Em 10 anos, número de motoristas jovens tem queda de 15%
26 Sep, 2026
Em 10 anos, número de motoristas jovens tem queda de 15% Em 2016, região contabilizava 282.598 habilitados de 18 a 30; em julho de 2026, registrou 238.477, enquanto o total de condutores cresceu O número de motoristas jovens, de 18 a 30 anos, caiu 15% no Grande ABC em dez anos. Em 2016, de acordo com dados de julho do Detran-SP (Departamento de Trânsito de São Paulo), havia 282.598 CNHs (Carteira Nacional de Habilitação) ativas nas sete cidades. No mesmo período de 2026, o total diminuiu para 238.477. O comportamento entre a população jovem está na contramão do crescimento da quantidade de condutores da região, que saltou de 1 milhão para 1,4 milhão no mesmo período. A psicóloga Adriana de Araújo afirma que se verificam nas novas gerações diferentes significados para o ato de dirigir e adquirir um veículo. “Sem generalizar, mas trazendo uma reflexão, antigamente, tirar a habilitação e ter um carro representavam independência, liberdade e até uma espécie de passagem para a vida adulta. Hoje, para muitos jovens, essa associação já não é tão forte. A independência continua sendo desejada, mas pode ser conquistada de outras formas”, avalia. “Se a pessoa consegue se deslocar por aplicativo, transporte público ou outros meios, o carro pode deixar de representar liberdade e passar a representar custo, manutenção, trânsito, estacionamento, responsabilidade e até um peso, em vez da leveza que antes simbolizava”, acrescenta Adriana. O analista de projetos Fadel Gutierrez, 25 anos, morador de Santo André, optou por não tirar a habilitação e acredita que tem mais qualidade de vida ao se locomover por meio do transporte público. “Trabalho em São Paulo, bem no centro da cidade, e é inviável o trajeto de carro. O trânsito é sempre uma questão. Fora que a sobrecarga sensorial é estressante. É melhor ir de ônibus, trem e metrô, mesmo que esses transportes precisem de melhorias urgentes”, justifica. Gutierrez destaca ainda a otimização de seu tempo no transporte público, durante o qual pode ler e assistir a conteúdos, ampliando seu repertório, enquanto aguarda chegar ao destino. “Quando chove ou estou atrasado, tenho a opção de pedir um carro de aplicativo”, afirma. “O trânsito muda a experiência emocional de dirigir. Se conduzir um veículo significa passar horas em congestionamentos, sob atenção constante e ainda exposto ao risco de acidentes, aquilo que antes simbolizava prazer e liberdade pode ser percebido como desgaste. Nesse caso, não dirigir pode representar mais conforto e até mais liberdade”, aponta Adriana. A escritora, artista e estudante de jornalismo Júlia Ribeiro Maldonado, 21, também escolheu viver sem carro. “Moro em São Bernardo, mas muitas coisas faço na Capital. Atualmente, vou para lá de carona com os meus pais. Não me faz falta dirigir e manter um carro é muito caro. Tem as manutenções e o combustível”, alega a jovem. Porém, o principal motivo é a falta de prioridade e tempo para pensar na habilitação. “Tirar uma carta iria demandar muito tempo e concentração da minha parte, e atualmente eu tenho outras questões mais importantes para lidar, como a faculdade, que me consome bastante”, explica a jovem. POSSE MATERIAL Nos últimos anos, houve uma mudança na relação com a posse de bens materiais, de acordo com a psicóloga Adriana de Araújo. “Essa geração está muito mais habituada a pagar pelo acesso e pelo uso de serviços sem necessariamente precisar possuir o bem. Antigamente, havia muito menos alternativas. Hoje existem inúmeros meios de usar sem possuir. E essa mudança prática também acaba transformando o valor emocional atribuído à propriedade”, explica. “Mas não afirmaria que isso necessariamente provocará uma queda contínua no número de condutores. Podemos estar diante de uma redução da necessidade de dirigir e, principalmente, da importância simbólica de ter habilitação e carro. Se as alternativas de mobilidade continuarem crescendo, essa tendência pode se acentuar”, pondera a especialista.