Contos inéditos trazem chance de descobrir prosa fascinante de Ricardo Guilherme Dicke

admin
26 Sep, 2026
[RESUMO] Organizado portumamente, "Música de Mortos Suaves" apresenta histórias que seu próprio autor, o mato-grossense Ricardo Guilherme Dicke, julgava destruídas por cupins. Encontrados por Rodrigo Simon de Moraes ao vasculhar o acervo do escritor, esses textos, do início da carreira de Dicke, antecipam a experimentação, o tom onírico e a obsessão com a morte de sua obra futura, que ainda não desfruta do reconhecimento merecido no meio literário. Dono de uma prosa cuja linguagem tem uma "oleosidade fascinante", nas palavras da escritora Hilda Hilst, Ricardo Guilherme Dicke (1936-2008) ainda é um autor eclipsado. A obra caudalosa (romances extensos para o gosto do mercado) e a distância geográfica (o Mato Grosso como espaço longe dos centros culturais de Rio e São Paulo) contribuíram para obscurecer sua figura no sistema literário brasileiro. "Ele acaba esquecido", define Rodrigo Simon de Moraes, pesquisador na Universidade de Princeton (EUA). Vários esforços recentes vêm tentando mudar esse cenário. Um conjunto de contos inéditos de Dicke chegou às livrarias no começo deste ano. "Música de Mortos Suaves" foi organizado por Moraes, que encontrou os textos perdidos. Dois anos atrás, a obra-prima do autor, o romance "Madona dos Páramos", publicado originalmente em 1981, ganhou relançamento. Nascido na Chapada dos Guimarães, no Mato Grosso, Dicke passou a viver em Cuiabá, capital do estado, aos seis anos. Filho de um imigrante alemão suicida e de uma brasileira, casou-se com uma uruguaia. Com a mulher, chegou a viver no Rio de Janeiro nos anos 1960. Na capital fluminense, apostava em entrar no circuito artístico através da dedicação exclusiva à escrita. Tímido, tinha dificuldade para interagir nas rodas sociais. Em 1967, ganhou menção honrosa no Prêmio Walmap, o mais prestigiado daqueles anos, pelo romance "Deus de Caim", seu primeiro livro. A composição do júri (Guimarães Rosa, Jorge Amado e Antonio Olinto) já denotava, por si só, a importância da honraria. No período carioca ele escreveu também "Caieira" (1978) e "Madona dos Páramos" (1981), porém os livros só foram publicados quando já estava de volta a Cuiabá, nos anos 1970. O primeiro recebeu o Prêmio Remington de Prosa; o segundo, o Prêmio Ficção de Brasília, da Fundação Cultural do Distrito Federal. "Conforme o tempo vai passando, ele vai ficando em Cuiabá. Naquela época, sem internet, ele ficou distante das editoras. Tem entrevista em que ele fala isso, sobre as editoras que estão muito longe, que a ligação era muito cara", diz Moraes sobre uma das razões para o ocaso da literatura de Dicke. O outro motivo para seu esquecimento é a sua própria ficção, que nunca fez concessões ao gosto mediano. Tome-se "Madona dos Páramos", por exemplo. Com um trabalho de linguagem ímpar, repleto de experimentações, ele não economiza descrições e digressões para narrar a saga de 12 foragidos pelo sertão do Centro-Oeste brasileiro. Após a fuga da prisão, os personagens enfrentam a barbárie do próprio bando, enquanto almejam chegar em uma terra de abundância, onde fica a mítica árvore Figueira-Mãe. Muito já se comparou o livro a "Grande Sertão: Veredas" (1956), romance que também exige do leitor alto grau de empenho e comprmisso. Mas enquanto na obra de Guimarães Rosa os neologismos se impõem, Dicke trabalha com um léxico conhecido, acionado de uma maneira muito particular. São 518 páginas na nova edição, o que também conduz a um empecilho concreto para a publicação. Em uma época sem arquivos digitais facilmente compartilháveis, como fazer cópias dos seus calhamaços inéditos e distribuí-los? "O fato de ele escrever livros muito grandes também dificultava sob o ponto de vista prático", diz o pesquisador. Moraes encontrou uma carta do editor Ênio Silveira, da Civilização Brasileira, de 1980, que chamava o livro de Dicke de "vomitório". O romance "Orcus", nunca lançado, foi recusado. Na carta lê-se: "A obra poderia ser enxugada, emagrecida, mas, pelo visto, o autor deseja-a assim enorme. Faz a sua catarse e tem precisão de seu vasto vomitório". Outro exemplo encontrado pelo pesquisador foi o de Patrizia di Malta, que tentou representar Dicke na Itália em 2004. "Xerocar os seus livros, tão compridos, custa, e mais ainda enviá-los para as editoras", ela comentou em carta. Dicke ficava à vontade escrevendo narrativas longas, em um estilo que Hilda Hilst também definiu de modo elogioso como "impressionantemente prolixo". "Descobri que ele consegue fazer uma coisa fabulosa que é manter essa característica tão ornamental em textos curtos", analisa Moraes. Os 14 contos agora publicados eram dados como perdidos pelo próprio Dicke. O escritor pensava que os cupins, típicos da temporada de chuvas do Mato Grosso, haviam destruído os textos. "Quase chorei de tristeza! Foi uma hecatombe que procuro esquecer. E eu, que ultimamente andava rezando, juro, deixei de rezar", disse em uma entrevista de 1994 ao Diário de Cuiabá. "É possível que Ricardo Guilherme Dicke tenha morrido sem saber que este conjunto de contos havia sobrevivido a mais uma de suas tragédias particulares", escreve Moraes no prefácio de "Música de Mortos Suaves". O pesquisador encontrou os textos em meio a 50 quilos de papéis do arquivo pessoal de Dicke, durante o doutorado em teoria e história da literatura na Unicamp, defendido em 2021. Nesse período leu tudo o que foi possível encontrar em sebos a respeito do autor. Quando entrou em contato com a filha de Dicke, Ariadne, estava inicialmente interessado nas pinturas do escritor. Na conversa, ele mencionou um "monte de papel" deixado pelo pai. Três dias depois, Moraes desembarcava em Cuiabá para mergulhar na pilha do arquivo. Ariadne acabou permitindo que o pesquisador levasse consigo o material. É de seu gabinete em Princeton que Moraes mostra à Folha, por chamada de vídeo, o caderno de espiral, cor ocre, com os contos escritos à mão. "No meio de tudo tinha esse caderninho aqui", diz, segurando o original de páginas numeradas. "Esse aqui era super difícil de ler porque estava escrito à mão e está quase se desfazendo." Sem conseguir decifrar totalmente a caligrafia de Dicke, passou a se deter no material datilografado. Foi nesse processo que começou a notar semelhanças com os textos do caderninho. Descobriu então que os contos foram datilografados, indicativo de que era nesta versão que o escritor almejava publicá-los. Duas histórias do caderno ficaram de fora, pois já publicadas. O texto sobre um improvável triângulo amoroso entre dois frades e uma fiel, "Tríptico de Frei Dámaso", aparece modificado no romance "Caieira". Moraes optou por mantê-lo porque nunca fora publicado na sua forma original. Os contos são repletos de personagens solitários e de imagens que se repetem, como mortos e a natureza. Se chove, Dicke não escreve que a chuva é forte. Ele prefere "chovia como um desespero". Se existe um cemitério, Dicke prefere descrevê-lo como uma "floresta de cruzes". Ambos os exemplos estão em "Vigília". Em "Entardecer, Domingo", ele escreve "nenhum pássaro daqueles que voejavam saberia que eram cinco e meia, sem embargo eram cinco e meia do entardecer, horas crepusculares, silêncio, domingo". É um dos vários casos em que Dicke adota certo sotaque castelhano. Ele opta pela expressão "sem embargo", que soa como um "sin embargo" do espanhol, que significa "no entanto". Os contos, acredita o pesquisador, provavelmente foram escritos antes de 1967 —também antes, portanto, da publicação de seu primeiro livro. A influência espanhola poderia ser decorrente de seu casamento com a uruguaia Adélia Boskov Todorov, em 1961. Em cartas a ela, misturava os dois idiomas. Moraes, inclusive, encontrou uma tradução do espanhol para o português do conto "Marina", do venezuelano Rómulo Gallegos, feita por Dicke. Ainda em "Entardecer, Domingo", seu protagonista é consciente da condição de latino-americano, uma característica de vanguarda de sua literatura. "O rádio, muito perto de sua cabeça no sofá, emitia algo como um jazz viscoso, líquido, mole, estranho para seus ouvidos de latino-americano", conta o narrador. Dicke morreu em 2008 sem ver uma nova edição que estava sendo preparada de "Madona dos Páramos", que considerava seu melhor trabalho. Seu corpo está enterrado no Cemitério da Piedade, onde costumava brincar na infância, em Cuiabá. No túmulo, há uma inscrição como a da primeira página de "Cerimônias do Esquecimento" (1995): "Deus é um grande mágico que fabrica realidades".