dramaturgo inglês. Traduziu, ainda que parcialmente, peças como "Otelo" e "Rei Lear", além de ter escrito um discurso em homenagem aos 300 anos do seu nascimento. Nesse texto, incluído na edição brasileira de "O Rei Lear da Estepe" (Editora 34, tradução de Jéssica Farjado), Turguêniev sustenta que os russos podiam reivindicar Shakespeare como seu tanto quanto os ingleses, pois ele não seria apenas "um nome ilustre e notável, admirado ocasionalmente e à distância; ele tornou-se nossa propriedade, entrou em nossa carne e nosso sangue". "Vá ao teatro, percorra todas as fileiras da multidão, olhe os rostos, ouça os julgamentos, e você verá que diante de seus olhos há uma relação viva e estreita do poeta com os seus ouvintes, que as imagens criadas por ele são conhecidas e queridas por todos." Talvez tenha sido justamente essa sensação de proximidade que permitiu a Turguêniev reinventar o Lear de Shakespeare na figura de Martin Petróvitch Kharlov, veterano da Guerra Patriótica de 1812 contra os franceses. Ao contrário de Lear, que era rei, Kharlov é um corpulento senhor de terras de temperamento irascível e força física descomunal, cuja aparência remete à de um "bogatir", célebre guerreiro do folclore eslavo. Igualmente, embora Turguêniev tenha se esforçado para permanecer o mais fiel possível ao original shakespeariano, ele suprime uma das três filhas de Lear e redistribui as suas características entre as duas filhas de Kharlov, Anna e Evlâmpia. Esta reúne, em sua personalidade ambígua, traços de Cordélia e Goneril, enquanto aquela se aproxima de Regana. Há também a adição de personagens, como Natália Nikoláievna e o seu filho, Dmitri Semiônovitch, que, anos mais tarde, narra aos amigos a tragédia do velho Kharlov. O relato de Dmitri remonta às memórias da sua adolescência e é desencadeado por uma conversa sobre como os tipos de Shakespeare parecem ter sido "profunda e verdadeiramente arrancados das próprias entranhas da ‘essência’ humana". O mesmo pode ser dito das personagens de Homero. Afinal, quantos Ulisses, Telêmacos, Penélopes e até mesmo cachorros Argos não encontramos ao longo da vida? Assim, tanto na novela de Turguêniev quanto nos filmes de Nolan e Pasolini, fica claro que a fidelidade a um clássico não reside simplesmente na reprodução irrefletida do seu conteúdo, mas na capacidade do seu intérprete de reconhecer, sob novas circunstâncias, os tipos humanos e as situações que lhe asseguram permanência.