Inovações agressivas: China endurece regras para carros após recall gigante
28 Aug, 2026
Resumo O mesmo ritmo acelerado de desenvolvimento que ajudou as montadoras chinesas a desafiar fabricantes tradicionais virou motivo de preocupação para o próprio governo da China. Pequim reconheceu na última quarta-feira (26) que algumas inovações foram colocadas em automóveis vendidos aos consumidores sem a realização de testes e validações suficientes de segurança, ergonomia e qualidade. Sob esta alegação, o governo chinês anunciou que vai endurecer as regras para impedir que produtos nessa situação cheguem ao mercado. A declaração foi feita por Xin Guobin, vice-ministro da Indústria e Tecnologia da Informação da China, durante entrevista coletiva do Conselho de Estado. Segundo ele, algumas inovações de design consideradas "agressivas" passaram a ser adotadas nos veículos antes de uma validação adequada, enquanto episódios envolvendo qualidade dos produtos e segurança de sistemas de direção automática atraíram a atenção pública - e isso inclui o maior recall automotivo da história do país asiático, anunciado nesta semana (confira detalhes abaixo). Por conta disso, o governo pretende reforçar a análise para a entrada de novos automóveis no mercado, ampliar as exigências de testes e validação e aumentar as inspeções destinadas a verificar se os veículos efetivamente produzidos correspondem às especificações homologadas. Recall das maçanetas Xin foi explícito ao afirmar que produtos que não tenham sido suficientemente testados e validados deverão ser impedidos de chegar ao mercado. Ele não esclareceu quais seriam as "inovações de design agressivas" em questão. No entanto, nesta semana, China iniciou um recall que afeta cerca de 4,3 milhões de veículos de nove fabricantes, incluindo Tesla, Xiaomi, Leapmotor, XPeng e Geely. A campanha envolve mecanismos de abertura de emergência das portas que podem dificultar a saída dos ocupantes após uma falha elétrica ou acidente. O país já havia proibido maçanetas externas totalmente ocultas. A preocupação coloca em xeque justamente uma das características que ajudaram a transformar a indústria chinesa nos últimos anos: a velocidade. Desenvolvimento acelerado Uma investigação da Reuters mostrou que fabricantes chineses conseguiram reduzir para até cerca de 18 meses o ciclo de desenvolvimento de um automóvel novo ou amplamente renovado. Em montadoras tradicionais, esse trabalho historicamente pode levar quatro ou cinco anos. Para ganhar tempo, empresas passaram a recorrer mais a simulações, inteligência artificial, componentes já desenvolvidos e equipes trabalhando praticamente de forma contínua. Algumas também reduziram o número de protótipos físicos e de etapas de validação. A estratégia não significa necessariamente carros inseguros. Vários fabricantes chineses conquistaram boas avaliações independentes de segurança em diferentes mercados. Mas o governo chinês agora aponta uma dúvida: até que ponto é possível encurtar o desenvolvimento sem que problemas de durabilidade ou confiabilidade apareçam somente depois que o carro está nas mãos do consumidor? A própria Chery, uma das montadoras chinesas mais relevantes para o Brasil, tem sido usada como referência em agilidade. Em 2023, a empresa reuniu engenheiros e fornecedores para fazer alterações em suspensão, direção, freios e outros componentes do Omoda 5 que seria vendido na Europa. Aproximadamente seis semanas depois, veículos com as modificações já estavam a caminho das concessionárias. Um processo semelhante poderia levar mais de um ano em uma fabricante europeia. O problema é que, nos últimos três anos, a disputa chinesa ficou ainda mais intensa. Entre janeiro e maio deste ano, 542 modelos novos, reestilizações ou atualizações chegaram ao mercado chinês. São 108 por mês ou, em média, 3,6 lançamentos por dia. O número foi divulgado por He Zhiqi, vice-presidente executivo da BYD. Ao comentar os dados, o executivo disse que a competição já deixou de ser apenas intensa para se tornar "brutal". Segundo ele, um novo automóvel pode exigir investimento superior a 1 bilhão de yuans (cerca de R$ 780 milhões, na cotação atual) e mais de dois anos de desenvolvimento, mas há produtos que permanecem no centro das atenções por menos de três meses. Governo faz blitz nas fábricas A declaração desta quarta-feira não representa apenas uma ameaça de fiscalização futura. O Ministério da Indústria e Tecnologia da Informação, o MIIT, já começou a entrar nas fábricas. Em 24 de julho, fiscais foram às instalações da GAC Aion e da XPeng. O governo local informou ter analisado, dentre outros pontos, a capacidade das empresas de garantir a segurança de veículos inteligentes e conectados, o que envolve processos de desenvolvimento e produção e a consistência entre os produtos homologados e aqueles efetivamente fabricados. A fiscalização não ficou limitada à análise de documentos. Veículos e baterias foram escolhidos aleatoriamente dentro das fábricas e enviados a instituições independentes para verificar se atendiam às normas nacionais. Poucos dias depois, em 30 e 31 de julho, o mesmo tipo de inspeção foi realizado na Chery, Nio e JAC. Novamente, fiscais selecionaram veículos e baterias aleatoriamente para submetê-los a testes de conformidade. Até agora, o governo chinês não tornou públicos resultados apontando se os veículos retirados dessas fábricas foram aprovados ou reprovados. Também não informou quais modelos específicos foram selecionados. Dentre os testes previstos estão verificação de parâmetros estruturais do veículo, colisões, segurança de automóveis elétricos e avaliação de baterias. Se determinado produto não cumprir as normas, o governo pode divulgar a irregularidade, suspender a autorização de determinados modelos e até impedir temporariamente a empresa de apresentar novos veículos para homologação. Mais exigências para carros elétricos Além da fiscalização, a China decidiu elevar de 15 mil para 30 mil quilômetros a quilometragem do teste obrigatório de durabilidade de veículos eletrificados, equiparando a exigência àquela existente para modelos a combustão. Os 15 mil km haviam sido adotados como uma flexibilização temporária para estimular uma indústria de veículos eletrificados ainda em desenvolvimento. Agora, com o segmento maduro e respondendo por quase metade das vendas de automóveis novos no país, o governo entendeu que a diferença deixou de fazer sentido. Segundo Cui Dongshu, secretário-geral da China Passenger Car Association, a ampliação permite que problemas de confiabilidade de longo prazo tenham mais chances de aparecer durante os testes, antes da chegada do veículo ao consumidor. O marco de 30 mil km não é exatamente alto quando comparado com outros países. Na União Europeia, por exemplo, algumas normas estabelecem parâmetros de durabilidade de 160 mil km ou mais. Além das exigências legais de cada mercado, cada fabricante mantém seus próprios programas de desenvolvimento e validação, que podem somar milhões de quilômetros quando considerados vários protótipos, pistas, países e condições climáticas. Condução autônoma entra na mira A preocupação também extrapola a durabilidade mecânica. No início de agosto, a China publicou uma nova norma obrigatória para veículos com sistemas de condução autônoma de níveis 3 e 4. A regulamentação, que entra em vigor em julho de 2027, determina que fabricantes realizem testes por simulação em pistas fechadas e em vias públicas, além de estabelecer requisitos para gerenciamento de riscos e interação entre carro e motorista. Em uma reunião com fabricantes realizada em julho, o MIIT já havia ordenado que as empresas revisassem não apenas confiabilidade e durabilidade, mas também fornecedores críticos, novas tecnologias, sistemas de assistência ao motorista, segurança cibernética, proteção de dados e atualizações de software. A preocupação com sistemas de assistência à condução ganhou força após uma sequência de episódios recentes. Em março de 2025, três pessoas morreram em um Xiaomi SU7 que trafegava com o sistema Navigate on Autopilot ativado pouco antes de bater contra um poste na província de Anhui. O caso aumentou a pressão regulatória sobre sistemas de nível 2. Em junho de 2026, outro SU7, desta vez com o controle de centralização em faixa acionado, atingiu um monte de terra sobre uma rodovia sem que, segundo os relatos do caso, o sistema de assistência ou a frenagem automática evitassem a colisão; a motorista não se feriu. Já em agosto de 2026, a Tesla anunciou um recall de 2,74 milhões de Model 3 e Model Y na China para atualizar o monitoramento da atenção do motorista durante o uso de funções de direção assistida, numa tentativa de reduzir o risco de colisões quando o condutor demora a reassumir o controle. Veja também Deixe seu comentário O autor da mensagem, e não o UOL, é o responsável pelo comentário. Leia as Regras de Uso do UOL.