Um brasileiro chamado Francisco das Chagas Soares dos Santos

admin
27 Aug, 2026
Tiquinho aceitou reduzir o salário para defender o Botafogo Foto: Vítor Silva/Botafogo Ídolo ou não? A dúvida shakespeariana amanheceu junto ao templo nublado do Rio de Janeiro. Nas pastelarias, padarias, cafés e filas de banco não se falava em outro assunto. Acaloradas discussões se estenderam até o almoço, com os ânimos exaltados ao fim da refeição. Afinal de contas, qual é o tamanho de Tiquinho na história do Botafogo? O centroavante está de volta ao Mais Tradicional. A priori, somente até o fim desta temporada, sob a desconfiança por passagens frustrantes por Santos e Mirassol. No futebol paulista, sem o brilho de outrora, a fera anotou pouquíssimos gols. Após confabular com os seus desgastados botões, o cronista chegou, enfim, a um veredito sobre o jogador. Antes, no entanto, ele pede à confraria de leitores, por gentileza, claro, para escrever em primeira pessoa e ilustrar o argumento com a técnica do flashback . Na dor, uma resposta No domingo, dia 6 de agosto de 2023, o Botafogo, líder absoluto do Campeonato Brasileiro, enfrentaria o Cruzeiro, no Mineirão, no início do returno. Peguei um ônibus na Rodoviária Novo Rio para passar aquele fim de semana em Beautiful Horizon . Transnoitei, no sábado (5), no Bar do Zé Luiz, onde, inebriado pela campanha do Glorioso no certame, brindei a Francisco das Chagas Soares dos Santos, o homem que vestiria a camisa 9 da Seleção Brasileira na próxima convocação. Para quem visita a capital mineira e especula no sereno, este hospital de almas é ideal, pois abre somente às duas horas da manhã e só fecha após os primeiros raios solares. Além de reunir boêmios da mais alta estirpe, o botequim também é ponto de encontro dos seres exóticos. Horas antes de a bola rolar no Governador Magalhães Pinto, a convicção de que aquele seria mais um belo capítulo do tricampeonato, como havia sido, aliás, o score de 2 a 0 sobre o Grêmio, em Porto Alegre, semanas antes. Os escolhidos lotaram o setor visitante em mais uma noite de Massa Compacta. Em campo, o Botafogo não jogou nada e só levou perigo com Sevovinha, em uma escapada no segundo tempo. O Brinquedo Assassino chutou, contudo, fraco. Atrás, Perri voltou a manter a cidadela intacta. O Neuer do Terceiro Mundo realizou três defesas mastodônticas e assegurou o placar em branco, um pontinho valioso que seria celebrado se não fosse a lesão de Tiquinho. A cena do camisa 9 saindo de maca é um dos momentos mais tristes que já presenciei em um estádio de futebol. No retorno para o Rio de Janeiro, na solidão do semileito e com aquela dor no coração, não houve como pegar no sono, contrariando a facilidade que tenho para mergulhar no inconsciente nestas viagens. Só pensava em Tiquinho Soares, o artilheiro e craque do futebol brasileiro até então. Acredito que este relato consegue responder se o novo reforço é ídolo ou não do Botafogo, pois o reles escritor acredita que esta relação é baseada no tripé: 1) identificação, 2) títulos e 3) desempenho. “O dia já vem raiando...” O paraibano, em sua versão prime (2022-2023), era um fenômeno. Centroavante completo, com faro de gols, posicionamento, visão de jogo, pivô como pouquíssimos e assistências na medida. Ele é também o primeiro herói de uma garotada, a primeira grande contratação da era SAF e um dos nomes mais importantes do Botafogo neste século, colocando-se, portanto, na mesma prateleira de Dodô, Loco Abreu e Seedorf. Tiquinho era tão grande que, em 2023, o Jogada10 esteve em Sousa (PB) para contar as suas origens. Fora de campo, carregava consigo uma aura tão forte que trouxe as marchinhas de volta às arquibancadas. Após aquela contusão, Tiquinho, embora tenha feito alguns gols, nunca mais foi o mesmo e virou um dos vilões da derrocada do Glorioso nas rodadas finais do Campeonato Brasileiro, principalmente por perder um pênalti no fatídico 3-4 diante do Palmeiras, no Estádio Nilton Santos, lance que dará munição necessária a quem se colocar contra a nova contratação do Mais Tradicional. O centroavante foi açoitado em um time que terminou aquele torneio se arrastando em campo, do goleiro ao ponta-esquerda. No mesmo período, aliás, o jogador conviveu com a doença do pai. Resiliente, Tiquinho, no entanto, teve direito à redenção. Em julho de 2024, ao fulminar a rede do Palmeiras e definir o prélio por 1 a 0, o centroavante se reconciliou com o passado, expurgou os seus pecados e, enfim, livrou-se por completo daquela culpa. O gol atingiu incontáveis decibéis nas tribunas. Reza a lenda que é a maior celebração na história do Colosso do Subúrbio. Francisco das Chagas Soares dos Santos deixou o Botafogo como um excelente coadjuvante nos títulos da Copa Libertadores e do Campeonato Brasileiro. Que o imponderável, então, o guie para uma nova bela história. Para deixar claro, o texto versa sobre idolatria. E não sobre se o centroavante é bom reforço para o Mais Tradicional em 2026.