A cadeia alimentar das revistas predatórias

admin
28 Aug, 2026
Na hora de submeter para publicação um artigo que fazia parte do seu mestrado, o engenheiro de computação Fábio Lobato foi atraído por um convite de um periódico científico de suposta relevância (era classificado como B4 pelo sistema QUALIS). No final de 2017, seu trabalho foi publicado. Mas, depois de cerca de um ano, veio o alerta de um colega de fora do país: aquela era uma revista predatória. Foi seu primeiro contato com esse termo, conforme me contou por telefone. “Conversando com colegas sobre o assunto, surgiu uma curiosidade científica de compreender as vulnerabilidades dos pesquisadores brasileiros”, conta. Desse interesse nasceu, possivelmente, o mais amplo estudo nacional sobre percepções dos cientistas a respeito das revistas predatórias. Foram mais de 3 mil entrevistados, dos quais 1.065 possuíam artigos publicados e, portanto, tiveram suas respostas incluídas em um paper que saiu em abril no periódico Scientometrics — esse, claro, legítimo. A partir da análise de 36 questões, ficou estabelecido que Lobato não foi o único acadêmico a não enxergar o predador. Entre os fatores associados a publicações predatórias, um dos mais mencionados é a falta de conhecimento. “Para não cairmos em um golpe, precisamos reconhecê-lo”, resumiu o professor, recém chegado ao Instituto de Ciências Matemáticas e Computação (ICMC) da Universidade de São Paulo, em São Carlos. E-mails e convites insistentes e valores abaixo da média para publicação também estavam entre os pontos mais destacados pelos participantes. Se esses resultados eram esperados, outros surpreenderam em um primeiro momento. Por exemplo: acadêmicos experientes demonstraram maior preocupação com os custos de publicação em comparação com os em início de carreira, o que poderia torná-los especialmente suscetíveis aos preços atraentes das revistas predatórias. O artigo destaca que “isso possivelmente reflete a estrutura de financiamento de pesquisa no Brasil, onde pesquisadores sêniores são tipicamente responsáveis por gerenciar os orçamentos e pagar as taxas de processamento de artigos”. Por trás de tudo isso, a pesquisa confirmou uma associação entre a pressão por publicar e a experiência prévia com um periódico predatório. Do seu lado, a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) tem adotado métricas que priorizam a qualidade dos estudos, em detrimento da quantidade, e o impacto na sociedade. Já o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), que concede bolsas e financia pesquisas, criou em março deste ano a Política de Integridade na Atividade Científica do CNPq. Entre as diretrizes, temos: “abster-se de submeter trabalhos a periódicos, eventos ou editais reconhecidamente predatórios, ou participar de práticas editoriais fraudulentas”. Ainda assim, essas publicações estão longe da extinção. Ao perguntar a Lobato sobre os destaques de sua pesquisa recente, ouvi que ele se surpreendeu com a sinceridade dos entrevistados. “Recebemos respostas detalhadas com um teor de ‘eu escolho um periódico porque meu orientador mandou’”, exemplifica. Nesses casos, além da confiança, é importante valorizar o pensamento crítico. Cardápio de tramoias Talvez você queira ser creditado como o criador de um “biorreator de membrana baseado em inteligência artificial para tratamento de esgoto”. Ou, quem sabe, de um “robô humanoide com aplicações industriais”. Pois se de um lado temos revistas predatórias que aceitam artigos sem muitos critérios, do outro há fábricas de artigos científicos (as paper mills) prolíficas e com um portfólio de falcatruas cada vez mais extenso. Uma reportagem do The Guardian publicada em agosto divulgou o trabalho do matemático Reese Richardson, que localizou, entre 2020 e 2026, mais de 18 mil anúncios em redes como WhatsApp, Telegram e Facebook com propostas para inflar o currículo de cientistas. Foram identificadas 14 diferentes categorias de produtos, que vão das conhecidas ofertas para inserir artificialmente nomes em estudos falsos até a possibilidade de entrar como detentor de uma patente — a propósito, os exemplos acima são verdadeiros. A IP Australia, órgão do governo australiano onde essas patentes foram depositadas, afirmou que está aberta a analisar suspeitas de desvios, mas que não existem evidências de que a organização vem sendo usada em larga escala para esse tipo de fraude. O caso, no entanto, indica como as paper mills adotam um modelo de negócios ao mesmo tempo obscuro e agressivo, inclusive manipulando estruturas públicas vinculadas à ciência para abrir atalhos na carreira acadêmica. Uma estimativa de Richardson reportada na mesma matéria do The Guardian sugere que a quantidade de “produtos” desse mercado vem dobrando a cada 18 meses. Em seus estudos, ele abriu o bueiro do esgoto digital e entrou em dezenas de grupos nos quais as paper mills disponibilizam seus serviços a cientistas pressionados pela lógica do publicar ou perecer. Seu celular, pelo visto, não para de apitar: “Posso simplesmente olhar minhas notificações e ver que recebi 20 mensagens de WhatsApp de paper mills nas últimas 24 horas”. Um escândalo anacrônico Quem viu a clássica série Plantão Médico (ER na versão original) sabe: pagers faziam parte do cotidiano dos profissionais de saúde. Popular nas décadas de 1980 e 1990, esse equipamento recebia — só recebia — mensagens curtas, o que, para um médico ou enfermeiro que atuou na Era Pré-Popularização do Celular, funcionava como um alerta ou chamado para atender um caso urgente, por exemplo. Eis que os pagers, ou bips, como os apelidamos por aqui, estão de volta. Uma investigação da BBC mostrou que o NHS Blood and Transplant, órgão do Reino Unido responsável por serviços de transplante, enviou informações confidenciais, como nomes completos de pacientes e tipos de órgãos necessários, de forma não encriptada para pagers de equipes de hospitais. Detalhe: esses dispositivos operam por radiofrequência, então qualquer um poderia receber as mensagens se estivesse “no canal” correto. Havia um pedido para que os pagers fossem aposentados até 2021 no sistema de saúde de lá, porém alguns elos da cadeia de transplantes não incorporaram a recomendação. O NHS Blood and Transplant, que é obrigado a proteger dados dos pacientes, confirmou a falha e afirmou que a prática foi interrompida. Será que, depois de um atentado na primeira temporada e um ataque hacker na segunda, a série The Pitt prestará homenagem à sua musa inspiradora com um escândalo envolvendo um aparelhinho arqueológico? 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