O olhar do outro
20 Sep, 2026
Estávamos juntos, em um feriado, quando ele foi avisando que já havia uma nova possibilidade. "Uma mulher que faz o restaurante inteiro suspirar quando passa". Só de ouvir suspirei de cansaço.Carlos Junior não se deu por vencido com minha aparente ausência de entusiasmo. Entusiasmou-se a si mesmo prosseguindo: "Ela disse que, como eu, não existe". Aliviando a minha pouca vontade de ouvir histórias que se repetem há tempos, disse eu que se tratava de uma inteligente conclusão. "Afinal, ninguém é igual a ninguém." Carlos Junior nunca foi de dar prosseguimento a um tema que não seja seu.Fala e estaciona e aprecia as próprias palavras com um sorriso soberbo. Vez em quando, aplaude a si mesmo com dizeres como: "Estou surpreso com o que eu disse, que genial". Felipe é nosso amigo também e, também, ouve as histórias de Carlos Junior e, não poucas vezes, anuncia desistência da paciência de intervir. Pois bem, a mulher perfeita desses dias é Lorena.Ele quer que a conheçamos. Pede que sejamos sinceros.Quero discorrer sobre o tema da sinceridade e sobre a necessidade das nossas opiniões.Ele volta a dizer da beleza e das pessoas que olham sem economias para ela. Felipe dá de ombros. Desacredita. Traz de volta as tantas mulheres que duraram nada com Carlos Junior.Então, ele diz a mim que, de mim, precisa para saber. Eu digo que quem tem que saber é ele.Ele diz que querer saber o que os outros pensam é prova de amizade.Eu digo que amizade é tentar ajudá-lo a ver que o olhar do outro não necessariamente diz da gente. Felipe concorda comigo. E começamos, então, a dizer filosofias. Falamos dos erros das projeções, das expectativas, das necessidades de aplausos.Pondero que o olhar do outro pode ser bom, quando ele nos olha com amor. Carlos Junior, que estava desatento porque não era ele quem dizia, entendeu que estávamos falando do seu amor.Estranhou. Estranhei ao lembrar que, no desfile de mulheres com as quais ele se empolga e nos apresenta, ele nunca menciona o vernáculo amor. Há outra característica de Carlos Junior, é impossível estar com ele em qualquer lugar em que um espelho esteja aparente. É sua aparência que ele busca quase como um vício. Felipe sorri de suas esquisitices. Eu também e digo dizeres que o deixam com mais vontade de dizer. Pergunto, já prevendo a resposta. E, então pondero. Falo das carências que todos nós temos. Dos vazios que nos doem. Do enfrentamento da dor da solidão.E de algumas janelas que nos ajudam mais que alguns espelhos. Ele desentende e volta a falar da perfeita. Eu digo que perfeição não é um atributo aos humanos. Que somos seres errantes.Felipe aproveita e pergunta quantas vezes ele já errou, dizendo que a mulher da vez era a mulher de sua vida. Carlos Junior tem audição seletiva. E volta ao que falava antes como se o que os outros estivessem falando não fizesse som. Penso no tema do olhar do outro. Sou dos que acreditam nos encontros de amor, nas histórias que se cruzam e que beatificam as vidas.Sou dos que abraçam a atenção como um mandamento de vida. E, por isso, as histórias dos outros me interessam tanto. No caso de Carlos Junior, tento apresentar outro viver. Menos ansioso. Menos necessário de que digam a ele o quanto ele é conquistador. Lembrei agora de um outro conhecido cujo assunto é dizer o dinheiro que tem.O meu olhar para os que fazem das coisas a razão de viver é de piedade. Tempos perdidos os que gastamos cultuando o que não nos pertence.O que nos pertence mora dentro.E o outro só é capaz de olhar quando entende desse morar.