Documentário expõe contradições da resex com a poronga do neo-cooperativismo
24 Sep, 2026
O grupo LEGAL (Laboratório de Estudos Geopolíticos da Amazônia Legal) lançou, na rede social YouTube, o documentário “A Ciência da Floresta: o caso da Resex Chico Mendes, no Acre”. Em pouco mais de 16 minutos, o vídeo expõe velhas contradições entranhadas nos 36 anos de história da reserva extrativista, mas com o registro de uma novidade, capitaneada por uma ideia ainda em construção: a do “neo-cooperativismo”. O documentário não se dispõe a conceituar o que seria essa nova forma de organização social e econômica. Sugere, no entanto, que “as cooperativas, agora, trabalham com a Ciência, baseado em preceitos”, na fala do economista Orlando Sabino, um dos entrevistados no filme. Aos poucos, as cooperativas têm passado a fazer parte da rotina das mais diversas cadeias produtivas da resex. Diferente do que acontecia com os sindicatos, que se norteavam pelo posicionamento político, o foco das cooperativas é o impacto na renda. Nesse aspecto, mesmo sem querer, o documentário ruma para o varadouro da economia. Desde as gotas da seringa que caem pelo corte da faca de sangria (associado ao suor no rosto do jovem seringueiro José Henrique), até a declaração do conselheiro do Tribunal de Contas do Acre Ronald Polanco, é a Economia e as relações sociais que ela cria que tentam ser domadas durante toda a película. “A Ciência da Floresta: o caso da Resex Chico Mendes, no Acre” frustra quem entende os rios, a flora e a fauna como “entidades”, como elementos de uma relação cósmica, integral, espiritual até. O mote do documentário é econômico. A diferença é que se percebe, em cada tomada, em cada sequência de imagem, a tentativa de fazer com que a presença humana na cena geral aconteça com o máximo respeito possível à geografia e à cultura dos povos que vivem ali. “Buscamos retratar essa realidade da forma mais fiel possível, sem idealizá-la e sem esconder suas contradições. Nosso objetivo era ouvir essas famílias e compreender, a partir do que vivem, como o território vem se transformando e quais são as condições necessárias, hoje, para viver, produzir e manter a floresta em pé”, sintetiza uma das coordenadoras gerais do filme, Luci Maria Teston, pesquisadora do grupo LEGAL. Nesse aspecto, o filme não escapou da armadilha do debate sobre “desenvolvimento”. De um jeito ou de outro, a armadilha está ali, rondando tudo. Até mesmo na fala de Raimundão, cuja história de vida sempre driblou essa arapuca. “Em 88, o Chico foi assassinado. Em 89, a solução foi a proposta da criação da reserva extrativista. Continuar vivendo lá, produzindo borracha, colhendo castanha, fazendo suas roças e criando suas famílias lá, sem mais a presença do latifúndio”, lembrou o líder seringueiro. Mesmo sem ser latifundiária, a produtora rural Maria Auxiliadora Gomes de Souza aparece como elemento de contraste ao extrativismo. Mas não é apresentada de modo maniqueísta. A produtora expõe o que pensa, diante da rotina de uma pecuarista de base familiar. “Não é que a gente queira ser ‘fazendeira na reserva’. A gente quer viver dignamente”, diz. Essa ideia de “viver bem” na resex também está exposta na fala do presidente do Conselho Deliberativo da Resex Chico Mendes, Marcos Carlos de Mesquita Neto. Após tentar conceituar “desenvolvimento sustentável” no tripé ambiental/social/econômico, Neto arriscou a sentença: “Se tirar qualquer dessas ‘pernas’, não vai ter desenvolvimento sustentável”. Para concluir a percepção “econômica” sobre as relações políticas e históricas que se construíram na região, o conselheiro do Tribunal de Contas do Estado, economista e filho da região, Ronald Polanco, ajudou a fortalecer a ideia do “novo cooperativismo” em um ambiente tão singular como a Resex Chico Mendes. “Qualquer processo, mesmo que incipiente, de agregação de valor para os produtos regionais, sob o controle dos extrativistas, com a propriedade da terra, ou a utilização da terra sendo coletiva a distribuição da riqueza e a conservação da floresta são muito mais eficientes”. Do ponto de vista estético, o diretor Ian Cheibub buscou respeitar o que pontuou a pesquisadora Teston: intervir o mínimo. As histórias são contadas pelos próprios moradores, alinhavadas por imagens de drones e trilhas sonoras refinadas. Não há a imposição da narração em off. As únicas vozes ouvidas são de quem vive ou de quem ajuda a definir as coisas por ali. A síntese de uma percepção mais complexa, no entanto, pode estar na declaração inicial feita pelo jovem seringueiro José Henrique. “Cada pessoa tem uma genética. Cada madeira tem uma genética. Tem madeira que dá muito leite. Tem madeira que dá menos”, constatou enquanto a sina do trabalho molhava o rosto ainda imberbe e sem os riscos do tempo. “A Ciência da Floresta: o caso da Resex Chico Mendes, no Acre” foi financiado pelo CNPq, Sistema OCB, Ufac, pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Acre (Fapac) e pela Iniciativa Amazônia +10, em parceria com a Cooperxapuri e apoio institucional da Assembleia Legislativa do Acre, Fundape e Tribunal de Contas do Acre.