Peça existe, mas não chega: por que carros ficam meses parados na oficina
6 Oct, 2026
Resumo Se o mercado automotivo faz parte das suas rodas de conversa, é bem possível que alguém tenha reclamado recentemente que o carro precisou ficar parado na oficina à espera de uma peça aparentemente simples. Ou que esteja rodando há semanas com um amassado, um para-choque quebrado ou algum reparo provisório porque o componente necessário simplesmente não chega. Não é difícil encontrar relatos assim. A demora na reposição aparece de forma recorrente nas páginas de montadoras no Reclame Aqui, com consumidores dizendo esperar semanas - e, em alguns casos, meses - por itens que vão de para-choques, grades e lanternas a módulos eletrônicos e componentes mecânicos. Há reclamações envolvendo tanto marcas tradicionais, com décadas de atuação no Brasil, quanto fabricantes que chegaram ao país recentemente. Apesar dos relatos, as entidades do setor ouvidas pela reportagem dizem não identificar um desabastecimento amplo. O que existe é uma combinação mais complexa: determinados componentes têm baixo giro, concessionárias e mercado independente operam com estoques e canais de distribuição diferentes e, em alguns casos, uma peça pode estar disponível em um ponto da cadeia sem conseguir chegar rapidamente ao veículo que precisa dela. Outro fator é a multiplicação de modelos e versões disponíveis, que torna mais complexo dimensionar os estoques e aumenta a possibilidade de uma peça específica não estar disponível naquele momento. A peça existe. Mas onde? Uma das explicações está na forma como os estoques são administrados. Ronaldo Teffeha, diretor de Comunicação da ANFAPE (Associação Nacional dos Fabricantes e Comercializadores de Autopeças para o Mercado de Reposição), afirma que as concessionárias tendem a manter em estoque principalmente os componentes mais procurados. "Eles têm estoque dos itens de maior giro e aqueles da curva C em diante são solicitados da montadora e ficam sujeitos à indisponibilidade", afirma. A chamada Curva ABC é uma forma de classificar estoques de acordo com a importância e o giro dos produtos. Na categoria C ficam, de maneira geral, itens menos procurados. Em vez de manter grandes quantidades dessas peças paradas no estoque, elas podem ser solicitadas conforme aparece a demanda. Um filtro, uma pastilha de freio ou outro componente substituído com frequência tende a ter giro suficiente para permanecer disponível. Já uma determinada grade, um farol específico de uma versão ou uma peça de acabamento pode passar muito tempo sem ser necessária e precisar ser solicitada somente quando surge um cliente. O desafio aumenta quando se considera o tamanho do catálogo. Um mesmo modelo pode ter peças diferentes conforme versão, motorização e ano de fabricação, e uma fabricante precisa dar suporte a veículos vendidos ao longo de vários anos. Para-choque, farol e lanterna viram vilões Há um tipo de componente que aparece com frequência nos relatos de demora: as peças externas. Segundo a ANFAPE, para-choques, faróis, lanternas, retrovisores, capôs, paralamas e grades dianteiras estão entre os itens mais sujeitos a dificuldades de disponibilidade. As reclamações de consumidores também mostram esse padrão, especialmente após colisões. São peças que muitas vezes não têm o mesmo giro de itens utilizados em revisões e manutenções periódicas, mas que se tornam indispensáveis quando acontece um acidente. Além disso, os carros atuais tornaram algumas peças externas mais complexas. Para-choques podem abrigar sensores de estacionamento, radares e outros equipamentos; retrovisores incorporam câmeras, motores e sistemas de alerta; faróis passaram a utilizar módulos eletrônicos e tecnologias específicas. Nem sempre o item que parece simples por fora é simples de substituir. Propriedade industrial entra na discussão Outro fator levantado pela ANFAPE é a proteção de propriedade industrial sobre determinados componentes. A entidade afirma que existem peças cuja fabricação pelo mercado independente é limitada por direitos detidos pelas fabricantes dos veículos. "Essa é uma discussão antiga, pois tem alguns itens que as montadoras limitam a produção pelo mercado independente por questões de propriedade industrial e, ao mesmo tempo, não entregam esses componentes para o mercado, deixando o dono do veículo aguardando", afirma Teffeha. A declaração representa a posição da ANFAPE, entidade diretamente interessada na ampliação da atuação do mercado independente. A associação defende que uma oferta maior desses componentes poderia diminuir o tempo de espera em determinadas situações. A Anfavea, que representa as montadoras instaladas no país, foi procurada para explicar como são dimensionados os estoques de reposição, comentar os prazos, mas não respondeu até a publicação. Chineses recém-chegados chamam atenção das oficinas Do ponto de vista das oficinas, a dificuldade também não aparece de maneira uniforme entre todos os carros. O Sindirepa, que representa empresas de reparação de veículos, afirma que não percebe uma falta generalizada de componentes mecânicos para a frota já consolidada no Brasil. Segundo a entidade, nessa parcela do mercado os problemas costumam ser pontuais e aparecem com maior frequência justamente em peças externas. Há, porém, maior preocupação com alguns veículos de marcas chinesas que começaram a operar mais recentemente no país. "O que a gente tem notado mais é falta de peças dos carros chineses, desses carros novos que estão chegando e ainda não têm uma infraestrutura de concessionárias e de reposição", afirma a entidade. Segundo o Sindirepa, as dificuldades aparecem principalmente em peças externas, mas também há registros envolvendo itens mecânicos e de suspensão. A Abeifa, que representa fabricantes e importadores de veículos, foi procurada para comentar a disponibilidade de peças entre marcas importadas e recém-chegadas e explicar como essas empresas dimensionam seus estoques no país, mas não respondeu até a publicação. As respostas das entidades mostram que não há uma falta generalizada de autopeças no país. Os problemas estão mais concentrados em componentes de menor giro, peças externas e modelos cuja rede de reposição ainda está sendo estruturada. Mas, para quem está com o carro parado, essa diferença pouco importa. Basta uma única peça não estar disponível para atrasar todo o reparo, e manter o veículo dias ou até semanas na oficina. Veja também Deixe seu comentário O autor da mensagem, e não o UOL, é o responsável pelo comentário. Leia as Regras de Uso do UOL.