Por que teste do Inmetro não representa mais autonomia e consumo dos carros

admin
29 Sep, 2026
Resumo A gasolina com a qual você abastece seu carro hoje não é a mesma usada para calcular oficialmente quantos quilômetros ele percorre com um litro do combustível. Desde 1º de agosto, a gasolina comum e a aditivada vendidas nos postos brasileiros passaram a ter 32% de etanol anidro, a chamada E32. Contudo, nos testes que servem de base para o cálculo dos números oficiais de consumo divulgados pelo PBEV (Programa Brasileiro de Etiquetagem Veicular), do Inmetro (Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia), ainda é usada gasolina com apenas 22% de etanol, a E22. A diferença chega, portanto, a dez pontos percentuais. Isso não significa que os testes do Inmetro tenham perdido sua função. O procedimento continua sendo útil para comparar a eficiência de diferentes carros porque todos são submetidos às mesmas condições. Mas não é correto interpretar os números de km/l da etiqueta como uma reprodução da autonomia que o motorista terá, no uso cotidiano, com o combustível disponível atualmente nos postos. O próprio Inmetro admite que ainda não realizou testes para medir qual é o efeito da nova E32 sobre o consumo e, consequentemente, a autonomia. Questionado pelo UOL Carros sobre quanto o aumento no teor de etanol pode alterar o consumo médio, o instituto afirma que "seria necessário realizar ensaios comparativos com ambos os combustíveis" para responder com embasamento técnico. Também informou que não fez simulações comparando a E22 usada nos testes com a E32 atualmente comercializada. Mesmo assim, o Inmetro considera que os números atualmente informados ao consumidor continuam representativos. "Consideramos que sim. Ainda não recebemos até o momento nenhuma justificativa embasada tecnicamente para alteração dos valores informados", afirma o órgão. Gasolina mudou, mas teste, não A diferença entre o consumo oficial e o real existe porque o combustível usado pelo PBEV não acompanha automaticamente as mudanças na composição da gasolina comercial. O Inmetro explica que, desde o início do programa, em 2008, mantém os mesmos combustíveis-padrão para preservar a comparação histórica dos resultados de consumo, eficiência energética e emissões dos veículos. O procedimento atualmente é regulamentado pela Portaria Inmetro nº 169/2023 e segue diferentes normas técnicas da ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas). Para veículos movidos a gasolina, a norma determina uma mistura de gasolina-padrão com 22% de etanol anidro. Enquanto isso, a gasolina comercial mudou diversas vezes desde o início do PBEV. Até julho de 2025, a mistura regular da gasolina comercializada nos postos tinha 27% de etanol, depois passou para 30%. Desde 1º de agosto de 2026, o percentual subiu temporariamente para 32% e, eventualmente, poderia chegar a 35%. A regra vale por 180 dias e pode ser prorrogada uma vez pelo mesmo período. A gasolina premium permaneceu em E25. Régua única e padronizada A explicação do Inmetro está na necessidade de criar uma régua única. Se o combustível do teste fosse alterado sempre que a composição da gasolina dos postos mudasse, carros avaliados em épocas diferentes deixariam de ter exatamente a mesma referência. Segundo o Inmetro, manter condições "padronizadas e repetitivas" permite comparar veículos diferentes de maneira uniforme. O órgão afirma que essa rastreabilidade é necessária inclusive para acompanhar a evolução histórica de consumo e emissões. Por isso, o instituto informa que não pretende substituir a E22 pela nova gasolina comercial e também não pretende criar, neste momento, uma correção específica por causa da E32. Segundo o instituto, "a mudança do combustível comercial não afeta os resultados dos ensaios realizados no âmbito do programa". Para o órgão, eventual efeito da E32 ocorreria de forma generalizada na frota e não impediria a comparação entre os modelos. Essa explicação resolve uma parte da questão: um carro que é mais eficiente que outro nas condições padronizadas continuará podendo ser comparado com ele. Mas não responde necessariamente a média real, em km/l, utilizando a gasolina disponível na bomba. Mesmo antes da chegada da E32, o valor mostrado ao consumidor não correspondia exatamente ao obtido durante o ensaio. O Inmetro aplica fatores de ajuste desde 2010 para tentar aproximar os resultados laboratoriais das situações encontradas no uso cotidiano. A metodologia foi inspirada em um modelo da EPA, a agência ambiental dos Estados Unidos, e leva em consideração diferenças que aparecem fora do laboratório, como trânsito mais congestionado, uso do ar-condicionado, velocidade nas estradas e diferentes estilos de condução. O instituto afirma que a metodologia indica que 90% dos usuários ficam dentro de uma faixa de mais ou menos 20% dos consumos declarados. Também ressalta que fatores como clima, pneus, peso transportado, manutenção, trânsito e maneira de dirigir podem modificar significativamente o resultado obtido por cada motorista. Mais etanol, maior consumo? A diferença entre a gasolina usada no laboratório e aquela encontrada nos postos não é apenas nominal, já que gasolina e etanol entregam quantidades diferentes de energia por litro. Gerson Borini, especialista em veículos e testes e ex-profissional da área de validação da General Motors, explica que, à medida que aumenta a participação do etanol, tende a ser necessário consumir um volume maior da mistura para obter a mesma quantidade de energia. "Nesse sentido, a gasolina piorou. Agora, como a gasolina tem mais álcool, você precisa de um volume maior dessa mistura E32 para ter a mesma energia do que precisava antes com E30 ou E27", afirma Borini ao UOL Carros. É esse teste que o Inmetro admite não ter feito. Questionado sobre quanto a diferença pode alterar consumo e autonomia, o órgão afirmou que seria necessário realizar ensaios comparativos com os dois combustíveis para chegar a uma resposta tecnicamente embasada. Veja também Deixe seu comentário O autor da mensagem, e não o UOL, é o responsável pelo comentário. Leia as Regras de Uso do UOL.