Os projetos bilionários para melhorar o transporte na Grande Curitiba
27 Aug, 2026
Projeções do Estudo Nacional de Mobilidade Urbana (ENMU), levantamento que reúne dados do Ministério das Cidades e do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), apontam que sete projetos de mobilidade podem reduzir em até 23% o tempo de deslocamento entre Curitiba e cidades de Região Metropolitana. As propostas preveem ampliar de 114 para 216 quilômetros a cobertura do transporte público de média e alta capacidade na região. A execução de todos os projetos demandaria investimentos entre R$ 11,7 bilhões e R$ 22,7 bilhões, segundo dados apresentados pelo BNDES na quarta-feira (25). As iniciativas fazem parte de um planejamento de longo prazo, com projeções de implantação e impactos até 2054. Entre as propostas estão a implantação de um VLT entre o Aeroporto Afonso Pena e o Centro Cívico e a expansão do BRT para Colombo, Fazenda Rio Grande, Piraquara, São José dos Pinhais e Araucária, além de um novo eixo de alta capacidade entre Santa Cândida e CIC. Nas projeções do estudo, divulgadas no relatório de fevereiro de 2026, a participação do transporte coletivo nos deslocamentos da Região Metropolitana pode subir de 18% para 25,3%. Em escala nacional, a expansão dos sistemas também poderia contribuir para uma redução de 4% nas mortes em sinistros de trânsito e de 3% no custo operacional por viagem do transporte público. Os sete projetos de mobilidade para Curitiba O estudo analisou 187 projetos de mobilidade, propostos entre 2024 e 2026 e distribuídos por 21 regiões metropolitanas brasileiras. Na Região Metropolitana de Curitiba, foram selecionadas sete iniciativas. Confira o que prevê cada uma delas a seguir: VLT Expresso Metropolitano Eixo Norte–Sul — Metrô ou VLT Extensão do BRT Linha Verde — Colombo — Fazenda Rio Grande BRT Piraquara — Terminal Pinhais — Terminal Piraquara BRT Roça Grande — Terminal Roça Grande — Terminal Santa Cândida — Atuba BRT São José dos Pinhais — Terminal Centenário — Terminal Afonso Pena BRT Araucária — Terminal CIC Sul — Terminal Araucária Central Qual é a solução definitiva para mobilidade Curitiba? Segundo dados do Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 21,36% dos moradores da Região Metropolitana de Curitiba trabalham fora do município onde moram. Fazenda Rio Grande, Campo Magro, Piraquara e Almirante Tamandaré estão entre as cidades com maior proporção de moradores nessa situação e também estão entre as áreas contempladas pelos projetos de mobilidade em estudo. Para a arquiteta, urbanista e especialista em Planejamento Urbano Ana Claudia Stangarlin Fróes, professora de graduação e pós-graduação da UniCuritiba, reduzir o tempo gasto no transporte pode beneficiar diferentes grupos sociais, mas o impacto tende a ser ainda maior para a população de menor renda. “Passar menos tempo no transporte significa ter mais tempo para a família e para outras atividades. Esse impacto é ainda mais importante para a população de menor renda, que normalmente mora mais distante dos principais polos de emprego e serviços e, por isso, tende a realizar os deslocamentos mais longos. Nesse sentido, melhorar a mobilidade metropolitana é também uma forma de reduzir desigualdades e ampliar o direito à cidade”, explica. No entanto, a melhoria do transporte público não depende apenas da implantação de corredores de alta capacidade. A especialista destaca que os projetos precisam estar associados a outras intervenções urbanas, especialmente nos trajetos entre as residências e as estações ou terminais. “Não adianta termos um BRT, um VLT ou outro sistema de alta capacidade muito eficiente se a pessoa enfrenta uma calçada ruim, uma travessia insegura ou uma longa distância para chegar até a estação. Em bairros mais afastados, essa chamada ‘última milha’ é fundamental. Precisamos conectar o transporte coletivo às redes de calçadas, ciclovias e ciclofaixas e criar condições seguras para chegar aos terminais e estações”, completa. Outro desafio apontado pela urbanista é a integração tarifária. A ausência de um sistema metropolitano de bilhetagem interoperável pode aumentar os custos para quem precisa utilizar diferentes redes de transporte durante o mesmo deslocamento, além de tornar as conexões mais demoradas. “Para o passageiro, pouco importa se determinado ônibus é responsabilidade de Curitiba ou do Governo do Estado. Ele quer conseguir realizar a viagem de maneira simples, integrada e com uma tarifa que faça sentido”, finaliza. BRT, VLT ou metrô: qual é o melhor? Segundo a arquiteta, o principal desafio de um planejamento com horizonte até 2054 não está apenas na escolha do modal. Para ela, é necessário transformar os projetos em políticas de Estado permanentes, capazes de atravessar mudanças de gestão e superar a falta de integração entre os municípios da Região Metropolitana. A ausência de um Plano de Desenvolvimento Urbano Integrado (PDUI) aprovado por lei, somada aos conflitos de competência entre órgãos estaduais e municipais, pode deixar os projetos sujeitos a entraves jurídicos, descontinuidade administrativa e problemas na transferência de recursos. Na prática, essas dificuldades podem afetar diretamente a população que depende do transporte público para se deslocar entre as cidades. A viabilidade de grandes projetos de mobilidade, como BRTs e VLTs, também depende de segurança financeira e de garantias capazes de atrair investimentos privados por meio de Parcerias Público-Privadas (PPPs). “Sem uma reestruturação de garantias públicas viáveis, a atração e a segurança de investimentos de longo prazo ficam comprometidas. Portanto, é necessário garantir fontes de financiamento, segurança jurídica e modelos institucionais capazes de sobreviver às mudanças de governo”, afirma. Para a especialista, quanto mais os projetos estiverem vinculados a planos metropolitanos, instrumentos legais, contratos, fontes permanentes de financiamento e mecanismos de participação e controle social, menor será o risco de uma nova gestão abandonar o planejamento anterior. “Esse é o grande desafio: construir um pacto metropolitano de longo prazo”, afirma.