Crítica de Lanternas (1ª temporada)

admin
5 Oct, 2026
Estimated reading time: 8 minutos Quando se pensa em Lanterna Verde e em toda a sua mitologia nos quadrinhos, há algo no imaginário das pessoas que definitivamente tem pouco a ver com Lanternas . Não que a série seja uma total descaracterização do material original, pois a base está toda lá, mas ela opera sob uma ótica enraizada em situações terrenas que força o público a seguir um código muito específico. É como colocar brócolis no arroz do churrasco. Apostar que o âmago de Hal Jordan e John Stewart seria capaz de sustentar uma série de oito episódios exigiria muita coragem. Na verdade, coragem não… muita força de vontade e bons roteiristas. Bem, o anel perguntou a Tom King , Damon Lindelof e Chris Mundy se eles tinham medo, e a resposta foi: não! Rushville é uma cidade que guarda muitos segredos. No DCU, foi lá que a nave de Abin Sur caiu e, consequentemente, onde Hal Jordan se tornou e deixou de ser um Lanterna Verde para John Stewart assumir o posto. Lá também há Caçadores Cósmicos e uma trama ligada a Sinestro . Mais do que isso, foi lá que Hal Jordan morreu — ou melhor, foi assassinado. E esse é o grande ponto de partida de toda a história: quem matou Hal Jordan ? John Stewart precisa descobrir enquanto lida com as memórias de seu passado nada agradável ao lado do mentor, um homem solitário, depressivo e amargurado que só piorou com o tempo. Reprodução/HBO Descrever Hal só como um homem depressivo é ser simplista com o texto da série. Ele foi um homem obstinado que resistiu a uma herança maldita de autorrepressão por masculinidade com uma força de vontade que o tornou um dos grandes heróis do cosmos. No fundo, Hal era um cara genuinamente bom, que se portava como um grande herói, mas que se sentiu amedrontado e ameaçado quando vislumbrou a possibilidade de perder seu propósito para alguém que realmente poderia ser melhor do que ele. Ele errou e acertou tentando fazer o certo, mesmo que isso custasse a confiança de seus superiores. Como qualquer bom homem que se preze, sempre foi fiel aos seus instintos. Kyle Chandler entregou isso e muito mais na interpretação desse herói magnético. Reprodução/DC Studios John , por sua vez, é o verdadeiro propósito do show . Toda a história passa por sua moldagem como um Lanterna Verde que quebra padrões. Há, claro, debates raciais ao redor do personagem, mas a série se desafia a não seguir por um caminho óbvio e panfletário. John começa como um soldado cuja intuição jamais supera a programação. Ele tem que ser o Lanterna perfeito, fazendo exatamente o que os Guardiões esperam dele. Com o caos de Rushville e a queda de Hal Jordan na própria obstinação, John percebe que o contexto de Oa não serve para ele. O soldado dá lugar a um cara que segue os próprios instintos, mais até que seu falecido mentor, e vira um Lanterna Verde sob seus próprios termos. Não por acaso, o ápice do episódio final é o diálogo de John com o misterioso vilão da trama. Ao ter a liberdade de decidir seu próprio destino, ele opta por não seguir qualquer programação. Em grande parte, esta é uma série sobre mestres e aprendizes. O grande aprendizado de John foi não perpetuar o pior de seu mentor, mas buscar ser melhor. Ele se curou das mágoas do passado, deixou o ressentimento de lado, descobriu sua própria versão de herói e ofereceu essa mesma cura para quem virá depois dele. Reprodução/DC Studios Veja, se a Tropa dos Lanternas Verdes é substancialmente composta por policiais do cosmos, o fato John agir por fora dela, sem um chefe a se reportar, faz dele o super-herói dos Lanternas . É como o Batman e a polícia de Gotham. Isso é um desaforo para os Guardiões! Mas combina totalmente com a abordagem original do personagem nos quadrinhos. John surgiu para quebrar padrões, e agora foi reinventado para manter isso vivo. E claro que, assim como Kyle , Aaron Pierre tira nota 10 ao representar o homem contido que vai se soltando aos poucos. Lanternas segue seu próprio caminho, estruturando tudo em quem é John Stewart e no que ele aprendeu com Hal Jordan . É de legado, sustentada principalmente na dinâmica de dois homens muito diferentes entre si, mas que compartilham da mesma fagulha espiritual: a força de vontade. Esse é o foco e os roteiristas acham “OK” sacrificar a ação, os efeitos plásticos e se escorar em eventuais muletas narrativas, como o anel estar sempre descarregado quando mais se precisa dele. Pode quebrar as expectativas dos fãs, mas essas expectativas nunca foram geradas pela própria série. Fale o que quiser, mas jamais diga que Lanternas não jogou limpo com o público. Desde o piloto, a proposta era muito clara. Mas valeu a pena se permitir ao estranho tanto assim? Sim! A proposta funciona. Dar oito horas para ir tão fundo na vida de Hal e John torna os dois, talvez, os melhores personagens de todo o DCU. Vai ser difícil alguém fazer um trabalho superior no futuro com outro grande herói, especialmente os que ficarão restritos às curtas durações de cinema, como Batman e Superman . Fato é que os Lanternas Verdes são duas armas potentes no arsenal da DC que podem ser usadas para elevar qualquer filme. A primeira prova disso será Homem do Amanhã . Reprodução/DC Studios Lá atrás, quando James Gunn anunciou o DCU, ele já falava que o universo cinematográfico da DC iria apostar em entregar projetos autênticos de heróis conhecidos, focando na diversidade que poderia ser encontrada ao ceder a propriedade intelectual para obras que não soassem como filmes e séries convencionais de super-heróis. Assim como Pinguim foi uma série de máfia, Lanternas se estabeleceu como uma ótima série de detetive. E o melhor: fez isso sem fechar as portas para a mitologia da franquia. É realmente apenas uma questão de ótica. No dia em que um Lanterna Verde precisar enfrentar o Brainiac no espaço, ele poderá, sem que isso soe estranho. Levando em consideração essa perspectiva, é fácil concluir que Lanternas é o primeiro grande sucesso da proposta original do DCU. Por mais legais que Superman , Pacificador e Comando das Criaturas pareçam, são obras que soam como as “histórias de boneco” que a Marve l lança todo ano — e eu nem preciso citar Supergirl , que não é legal e segue a mesma fórmula Marvel de sempre. Aqui, até uma cena de voo parece fundamentada. Há uma aura gigantesca em como Hal decola feito um jato e o corte vai direto para outro planeta. Torna tudo mais físico, mais próximo. Como o próprio Hal diz em seu testamento: é mais fácil voar do que manter os pés no chão, e a nova série da HBO faz o mais difícil com bravura. Leia as resenhas individuais dos episódios: Siga O Vício no Google e não perca nada sobre Cultura Pop! Lanternas joga limpo com piloto que traz o cósmico para o cotidiano terreno Lanternas vai a Twin Peaks e acumula perguntas no episódio 2 Lanternas recorre ao fatalismo para alegoria sombria sobre o sistema no Episódio 3 Lanternas embaralha as cartas com paranoia e manipulação no episódio 4 Lanternas: Episódio 5 faz da obsessão de Hal Jordan uma forte alegoria política Lanternas: Episódio 6 recorre à memória para início do acerto de contas de John Stewart Lanternas: Episódio 7 é ensaio profundo sobre a máscara da masculinidade Nota 9 O post Crítica de Lanternas (1ª temporada) apareceu primeiro em O Vício .