Deixando a barba de molho

admin
29 Aug, 2026
Quando ainda não existiam a internet e os benditos celulares, com suas redes sociais e grupos de mensagens, o local onde a gente ia buscar bastidores — fossem eles da vida privada ou da pública — era o salão do barbeiro. "Centros de convivência social masculina", diziam naquela época. E eram. Líderes políticos, estrelas, presidentes e até mafiosos sempre recorreram ao salão para cuidar da imagem pessoal ou destruir a alheia. Lembro que, ainda meninote, eu frequentava o salão do pai do Carlinhos, meu amigo de infância. O estabelecimento ficava ali perto da antiga sede do jornal Última Hora, na Rua Sotero Reis, onde também se sediou e se solidificou a Vila Mimosa, zona do mais alto meretrício de então. À tarde, o local fervilhava de jornalistas, políticos, moradores e outros curiosos, como eu. Foi lá que conheci Nelson Rodrigues, com quem, pouco depois, passaria a conviver na redação do UH. Ficávamos, Carlinhos e eu, ouvindo os casos que Nelson contava do dia a dia da reportagem. E digo mais: a fama e a importância das barbearias atravessaram séculos e continentes, desde a antiguidade até hoje. Um dos episódios mais famosos aconteceu em 25 de outubro de 1957, numa barbearia que ficava no Hotel Park Sheraton, em Manhattan, coração da cidade de Nova York. Ali, o mafioso italiano Albert Anastasia — conhecido como "Chapeleiro Louco", chefe de uma organização criminosa de assassinos de aluguel e chefão da Família Gambino — foi assassinado a mando de outro mafioso, Vito Genovese, que também mantinha a barba sempre muito bem-feita. Aqui no bairro, o salão do Cláudio, na Rua Borja Reis, quase esquina com a Rua Dias da Cruz, sempre foi um ponto tradicional, desde o tempo do pai dele. Nos anos 1940 e 1950, o corte famoso era o “Príncipe Danilo”, uma homenagem ao craque do Vasco da Gama e da Seleção Brasileira na Copa do Mundo de 1950, Danilo Alvim, que ficou conhecido como "Príncipe" por causa da elegância e da classe com que jogava futebol. O corte era caracterizado pelos cabelos bem baixos, quase raspados nas laterais, com um pequeno topete na frente e o "pé do cabelo" bem marcado. Eu, nos idos de 1960, aderi às madeixas longas e às costeletas da época, inspiradas nos tempos rebeldes. Hoje, a onda é cortar o cabelo rente e desenhar figuras ou bichos. Tem várias versões de rapazes ostentando desenhos criativos por aí. O que importa é que, desde sempre, a preocupação com o visual move e adorna gerações. Por isso, na última segunda-feira, a reunião do Principado de Água Santa teve o barbeiro como proposta. Mas não para papo, afinal, e sim para a ação. Cláudio foi convocado e trouxe todos os apetrechos para fazer e deixar em dia a barba, o cabelo e o bigode da trupe de veteranos. — Eu não gosto de máquinas, prefiro a barba feita na navalha e o cabelo cortado na tesoura — comentou Ibiapina. O vizinho de bombordo pediu que Cláudio aparasse a sua barba e aplicasse ali uma tinta: — A patroa está dizendo que o branco da barba me envelhece... Gozado que eu achava que era mesmo a idade que estava me deixando velho — brincou. E, distraído enquanto falava, quase queimou com o isqueiro do cigarro a barba que acabara de perfumar. Vendo a cena, Fred, o suíço, repetiu o bom e velho provérbio espanhol: — Quando vires a barba do teu vizinho arder, põe a tua de molho.