Resident Evil devolve survival horror aos filmes da franquia e coloca história acima de fan service
16 Sep, 2026
Resident Evil (2026) - Review Com Zach Cregger na direção e Austin Abrams liderando o elenco, o filme chega em 17 de setembro ao Brasil É preciso coragem para mexer no vespeiro que envolve Resident Evil nos cinemas. As tentativas de adaptar a saga até então foram vistas como fracassos tanto pela crítica, quanto pela maioria dos fãs da clássica franquia da Capcom. Com o gosto amargo deixado principalmente pela versão de Paul W. S. Anderson e Milla Jovovich, parecia que a saga estava amaldiçoada a uma eternidade de adaptações ruins — e é claro que qualquer tentativa seguinte seria vista com ceticismo. Então, chega a vez de Zach Cregger: com coração de fã e visão de cineasta, ele teve a ousadia (ou loucura, como preferir) de resgatar Resident Evil com uma abordagem revigorante, mas, infelizmente, condicionada ao escrutínio prematuro de uma comunidade traumatizada após tantas decepções. De volta às raízes de survival horror Nos primeiros 30 minutos do filme, já fica evidente o maior acerto de Cregger aqui: o resgate ao survival horror característico dos jogos. O mais próximo disso que a saga de Jovovich chegou foi em Resident Evil - O Hóspede Maldito, mas após estabelecer Alice, protagonista inédita — como também é o caso da nova versão — ao caos familiar de Racoon City, as sequências abandonaram cada vez mais a tensão da sobrevivência para dar lugar à ação desenfreada. Com Noites Brutais e A Hora do Mal, Cregger cravou sua habilidade em construir uma atmosfera envolvente que nos deixa sempre na ponta da cadeira, e ele leva isso a um novo nível em Resident Evil com a ajuda de sua estrela, Austin Abrams. Se de um lado Anderson nos mostrou uma protagonista que beira o indestrutível, Cregger nos entrega uma versão mais pé no chão do que aconteceria caso uma pessoa comum se visse em meio ao cenário dos jogos. A principal diferença aqui é que os eventos não são moldados em função do personagem — muito pelo contrário. Bryan, que caiu de paraquedas nesta corrida frenética para sobreviver, é forçado a navegar de acordo com os termos e ritmo próprios da história. Ele comete erros, toma decisões estúpidas (muitas, aliás), é obrigado a recalcular a rota e, principalmente, corre perigo real. O senso de urgência dos jogos e o desespero ao fazer uma escolha que nos deixa por um fio é traduzido com excelência por Cregger, desde o roteiro coescrito com Shay Hatten à direção opressiva. A isso adicionamos, claro, o trabalho excelente de Abrams. Sua curta colaboração com Zach em A Hora do Mal já tinha sido suficiente para mostrar o potencial da dupla, e agora, com mais espaço para desenvolver sua performance, o ator acerta em cheio ao transmitir a montanha-russa de emoções que sentimos ao longo de uma gameplay. Quem já soltou um leque de palavrões enquanto enfrentava fases particularmente difíceis em qualquer um dos jogos da franquia (ou então deixou a arrogância aflorar após superá-las) vai se ver na pele do personagem — e essa facilidade com a qual Austin e Zach conquistam a identificação do espectador é digna de nota. A escolha de trazer um personagem inédito em vez de ícones como Leon S. Kennedy, Chris Redfield e Jill Valentine pode até fazer com que muitos torçam o nariz, mas não se pode dizer que isso afeta de qualquer forma a identificação com Bryan. Talvez o trunfo de Cregger seja justamente a vulnerabilidade do protagonista diante de uma situação tão insana. Não há como não encontrar ao menos uma cena que te faça pensar “ok, eu também faria isso em um apocalipse zumbi”. Terror e humor: duas faces da mesma moeda Devo admitir que, quando o filme foi anunciado, tive dificuldade para visualizar como o diretor traria seu estilo tão característico para o filme. Caso você não esteja familiarizado com os trabalhos anteriores de Cregger, a união de comédia e terror é algo marcante — e até essencial às suas obras. Zach usa o humor como uma ferramenta para baixar nossa guarda, apenas para nos dar o maior susto de nossas vidas logo em seguida. Isso não quer dizer, entretanto, que Resident Evil é um festival de piadas: assim como em seus filmes anteriores, o humor aqui não está em sacadas espertinhas ou na fisicalidade exagerada, mas simplesmente no absurdo pelo qual navegamos ao longo dos 90 minutos do filme. E não é como se não houvesse espaço para isso: a própria franquia da Capcom sempre teve uma abertura para o absurdo e para o humor (Leon e suas frases de efeito que o digam). Entretanto, devo admitir que o equilíbrio entre a comédia e o horror me pareceu um pouco desbalanceado em alguns momentos, quebrando a atmosfera que Zach constrói tão bem. Não vou entrar em detalhes, claro, mas há um momento em que Bryan encontra outros dois personagens em sua jornada. Por mais breve que seja, essa interação me pareceu um pouco deslocada na história — tanto por ter me acostumado à jornada solo do protagonista até ali, quanto pela quebra de ritmo. Novamente, essa variação é bastante típica da fórmula de Cregger, mas, ao contrário de seus longas anteriores, me incomodou aqui. E por falar em fórmula, comédia e absurdo, quem está familiarizado com o estilo de Zach sabe bem que ele adora um 3o ato completamente chocante (como esquecer o fatídico destino da Tia Gladys em A Hora do Mal?). Entre gore, terror corporal e designs insanos de infectados — um dos quais me lembrou bastante o Barão Harkonnen, de Duna —, nada do que vi no filme poderia me preparar para o que viria no desfecho. É um daqueles finais que, com certeza, dividirá o público — e não tem como ser diferente, considerando as outras obras do cineasta. E, novamente, considerando o tom e o histórico do que foi visto nos jogos até hoje, será que o absurdo de Cregger é realmente tão absurdo assim? Seu maior pesadelo (e não estou falando de zumbis) Assim como a fusão entre comédia e terror, a construção de narrativa com base em problemas e traumas reais é outra marca registrada do diretor. Bem resumidamente, Noites Brutais mostra o que acontece quando falhamos em reconhecer uma situação de risco; em A Hora do Mal, relações são transformadas em uma ferramenta de manipulação. No caso de Resident Evil, por incrível que pareça, a temática da vez é a paternidade. Zach, já disse em entrevistas que coloca um pouco de si em todos os personagens que escreve, e, desta vez, despejou suas ansiedades sobre paternidade sobre o filme (algo confirmado pelo próprio diretor ao IndieWire). O tema é explorado de forma explícita ao apresentar uma situação pessoal com a qual Bryan está lidando logo no começo do longa, e continua salpicando a trama por toda sua extensão — em alguns momentos, ainda de forma explícita; em outros, nem tanto. Durante uma masterclass (que acompanhamos em primeira mão) realizada no México sobre o filme, Cregger foi questionado sobre como aborda temas reais e os transforma em espirais absurdas em seus filmes, e qual seria o tema da vez. O diretor se limitou a responder que havia, de fato, um significado pessoal aqui, mas que não estava pronto para discuti-lo publicamente ainda. O diretor — que é casado, mas não tem filhos ainda — pode até usar como plano de fundo a ameaça de um apocalipse zumbi, mas, ainda assim, enquanto tudo está desmoronando (literalmente) ao seu redor, outro medo persegue Bryan: a incerteza de que tem o que é preciso para ser um bom pai. E, ironicamente, é o fim do mundo que o faz encarar a verdade por trás dessa situação. Embora esteja aquém do que vimos na filmografia de Cregger até então, fica evidente que o filme é fruto de um fã dos jogos, mesmo que isso não signifique um festival de aparições de personagens icônicos ou uma enxurrada de referências à franquia — que estão, sim, distribuídas pelo filme, mas limitadas à necessidade da trama em vez de algo gratuito para agradar a comunidade. Nas palavras do diretor em entrevista ao IGN Brasil: “Menos é mais” — resta saber, com a estreia do filme em 17 de setembro, se esse mantra será suficiente para, enfim, satisfazer os mais céticos. O Veredicto Com coração de fã e visão de cineasta, Zach Cregger teve a ousadia (ou loucura, como preferir) de resgatar Resident Evil com uma abordagem revigorante, mas, infelizmente, condicionada ao escrutínio prematuro de uma comunidade traumatizada após tantas decepções.