O olhar mais aguçado das pesquisas qualitativas
17 Sep, 2026
Por décadas, a pesquisa qualitativa foi vista com desconfiança pela comunidade científica, ficando em segundo plano por ser considerada excessivamente subjetiva. Na última década, porém, as abordagens desse tipo têm passado por um processo de refinamento metodológico, tornando-se ferramentas importantes para buscar respostas a perguntas complexas. Em uma nova fronteira desse processo estão os métodos mistos, cada vez mais sofisticados, que buscam integrar abordagens qualitativas e quantitativas. Esse modelo tem se mostrado útil para pesquisadores que investigam questões tão diversas como a experiência subjetiva de pacientes de esquizofrenia durante um tratamento de longo prazo, a redução da vacinação infantil ligada à desinformação, as transições socioambientais produzidas por iniciativas de desenvolvimento sustentável na Amazônia ou os diversos fatores associados à saúde mental de estudantes universitários. Os métodos da pesquisa qualitativa, que envolvem abordagens como entrevistas aprofundadas ou grupos focais (ou seja, o acompanhamento das conversas sobre um tema que acontecem entre os membros de um grupo pequeno de pessoas), buscam investigar aspectos que não são fáceis de transformar em números. Eles ajudam a entender a percepção subjetiva das pessoas e os significados que elas atribuem aos fenômenos. O avanço da abordagem é particularmente evidente na área da saúde. Nas últimas décadas, seu emprego cresceu em publicações de revistas científicas biomédicas, de saúde pública e das diversas profissões clínicas. Na plataforma PubMed, o número de artigos passou de pouco mais de 2.000 em 1980 para mais de 26 mil em 2000. Em 2020, já eram mais de 230 mil, e o número quase dobrou de lá para cá, chegando a 425 mil em 2026 . Para o psiquiatra Egberto Ribeiro Turato, professor da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), essa explosão está associada ao crescente interesse pela humanização das atividades clínicas, que passaram a exigir a compreensão das dimensões emocionais e sociais. “Na área de saúde, os métodos quantitativos sempre foram muito valorizados, porque os resultados estatísticos explicam os nexos causais entre os fenômenos do adoecimento e dos cuidados. Mas cada vez mais a comunidade científica sentia necessidade de métodos capazes de responder como pacientes, familiares e os próprios profissionais clínicos vivenciam os fenômenos humanos”, afirma Turato. O que é o método clínico-qualitativo O método clínico-qualitativo (MCQ) aplica recursos das ciências humanas à saúde, buscando compreender significados, sentimentos e valores envolvidos nos processos de saúde e doença Humanas na saúde Conhecido como criador do método clínico-qualitativo , difundido em cursos de pós-graduação em todo o país nos últimos 30 anos, Turato define a pesquisa qualitativa em saúde como “a investigação das ciências humanas, ou simbólicas, aplicada às áreas da clínica e da saúde coletiva”. Segundo ele, em vez das relações de causa e efeito, a abordagem busca nexos simbólicos, impulsionada por referências teóricas psicanalíticas, antropológicas e de escolas filosóficas. “Quando um médico ou enfermeiro pesquisa por que o paciente não faz uso correto da medicação, a abordagem quantitativa seria capaz de mostrar o percentual dos que esquecem de tomar. Mas a razão que o leva a esquecer é de ordem subjetiva e exige outro tipo de avaliação. A pesquisa qualitativa vai mudar a relação emocional e cultural do profissional de saúde com o paciente”, explica Turato. Em uma de suas pesquisas mais recentes, ele orientou uma pesquisa sobre a experiência de pacientes com esquizofrenia no ambulatório especializado em psiquiatria da FCM-Unicamp. Eles participam de um protocolo de tratamento com clozapina (antipsicótico de alta eficácia para casos de esquizofrenia resistente a outras drogas). Mas o medicamento tem entre seus efeitos colaterais a alteração na produção de sangue na medula óssea, com a diminuição de glóbulos brancos e vermelhos, o que demanda um protocolo rígido. “É preciso coletar sangue para um hemograma semanalmente, por 14 semanas. Nosso objetivo não era saber se o tratamento estava funcionando, mas sim o que sente o paciente ao ir à Unicamp com tanta frequência, já que isso poderia gerar impressões negativas, talvez prejudicando o tratamento. Foram feitas entrevistas abertas em profundidade, exploradas com um método de análise de conteúdo clínico-qualitativa”, explica Turato. Ariel Severino/Revista Pesquisa FAPESP A conclusão foi que o tratamento não levava a simbolizações negativas – as visitas semanais faziam os pacientes se sentirem mais acolhidos. “Concluímos que o protocolo promove a percepção de segurança e favorece a adesão ao tratamento, além de mitigar o isolamento dos pacientes”, resume ele. O trabalho gerou um artigo que foi publicado na revista Brain and Behavior , com apoio da FAPESP nas modalidades de Bolsa de Iniciação Científica e Publicações de Artigos. Em sua tese de doutorado, concluída em 1988, com bolsa da FAPESP, Turato conduziu uma pesquisa inteiramente quantitativa. “Nem utilizávamos esse termo, porque o uso da estatística era simplesmente algo óbvio”, recorda. Na década de 1990, o professor integrou, na Unicamp, a disciplina de psicologia médica, campo inaugurado na década de 1950 pelo húngaro Michael Balint, autor de “ O médico, seu paciente e a doença ”. “Eu ensinava a disciplina e comecei a usar intuitivamente entrevistas com pacientes”, conta. Em 1993, orientou o primeiro artigo publicado usando o método clínico-psicológico qualitativo na Unicamp. A partir daí, Turato se aprofundou na abordagem e teve contato com a autora da primeira obra de pesquisa qualitativa em saúde no Brasil, “ O Desafio do Conhecimento: Pesquisa Qualitativa em Saúde ”, de Cecília Minayo, da Fiocruz. Em 2003, ele publicou o “ Tratado da Metodologia da Pesquisa Clínico-Qualitativa ”, que também se tornou referência no Brasil. Em 2016, a resolução no 510 do Conselho Nacional de Saúde estabeleceu as regras éticas para pesquisas em ciências humanas e sociais, e hoje as revistas científicas mais exigentes já estabeleceram checklists para garantir a qualidade metodológica e evitar análises superficiais dos dados. Mas o professor argumenta que, para manter o rigor necessário, as abordagens mistas podem trazer confusões conceituais e epistemológicas. “As definições dos métodos qualitativos e quantitativos são rigorosas, e há uma grande diferença entre seus elementos constitutivos, como amostragens, instrumentos de coletas e análises. Por isso, acho que, para fazer pesquisa ‘quali-quanti’, é preciso ter o dobro de conhecimento metodológico, mas também o dobro de tempo, de dinheiro e de energia mental.” CRESCIMENTO NA ÁREA DA SAÚDE (PUBMED) 425 mil artigos qualitativos publicados em 2026 — eram pouco mais de 2 mil em 1980 TEMAS EM PESQUISA QUALITATIVA HOJE • Saúde mental de universitários • Desinformação sobre vacinas • Transição socioambiental na Amazônia • Adesão a tratamento na esquizofrenia Outra visão da saúde mental Os métodos mistos, porém, são amplamente utilizados em outros tipos de pesquisa. Um exemplo é o trabalho da psicanalista Kelly Cristina Brandão da Silva, também da FCM-Unicamp. Ao contrário de Turato, ela teve sua carreira científica fundamentada em estudos qualitativos, mas decidiu agregar uma etapa quantitativa ao seu projeto de pesquisa sobre saúde mental e sofrimento psíquico dos alunos na universidade. Iniciado em julho de 2024, com apoio da FAPESP na modalidade Auxílio à Pesquisa – Regular, o projeto nasceu apenas com abordagem qualitativa, baseada em grupos focais. “A abordagem qualitativa predomina entre os psicanalistas, mas cada vez entendemos mais que os dados brutos de uma etapa quantitativa ajudam a melhorar as nossas perguntas. As abordagens se iluminam de forma recíproca”, diz ela. A pesquisadora explica que a inclusão da etapa quantitativa exigiu mais recursos humanos – e para isso foram obtidas sete bolsas no âmbito do auxílio da FAPESP. Essa fase incluiu um questionário online, com 118 perguntas, que cobriu diversos dados sociodemográficos, com informações sobre permanência estudantil, questões de racismo, gênero, assédio na universidade e expectativas sobre o futuro profissional. “Os dados mostraram que a universidade mudou muito. A Unicamp introduziu cotas para pessoas trans e com deficiências muito recentemente, e o perfil dos alunos é muito diferente. A grande maioria tem renda familiar entre 1 e 3 salários mínimos. As demandas estudantis também se transformaram. Houve uma inflação de diagnósticos psiquiátricos, e aumentou a demanda por assistência à saúde mental”, afirma. Segundo ela, esses dados refinaram as perguntas da etapa qualitativa. Os resultados apontaram que, apesar da ampliação das formas de ingresso na universidade, há uma percepção de que as políticas de permanência são insuficientes. “Os grupos focais também detectaram um conflito de pertencimento: alunos pretos, pardos e indígenas começam a reivindicar uma mudança nas bibliografias, alheias a seus saberes e cosmovisões. Há um sofrimento específico dessa nova população universitária, com destaque para os refugiados.” IMPACTO DA DESINFORMAÇÃO ANTIVACINA Entre 2019 e 2021, as narrativas antivacina no Telegram cresceram 689 vezes com base em 80 milhões de posts analisados em 1.785 grupos no Telegram. Nesse mesmo cenário, a vacinação infantil no Brasil caiu de mais de 90% menos de 68% das crianças de até 12 meses vacinadas (2013–2020) A temática do estudo nasceu em 2021, durante a pandemia de Covid-19, quando a pesquisadora verificou um aumento de ideação suicida entre os alunos do curso de fonoaudiologia, no qual leciona. A pesquisa foi inserida em um estudo multicêntrico, que já resultou na publicação de cinco artigos, um capítulo de livro e do “ Guia para o bem-viver na universidade: psicanálise, saúde mental e políticas de cuidado ”, lançado em 2025. O objetivo da pesquisa era fazer um “diagnóstico clínico-político” sobre o sofrimento psíquico de estudantes, que poderá ajudar a Unicamp a aperfeiçoar suas políticas. A perspectiva clínico-política leva em conta que o sofrimento mental não é um problema puramente individual ou biológico, mas um produto das dinâmicas institucionais no contexto do neoliberalismo. A metodologia mista permitiu identificar, por exemplo, o sofrimento produzido por uma ideia de que todos precisam ser empreendedores, ou pelas dificuldades de conciliação entre trabalho doméstico, maternidade e universidade. A inclusão de uma abordagem quantitativa foi uma inovação para os psicanalistas da Unicamp, mas, em outros campos do conhecimento, como a área ambiental, há uma tendência ao pluralismo metodológico, e a abordagem mista é predominante. É o caso do Projeto Duramaz 3 , que busca compreender como as mudanças produzidas em nível local por projetos de desenvolvimento sustentável podem impulsionar transformações socioambientais de grande escala na Amazônia. Parte de um programa internacional iniciado em 2007, que envolve diversas universidades do Brasil e da França, o projeto está entrando em sua terceira fase. “A iniciativa examina as transições socioambientais em 15 regiões da Amazônia. A ideia é compreender por que alguns territórios adotam uma trajetória de desenvolvimento sustentável e outros a de degradação”, explica Carla Morsello, professora da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (EACH-USP). A terceira fase do projeto, iniciada em março, teve apoio da FAPESP na modalidade Auxílio à Pesquisa – Temático, contando com Morsello como pesquisadora responsável. Ariel Severino/Revista Pesquisa FAPESP “Nas duas primeiras fases foram levantados dados para a produção de indicadores de diferentes áreas. Na terceira, o objetivo é incluir mais indicadores qualitativos, ao mesmo tempo em que vamos refinar e sintetizar nosso conjunto de indicadores para que eles sejam relevantes principalmente para as populações locais”, explica. O método qualitativo empregado prevê o desenvolvimento de “jogos sérios” (que têm um componente lúdico, mas sem propósito de entretenimento) que servirão como ferramentas para processos participativos na definição de cenários. A criação do jogo será a parte central do trabalho da equipe brasileira do projeto. “A ideia é que seja jogado com as comunidades locais e os gestores públicos. Os indicadores serão utilizados no jogo, para que os participantes entendam os resultados de suas tomadas de decisão”, detalha Morsello. “Quando estudamos esse processo, seria possível fazer um estudo de observação direta e descobrir que decisões foram tomadas. Mas não basta para compreender as razões por trás das escolhas. Os jogos nos ajudam nisso”, explica a cientista ambiental. Além disso, os métodos qualitativos são importantes em estudos que buscam investigar o conhecimento tradicional. Segundo Mário Aquino Alves, professor do Departamento de Gestão Pública da FGV que tem se dedicado aos estudos qualitativos nas últimas três décadas, ainda há preconceito contra esse tipo de abordagem por um suposto excesso de subjetividade. “O que tem mudado de muitas maneiras é a sofisticação cada vez maior dos desenhos de pesquisa, da formalização dos procedimentos e da interpretação de dados. Temos protocolos muito mais específicos para todas as fases da pesquisa.” Todo trabalho científico tem um grau de subjetividade, segundo ele, já que envolve escolhas: que perguntas fazer, qual modelo será usado, como será montada a base de dados. Na pesquisa qualitativa, porém, isso é mais visível porque há necessidade de interpretar as evidências. “Só que interpretar não significa que haja arbitrariedade. Há um rigor em tornar o processo transparente”, explica. Ariel Severino/Revista Pesquisa FAPESP Teias da desinformação Um exemplo desse rigor é o estudo atualmente conduzido por Alves sobre a associação entre a desinformação sobre vacinas e a redução da cobertura vacinal nos últimos anos no Brasil. Parte de uma pesquisa feito pelo Laboratório de Estudos sobre Desordem Informacional e Políticas Públicas da FGV, com apoio do CNPq, o projeto também teve apoio da FAPESP na modalidade Auxílio à Pesquisa – Pesquisador Visitante Internacional, para garantir a participação do psicólogo social Lupicínio Iniguez Reda, da Universidade Autônoma de Barcelona, que é especialista em análise do discurso. “Montamos o projeto para tentar entender como emergem esses discursos antivacina em grupos de teorias conspiratórias, com dados obtidos no Telegram. Esse aplicativo tem uma característica interessante, a presença de grupos abertos públicos, totalmente rastreáveis”, diz o pesquisador. O grupo desenvolveu um mecanismo capaz de rastrear as comunidades e identificar conteúdos antivacina. “Uma análise quantitativa pode mostrar que tipo de discurso está crescendo, mas a qualitativa nos ajuda a entender por que essas narrativas se tornam convincentes”, explica Alves. Emprego da IA também facilita a pesquisa qualitativa ao permitir trabalho com volume maior de textos, vídeos e áudios A pandemia de Covid-19 foi acompanhada de uma queda drástica da vacinação infantil, que só começou a ser revertida a partir de 2024. Mas, mesmo antes da pandemia, entre 2013 e 2020, o percentual de bebês brasileiros de até 12 meses vacinados caiu de mais de 90% para menos de 68%. Esse fenômeno também foi acompanhado de um aumento da desinformação. Só entre 2019 e 2021, os posts com narrativas antivacina aumentaram 689 vezes, de acordo com os estudos dos pesquisadores da FGV que analisaram mais de 80 milhões de postagens feitas em 1.785 grupos no Telegram. O estudo atual também busca entender o efeito dessas narrativas sobre pessoas em situação vulnerável. Para isso foram montados dois grupos de controle: um em Guapiruvu, bairro rural do município paulista de Sete Barras, no Vale do Ribeira, e o outro numa comunidade em situação vulnerável na Zona Sul da cidade de São Paulo. “No grupo de Guapiruvu, todos têm celular, mas não têm acesso à internet, porque não há cobertura. Já o grupo da Zona Sul tem total conectividade”, conta Alves. Com a ajuda do professor da Universidade de Barcelona, os pesquisadores usam a análise do discurso para interpretar qualitativamente os conteúdos que circulam. “O que tem mudado de muitas maneiras é a sofisticação cada vez maior dos desenhos de pesquisa, da formalização dos procedimentos e da interpretação de dados” – Mário Aquino Alves, professor do Departamento de Gestão Pública da Fundação Getulio Vargas (FGV) “A cobertura vacinal em Guapiruvu é muito alta. Em uma área com fortes laços comunitários, por ser muito dependente de políticas públicas, o discurso de descrença no Estado parece que não faz sucesso. Já na Zona Sul, apesar da situação vulnerável, há menos laços comunitários, e as teorias conspiratórias tendem a penetrar mais”, explica Alves. “Outro achado é que os interesses em jogo por trás da desinformação não são necessariamente homogêneos. Há interesses econômicos, conexões religiosas ou ideológicas. Não há um único elemento que seja preponderante”, diz o pesquisador, que também faz parte do núcleo de Cidades do Centro de Pesquisa, Inovação e Difusão (CEPID) da FAPESP sobre Governança de Mudanças Ambientais Globais . “Quando estudamos esse processo, seria possível fazer um estudo de observação direta e descobrir que decisões foram tomadas. Mas não basta para compreender as razões” – Carla Morsello, professora da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (EACH-USP) Para Alves, nem toda pesquisa precisa de métodos qualitativos ou mistos, mas eles têm permitido que os pesquisadores trabalhem com perguntas mais complexas que há poucos anos nem poderiam ser propostas. Segundo ele, mais recentemente, os pesquisadores têm integrado a inteligência artificial (IA) a essas abordagens. “A IA está mudando muito a pesquisa qualitativa, e para melhor. Hoje conseguimos trabalhar não apenas com volumes de texto imensos, mas com vários tipos de documentos e outras formas de interação digital, incluindo vídeo e áudio, cuja análise seria totalmente impossível há cinco anos.”