TSE cobra mais detalhes de metodologia de pesquisas, e institutos criticam mudanças durante corrida
29 Sep, 2026
Sob a presidência de Kassio Nunes Marques, o TSE (Tribunal Superior Eleitoral) alterou, neste mês, o questionário de registro de pesquisas eleitorais para cobrar mais detalhes da metodologia dos levantamentos. A mudança, durante a campanha, é criticada por representantes dessas empresas. As alterações começam a valer no próximo dia 5 –um dia após o primeiro turno. A partir dessa data, todas as pesquisas deverão estar sujeitas a um questionário de nove páginas que exige, por exemplo, especificar os municípios onde foi feita e o registro exato de data e hora do início e do fim das entrevistas. Também será necessário informar a base usada para o levantamento e eventuais limitações de cobertura da pesquisa, além do uso de áudio, vídeo e imagens no questionário –ponto que passou a ser cobrado após a campanha presidencial de Flávio Bolsonaro (PL) acionar o TSE para derrubar um levantamento Atlas/Bloomberg que usou o registro do candidato pedindo dinheiro a Daniel Vorcaro, do Banco Master. À frente do tribunal eleitoral desde maio deste ano, Kassio elencou o tema das pesquisas eleitorais como um dos principais de sua gestão. No ofício que traz as mudanças, ele escreveu que os "aprimoramentos" no Sistema de Registro de Pesquisas Eleitorais, o PesqEle, ocorreram para ampliar a padronização e o detalhamento das informações metodológicas. "Com a implementação das novas funcionalidades, as empresas continuarão realizando o preenchimento dos campos atualmente existentes no sistema e passarão a fornecer informações complementares destinadas a detalhar aspectos metodológicos das pesquisas registradas", diz o documento assinado por ele em 17 de setembro. Representantes de institutos de pesquisa, no entanto, criticam o momento da mudança feita pela corte eleitoral, às vésperas do primeiro turno e com implementação já durante a corrida eleitoral, e afirmaram terem sido surpreendidos com a medida. Em nota, a Abep (Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa) disse que as mudanças são inadequadas e deviam ter sido discutidas com o setor, com um prazo para testes e adaptação. "A preocupação da Abep com as alterações recentemente anunciadas não está na finalidade da medida, mas no momento, na forma e no procedimento adotados para a introdução das novas exigências", escreveu. "Embora representantes do setor tenham participado de reuniões anteriores com o tribunal, as empresas e suas entidades representativas não integram formalmente o Grupo de Trabalho, e o conjunto específico dos novos campos não foi submetido a debate público próprio antes da definição de sua obrigatoriedade." Luciana Chong, diretora do Datafolha (instituto de pesquisas de opinião pertencente ao Grupo Folha), também defendeu que novas diretrizes deveriam entrar em vigor no próximo pleito, e não "mudar as regras no meio do caminho". Segundo ela, o sistema do TSE já é complexo e, portanto, cobrar mais detalhes dificulta o trabalho dos institutos de pesquisa. Para Chong, também não está claro o objetivo de algumas mudanças estabelecidas pela corte, como informar o horário exato da entrevista. "Várias dessas perguntas a gente já responde. Margem de erro, intervalo de confiança, o tipo de abordagem. Tudo isso já é informado. Acho que não foi uma coisa muito bem pensada. Não me parece nada prático fazer isso. E qual é o objetivo? Acho que isso não ficou claro para os institutos", disse. A estatística responsável pelo Datafolha, Renata Nunes Cesar, acrescentou que o novo questionário vai exigir que os institutos se adaptem para respondê-lo durante o período eleitoral. A especialista citou a nova cobrança do TSE para saber quantas pessoas interromperam a pesquisa antes do término das perguntas –nesses casos, os entrevistadores já não davam sequência ao questionário. À Folha Márcia Cavallari, líder de opinião pública da Ipsos-Ipec, afirmou que o TSE deveria permitir que cada instituto cadastrasse a metodologia mais aprofundada e que as variáveis fossem destacadas no registro da pesquisa, sem a necessidade de um questionário novo para cada levantamento. "Aprofundar não faz mal a ninguém, mas [não] da maneira como está sendo feito, no meio do processo, fazendo uma para cada pesquisa", disse. Ela citou que pontos defendidos por outros institutos para aperfeiçoar a transparência, como reforçar a fiscalização sobre pesquisas autofinanciadas, não têm a mesma atenção do TSE. A Abep também cobrou a definição de critérios claros para o preenchimento e a interpretação dos novos campos do questionário, defendendo que pesquisas usam diferentes metodologias, com particularidades técnicas "que não podem ser transformadas em irregularidades simplesmente porque determinado método não se ajusta perfeitamente a uma classificação padronizada pelo sistema". Outro ponto levantado pela diretora do Datafolha é que o ofício de Kassio não deixa claro se as informações de teor técnico ficarão públicas ou se serão analisadas internamente pelo tribunal. Ela aponta que há risco de resultar em "ondas de tentativas de impugnação". "O cenário que a gente tem hoje é que, quando a gente pega o registro, o juiz de cada estado pode definir se a pesquisa pode ser impugnada ou não [...] Não tem uma regra. Quando a gente colocar todas essas informações, será que não podem levantar mais questões sobre a realização da pesquisa que não são pertinentes e isso causar mais ondas de tentativas de impugnação, de desqualificação da pesquisa?", perguntou. Desde julho, o presidente do TSE discutia mudanças para as empresas responsáveis pelos levantamentos. O magistrado chegou a propor a implementação de um "selo de acurácia eleitoral", mas desistiu da ideia após críticas. O presidente do TSE mirou as regras sobre os institutos de pesquisa após impor uma censura a um levantamento que mostrava a queda de Flávio Bolsonaro. A campanha do pré-candidato afirmou que o questionário do levantamento teria sido "estruturado de forma a induzir gravemente uma percepção negativa" sobre o senador após a revelação da troca de mensagens dele com o dono do Master para financiamento do filme "Dark Horse", sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Agora, as empresas terão de detalhar se foram utilizados áudio, vídeo, imagens ou outros conteúdos de mídia. A mudança permite identificar estímulos que possam influenciar os entrevistados. "Quando colocam nesse novo questionário: ‘Tem áudio ou vídeo, em que posição no questionário?’ Mas, se você já está registrando o questionário, já tem a ordem. Fica tudo meio repetitivo", disse Luciana Chong. "Dá a impressão de que as pessoas que sugeriram não sabem exatamente o que tem já no registro", completou Renata Nunes Cesar.