E se seu cônjuge não aceitar o risco dos investimentos do casal?
27 Sep, 2026
Imagine duas pessoas viajando no mesmo carro. Uma se sente confortável a 120 km/h; a outra começa a ficar tensa quando o velocímetro passa de 90. Enquanto a estrada está vazia e reta, a diferença parece pequena. O problema aparece quando surge uma curva, começa a chover ou o carro derrapa. Nesse momento, não basta saber qual velocidade cada um prefere. É preciso saber em qual velocidade os dois conseguem continuar a viagem. Com investimentos acontece algo parecido. Um dos cônjuges se sente confortável deixando a maior parte do dinheiro em aplicações conservadoras. O outro aceita ações, investimentos internacionais e oscilações relevantes porque acredita que, no longo prazo, essa diversificação pode melhorar o resultado. Enquanto a carteira sobe, essa diferença de opinião quase não incomoda. O teste acontece quando o patrimônio cai. Por exemplo, imagine um casal com R$ 2 milhões investidos para a aposentadoria. Parte relevante está em ativos sujeitos a oscilações. Em determinado momento, os R$ 2 milhões passam a valer R$ 1,8 milhão. Um olha para a queda e diz: "Faz parte, nosso horizonte é longo". O outro enxerga R$ 200 mil a menos e responde: "Venda antes que percamos ainda mais". Qual dos dois está certo? Talvez essa não seja a pergunta mais adequada. O pior momento para um casal descobrir quanto risco aceita é depois que o risco já apareceu. Se um convencer o outro a vender e o mercado posteriormente se recuperar, pode surgir uma discussão ainda pior: quem foi responsável pela perda? Por isso, a decisão deveria acontecer antes da queda. Para que serve aquele dinheiro? Quando será necessário? Quanto pode oscilar sem comprometer o objetivo? E, principalmente, quanto os dois conseguem suportar sem abandonar a estratégia? É ainda mais difícil responder a essa última pergunta, pois uma coisa é ver o carrinho da montanha russa e a outra é estar dentro do carrinho. O risco adequado de uma carteira depende menos da coragem dos investidores do que da função daquele patrimônio. Por exemplo, R$ 500 mil destinados à entrada de um imóvel daqui a um ano não deveriam ser tratados da mesma forma que R$ 500 mil destinados à aposentadoria daqui a 25 anos. O primeiro objetivo exige previsibilidade. O segundo permite um horizonte maior para lidar com oscilações. Há também uma diferença importante entre capacidade de assumir risco e disposição para suportá-lo. Um casal pode ter renda elevada, patrimônio significativo e décadas pela frente até a aposentadoria. Financeiramente, poderia suportar uma carteira mais volátil. Mas isso não significa que ambos consigam dormir tranquilos quando o patrimônio cai 10%. E, se o dinheiro financiará a aposentadoria dos dois, basta que apenas um esteja confortável com a estratégia? Uma carteira pode ser perfeita no papel e péssima na prática se, na primeira queda relevante, um dos dois insistir em vender tudo. Uma estratégia que apenas um cônjuge consegue suportar talvez não seja adequada para o casal. Isso significa que deve sempre prevalecer o mais conservador? Não necessariamente. Imagine um casal de 40 anos que pretende se aposentar aos 65 e mantém praticamente todo o patrimônio em aplicações de curtíssimo prazo porque um dos dois não aceita qualquer oscilação. Evitar qualquer volatilidade também pode ter um preço. Se o retorno da carteira for insuficiente para o planejamento, o casal terá de compensar de alguma forma: poupar mais, trabalhar por mais tempo ou reduzir o padrão de vida desejado na aposentadoria. Ser conservador também é uma escolha de risco, apenas de outro tipo. Talvez o erro esteja em tentar definir um único "perfil de investidor" para todo o patrimônio da família. O dinheiro pode ter funções diferentes e, portanto, aceitar níveis diferentes de risco. A reserva de liquidez precisa de resgate imediato e estabilidade. Os recursos para comprar um imóvel em dois anos não precisam de liquidez, mas devem ter previsibilidade. Já o patrimônio destinado à aposentadoria em 20 ou 25 anos pode suportar maior diversificação e oscilações, desde que isso esteja de acordo com o planejamento e, principalmente, que os dois entendam e aceitem o caminho. Em vez de perguntar apenas "qual é o perfil do casal?", talvez seja mais útil perguntar "qual é o risco adequado para cada objetivo do casal?". Isso não significa que marido e mulher precisem investir exatamente da mesma maneira. Depois que os objetivos comuns estão adequadamente financiados, cada um pode assumir riscos diferentes com recursos destinados a seus objetivos individuais. Casais não precisam ter o mesmo perfil de investidor. Precisam ter uma estratégia em que ambos consigam manter quando o mercado fizer exatamente aquilo que eles temem. Ou seja, duas pessoas não precisam gostar da mesma velocidade. Mas, quando estão no mesmo carro, precisam concordar sobre uma velocidade que permita chegar ao destino sem que uma delas passe toda a viagem querendo puxar o freio, pois pode tornar a viagem ainda mais arriscada. Michael Viriato é planejador patrimonial e sócio fundador da Casa do Investidor.