É loucura o CD voltar a crescer? Não. Na verdade, nunca fez tanto sentido
15 Sep, 2026
É loucura o CD voltar a crescer? Não. Na verdade, nunca fez tanto sentido Resumo Durante pelo menos 15 anos, o mercado —e este colunista incluído— condenou o CD ao cemitério dos formatos. O streaming entregou um sonho: milhões de faixas disponíveis a qualquer momento, sem ocupar espaço. Vira o disco (ou liga o laser?): os disquinhos prateados voltaram a dar sinais de vida. E eles são consistentes. Segundo a RIAA (a Recording Industry Association of America), 17,5 milhões de unidades foram vendidas no primeiro semestre de 2026 —uma surpreendente alta de 45,7% ante o mesmo período do ano passado. As receitas totais dos CDs cresceram ainda mais, 58,6%, para US$ 171,1 milhões. Esse resultado chama atenção porque, em 2025, as vendas de CDs haviam caído 11,6%. Outro levantamento, da empresa de dados Luminate, apontou um salto menor, de 16%, mas confirmou a tendência. Mesmo excluindo CDs de k-pop da conta, o mercado americano cresceu relevantes 6,7%. Ou seja, há mais coisas acontecendo entre o céu e a terra do que sonha a nossa vã nostalgia, que seria a explicação mais fácil. Alguns fatores explicam por que esse avanço vai muito além da qualidade sonora. O k-pop descobriu que o CD pode ser mais do que um CD A indústria do k-pop soube explorar uma tradição de consumo que valoriza o objeto e entendeu rapidamente que um álbum físico é também um objeto afetivo e colecionável. Artistas do gênero vêm investindo cada vez mais em photobooks, pôsteres, cartões com fotos, embalagens especiais e várias versões do mesmo disco. O CD está lá, mas parece quase um detalhe na busca por significado. A Luminate aponta as edições especiais de k-pop como um dos motores da alta recente. Dado curioso: cerca de metade dos compradores entre a geração Z e os millennials (jovens e adultos de até 45 anos) nem sequer tem um aparelho para tocá-los —semelhante ao que ocorre com jovens consumidores de vinil. Hoje o disco não precisa mais ser adquirido para cumprir sua função original. Seu conteúdo já está na nuvem. Mas o CD, esse elo simbólico entre artista e fã, pode ser guardado, exibido, colecionado. O prazer de fazer uma coisa só O retorno do CD está inserido em um contexto maior, o de jovens que redescobriram câmeras digitais, iPods, celulares antigos e aparelhos offline que fazem muito menos do que um smartphone. Não é difícil entender a atração. O celular toca música, fotografa, manda mensagens, mostra vídeos, entrega notícias e nos consome dia após noite. Um aparelho de CD toca um disco. Apenas. E isso faz diferença. Pressionar o play em um dispositivo que não é exatamente portátil e permanecer ali ouvindo, minimamente focado, sem um celular em mãos, virou um pequeno ato de resistência em um mundo que disputa nossa atenção a cada segundo. Quando tudo está disponível, escolher importa O streaming resolveu o problema do acesso tornando a música tão abundante quanto o oxigênio que respiramos (por enquanto). Praticamente tudo está disponível. Mas essa presença massiva também tornou a música corriqueira e, para muitos, carente de significado. Comprar um CD é uma decisão mais concreta, material. Você escolhe o artista, o álbum, abre a embalagem, decifra a capa, lê o encarte, guarda o disco na estante. A sensação de que a música é sua e de que a escolha tem algum peso é algo que a lógica algorítmica não entrega e que se tornou importante. O CD ainda cabe no bolso Se o vinil é o grande fetiche da música, com suas artes retumbantes e todo o ritual de reprodução, o CD é a porta de entrada mais barata para uma coleção. Um sistema com aparelho de CD é muito mais simples e barato de se montar do que um para ouvir discos de vinil. Um velho DVD player reaproveitado e acoplado a um amplificador pode resolver sua vida —como resolveu a minha. Estamos falando de um objeto físico, colecionável, relativamente barato e sem a necessidade de se investir demais em equipamentos. Talvez esta seja a grande ironia: durante anos o futuro da música foi projetado como inerentemente digital e, agora, existe algo de atraente em voltar a colocar um disco dentro de uma máquina. O CD ressuscitou como objeto. E nunca fez tanto sentido. Discorda? Tudo bem. Conte o que você acha nos comentários ou mande uma mensagem para mim no Instagram (@hrleo), X (@hrleo_) ou Threads (@hrleo). Quer ler mais textos? Clique aqui. E até a próxima datilografada! Veja também Deixe seu comentário O autor da mensagem, e não o UOL, é o responsável pelo comentário. Leia as Regras de Uso do UOL.