Latam recebe 1º Embraer; Gol deve ser a próxima a adotar marca brasileira

admin
8 Oct, 2026
Resumo A Latam recebe hoje seu primeiro avião da Embraer. Trata-se de um E195-E2, a maior aeronave comercial da fabricante brasileira, com capacidade para até 146 passageiros. Neste ano, a Abra, controladora da Gol e da Avianca, também fechou acordo para adquirir o modelo. Os movimentos ampliam a presença da Embraer entre grandes companhias aéreas que concentram suas frotas em aviões da Airbus e da Boeing. Anunciado em setembro de 2025, o acordo da Latam prevê a compra de 24 aeronaves e opções para adquirir outras 50. A companhia informou que, entre novembro de 2026 e março de 2027, até 14 jatos serão incorporados gradualmente à operação. A Abra anunciou em julho deste ano um acordo para adquirir 20 jatos, além de 10 opções de compra e 15 direitos de compra. A primeira entrega está prevista para o quarto trimestre de 2027. O grupo afirmou que pretende usar os aviões para ajustar a capacidade à demanda, abrir mercados e ampliar frequências. Ainda não informou quantas aeronaves ficariam com cada companhia, mas é provável que a Gol passe a operá-los. Entre as companhias aéreas que atuam no mercado doméstico brasileiro, a Azul foi, por anos, a única a voar jatos da Embraer. "Os E-Jets da Embraer são muito eficientes para rotas menos densas. São aviões menores e, como a Azul historicamente teve como estratégia conectar cidades menores, fazia sentido ter os E-Jets", afirma André Mazini, chefe de pesquisa de ações do Citi. A aposta das empresas A aposta de Latam e Abra na Embraer está ligada à possibilidade de voar para cidades que talvez não sustentassem uma operação frequente de aeronaves maiores. A Latam já disse que os novos aviões podem permitir a inclusão de até 35 destinos à sua rede sul-americana, que hoje atende 160 cidades. Os E195-E2 integrarão a frota que atualmente é composta por 362 aeronaves, sendo 286 modelos da marca europeia Airbus e 76 da americana Boeing. O plano da Latam prevê incorporar um total de 130 aeronaves até 2030. Além dos jatos da Embraer, também estão previstas novas aquisições de Airbus e Boeing. Para preparar a operação dos E195-E2, a Latam informou que contratou mais de 50 pilotos e copilotos e iniciou o treinamento para o modelo. Procurada pelo UOL, a Latam forneceu informações sobre os planos, mas não concedeu entrevista. No Grupo Abra, a possível entrada da Embraer na Gol teria um significado especial porque a empresa nunca operou com outro avião que não fosse o Boeing 737. A padronização de frota ajudou a reduzir gastos com treinamento, manutenção e peças e simplificou a escala de tripulações. Incorporar uma segunda família de aeronaves tende a aumentar a complexidade operacional. Em compensação, aviões menores podem permitir que a empresa teste mercados que não comportam tantos assentos quanto alguns modelos 737 que têm cerca de 180 lugares. Procurado pelo UOL, a Abra não concedeu entrevista. O impacto das aéreas na Embraer As encomendas chegam em um momento de aumento da produção da Embraer. No terceiro trimestre deste ano, a fabricante entregou 66 aeronaves, o melhor resultado da história para o período. Nos nove primeiros meses do ano, foram 175 entregas, 14% acima do mesmo período de 2025. Os E-Jets da Embraer têm sido bem aceitos por diversas companhias ao redor do mundo. Eles são eficientes, e também ajuda o fato de Boeing e Airbus enfrentarem problemas na cadeia de suprimentos e terem filas muito grandes de entregas André Mazini, chefe de pesquisa de ações do Citi Nesse cenário, segundo o analista, os pedidos firmes de Azul, Latam e Abra somam 26% da carteira de encomendas da família E2 da Embraer. "Não dá pra dizer que a entrada de Abra e Latam é transformacional para a Embraer, mas virou um negócio relevante para a companhia." Luan Pereira, analista que cobre a Embraer no Banco do Brasil, destaca o potencial das aeronaves que ainda podem ser incluídas nos acordos. Ele calcula que, se opções de compra forem convertidas em pedidos firmes, os aviões dessas empresas poderiam equivaler a cerca de 20% da carteira atual da Embraer. "São opções que, se convertidas em pedidos, têm grande potencial de destravar valor", afirma Pereira. A companhia também tem um ganho na vertical de serviços e transportes, que faz manutenção de aeronaves e dá suporte para os produtos da empresa. Luan Pereira, analista de Embraer no Banco do Brasil Procurada, a Embraer também não concedeu entrevista. Atuação do governo A inclusão de aviões Embraer nas frotas da Abra e da Latam vem após o governo federal passar a defender maior presença de aeronaves produzidas no Brasil nas empresas que operam no país. Em dezembro de 2025, o então ministro de Portos e Aeroportos, Silvio Costa Filho, afirmou que a meta do governo era elevar de 12% para mais de 20% a participação de aviões da Embraer na aviação nacional até o fim do terceiro mandato de Lula. Costa Filho também disse que o governo conversava com dirigentes das aéreas para estimular a compra de aeronaves da fabricante. Além do diálogo com o setor, governo e Congresso trabalharam em mudanças tributárias que podem favorecer a expansão da aviação regional — e, indiretamente, a demanda por aeronaves menores, segmento em que atua a Embraer. A reforma tributária prevê redução de 40% das alíquotas de IBS e CBS incidentes sobre o transporte aéreo regional de passageiros e cargas. O governo ainda discute como o benefício será aplicado. O Ministério de Portos e Aeroportos ainda propõe tratamento diferenciado no Imposto Seletivo para aeronaves mais eficientes e menos poluentes. A pasta defende que modelos que atendam a determinados critérios ambientais tenham alíquota zero. A medida, porém, ainda está em discussão. Analistas consultados pela reportagem do UOL afirmam, porém, que as encomendas dos jatos da Embraer estão mais ligadas ao desempenho dessas aeronaves do que às medidas do governo. "Os atributos e mérito da Embraer são latentes. Várias companhias ao redor do mundo estão adotando esses jatos na busca por eficiência", afirma Mazini, do Citi. Na avaliação de outro analista do mercado financeiro, que conversou com o UOL sob condição de anonimato, a longa fila de espera para a entrega de aviões da Boeing e da Airbus também favoreceu a venda de jatos da Embraer à Latam e à Abra. No caso da Latam, a necessidade de recompor a frota era maior porque a companhia havia devolvido aeronaves durante a pandemia. Além das questões tributárias, o governo alterou as regras do Fundo Nacional de Aviação Civil (FNAC) para permitir empréstimos a companhias aéreas, operados pelo BNDES. Criado em 2011 para fomentar a aviação civil e a infraestrutura aeroportuária, o fundo passou a poder apoiar esse tipo de financiamento após mudanças legais aprovadas em 2024. "O FNAC era um fundo que não era utilizado, mas o governo aprovou uma lei para garantir recursos para as companhias aéreas que atuam no Brasil e que estavam praticamente quebradas por conta da pandemia", afirma José Luis Gordon, diretor de Desenvolvimento Produtivo, Inovação e Comércio Exterior do BNDES. Hoje, há duas linhas principais do FNAC para as aéreas. Uma delas, de R$ 8 bilhões, é emergencial e destinada a capital de giro. A outra, de R$ 5,56 bilhões, é voltada a investimentos de longo prazo e pode financiar, entre outras finalidades, a aquisição de aeronaves novas, pagamentos antecipados a fabricantes e serviços de manutenção de aeronaves e motores. No fim de setembro, a Azul informou ter contratado um financiamento de longo prazo de até R$ 2,66 bilhões com recursos do FNAC e recebido o primeiro desembolso, de cerca de R$ 1,3 bilhão. A empresa disse que usará os recursos para reforçar a liquidez e administrar passivos, incluindo o pagamento antecipado de uma dívida mais cara. Segundo Gordon, do BNDES, os recursos aprovados para a Azul fazem parte da linha emergencial de R$ 8 bilhões. Ele afirma que os financiamentos da tranche de R$ 5,5 bilhões, que pode ser usada para aquisição de aeronaves, ainda estão em análise. "O que posso dizer é que várias companhias já mostraram interesse por essa linha", diz. O diretor também destaca o papel do BNDES no financiamento de aeronaves da Embraer como um todo. Segundo ele, cerca de 40% dos aviões exportados hoje pela fabricante brasileira são financiados pelo banco. Filipe Nielsen, do Citi, diz que as companhias aéreas brasileiras buscam reduzir o custo da dívida e avaliam diferentes alternativas de financiamento. "É importante considerar que o FNAC vai concorrer com uma emissão de dívida no mercado de capitais fora do Brasil e até com o leasing. Quem tem um bom rating consegue ter várias opções de crédito", afirma. Em agosto, a Latam anunciou um financiamento, feito no mercado privado, de aproximadamente US$ 505 milhões para a incorporação de 11 aeronaves à sua frota, sendo cinco Airbus e seis Embraer. A estrutura de empréstimo de longo prazo foi liderada pelo BNP Paribas. Para os analistas, o próximo passo será acompanhar se as novas rotas das aéreas se tornam rentáveis. O resultado dependerá da eficiência das companhias e também de fatores como a demanda por viagens, o preço do combustível e o custo do crédito. Veja também Deixe seu comentário O autor da mensagem, e não o UOL, é o responsável pelo comentário. Leia as Regras de Uso do UOL.